Por que sempre um Sul-Americano?

Explicando porque as surpresas nas semifinais do Mundial da FIFA acontecem só com os times Sul-Americanos.

Apito final do árbitro Viktor Kassai, Atlético Nacional 0 x 3 Kashima Antlers. O jogo que ficará marcado para o grande público como o primeiro com auxílio de vídeo á disposição da arbitragem (a primeira intervenção foi tão desastrada que parece ter sido encomendada por algum critico a adoção do sistema) trouxe mais um gosto amargo ao paladar latino: Mais um time representando a Libertadores cai antes mesmo de ter a chance de desafiar as grandes potências europeias. A eliminação do Atlético Nacional foi a terceira em uma espaço de sete anos que o representante da Libertadores cai nas semifinais do Mundial da FIFA. Não dá mais pra fechar os olhos e tratar como exceção.

Na primeira vez que o fato aconteceu, em 2010, o Internacional foi eliminado por um desconhecido Mazembe. O time do Congo chocou o mundo ao fazer jogo parelho (ainda que tenha nivelado por baixo) no primeiro tempo, abrir o placar no início do segundo tempo e fechar o caixão colorado com gol aos 40 minutos da etapa complementar. Final de jogo Mazembe 2–0 Internacional, o público dividia seu estado de estarrecimento entre o placar e dança do goleiro Kidiaba. O Internacional jogou mal? Karma por um time querer ganhar um Mundial com Celso Roth? Pode ser. O time colorado fez uma partida muito ruim de fato, desorganizado desde o início se desesperou ao levar o primeiro gol e sucumbiu quando o Mazembe fez o simples ao fechar os espaços depois de ter alcançado a vantagem mínima.

A segunda eliminação em semifinais do representante da América do Sul veio em 2013. O Atlético MG de Ronaldinho Gaúcho, Victor, Tardelli e Cuca caiu diante do Raja Casablanca do Marrocos. Enredo de jogo similar ao vivido pelo Internacional 3 anos antes, sofreu gols no segundo tempo, mas o Galo não fez uma partida ruim; a defesa que não era o forte daquele time apresentou as mesmas falhas corriqueiras daquele ano e o ataque não estava na noite mais inspirada de 2013. 3–1 e o Atlético MG perdia para um time Marroquino que foi melhor em campo, o sinal de alerta da América e principalmente do futebol Brasileiro já deveria ter se acendido.

O atacante Suzuki faz o terceiro gol do Kashima e sela o placar.

Hoje, 14 de dezembro de 2016, foi o Atlético Nacional que ficou pelo caminho. Adotado pelo público brasileiro, em razão dos acontecimentos no recente desastre que vitimou o elenco da Chapecoense, o time de Medellin perdeu em um jogo franco diante do campeão Japonês Kashima Antlers. A partida estava aberta com os dois times atacando desde o início, o Atlético Nacional teve péssima pontaria no embate mas também viu sua defesa bastante exposta diante do disciplinado e eficiente adversário. Com os 3–0 no placar, sem margens para polêmicas baratas (e agora tecnológicas) de arbitragem, o Kashima se tornou o primeiro campeão japonês a fazer a final do Mundial da FIFA.

O que chama a atenção é a forma como esse Atlético Nacional chegou para o Mundial. O time que conquistou a Libertadores de 2016 vinha embalado para o Mundial: Disputaria a final da Sul-Americana contra a Chapecoense, com grandes chances de dominar a América do Sul, chegou até as semifinais do campeonato colombiano. Não foi um time que repetiu os erros de Internacional 2010 e Santos 2011, que andaram em campo no segundo semestre até a chegada do bendito Mundial. Nem mesmo esse embalo e ritmo de competição ajudaram o Atlético Nacional, que perdeu também para um recente campeão Japonês que contava com o mesmo embalo. Os dois times que fizeram as semifinais de hoje estavam em condições parelhas e a América do Sul sofreu o revés.

As eliminações de 2010, 2013 e 2016 revelam um cenário perigoso ao futebol praticado no nosso continente: Sonhamos tanto em bater de frente com os clubes Europeus (que jogam a competição muito mais como protocolo do que com gana) no Mundial da FIFA e a realidade é que na prática estamos sendo alcançados pelo futebol praticado nos outros continentes.

A medida que o profissionalismo no futebol avança na África e na Ásia, principalmente o Japão que já faz um trabalho de décadas, os resultados frente aos Sul-americanos começam a aparecer. Não é coincidência que estamos sendo alcançados por eles, afinal se o nível de organização e profissionalismo dos times da América estão mais próximos de África e Ásia porque diabos os resultados dos times de cá seriam mais parecidos com o resultados dos times Europeus? Talento? Hoje foi só mais um dia que tivemos exemplo de que a tática e organização podem igualar e superar esse fator, (lembre-se sempre que a Alemanha campeã do mundo de 2014 foi para a prorrogação contra a Argélia nas oitavas de final e fez o que fez no Mineirão, e não somos loucos de achar que a seleção argelina era mais talentosa que a brasileira). Temos que largar a muleta do Talento que há tempos não consegue sustentar o corpo moribundo do futebol de clubes da Conmebol.

Se a situação do futebol continental representada pelo Atlético Nacional já preocupa temos que fazer uma reflexão a parte sobre o futebol dos campos tupiniquins. O futebol brasileiro é o mais forte economicamente do continente, tem as melhores estruturas de treinamento, as melhores equipes do mundo em recuperação e preparação física e mesmo assim está a duas edições sem sequer ser finalista da maior competição continental disputada na América do Sul! Se temos as melhores condições, pagamos os maiores salários aos atletas do continente onde é que estamos levando pau de colombianos, chilenos e argentinos? Na parte tática, óbvio. O time que foi mais longe na Libertadores 2016, O São Paulo, foi colocado na roda pelos colombianos do Atlético Nacional, embora alguns insistam em chorar erros de arbitragem no confronto (que aconteceram sim, mas que de jeito nenhum foram maiores que o chocolate que o time tomou). O mesmo Atlético Nacional que hoje perdeu para um time mais eficiente no plano de jogo.

O dia que tivermos desenvolvimento da parte tática de atletas e treinadores do nível praticado na Argentina, Chile, Colômbia aliado a estrutura de nível de alguns clubes brasileiros poderemos planejar um jogo equilibrado contra um time europeu no mundial, diferente disso é apenas sonho. O Internacional fez um jogo ruim, o Atlético MG não estava no dia mais inspirado, o Atlético Nacional perdeu um caminhão de gols. Não deixam de ser verdade, mas se tratarmos 3 eliminações com reducionismo e como exceção teremos como regra assistir a final do Mundial pela TV entre um Europeu e um time de qualquer outro lugar.