Dos Armários que não conseguimos sair…

... ou aqueles que nos forçam a entrar.

Demorei muito pra escrever esse texto — e quando eu digo muito, é muito mesmo, uns cinco anos refletindo sobre os mais de dez vividos nas sombras. E é por isso que eu digo que hoje, no dia da visibilidade lésbica, esse texto não é para você sapatão.

Explico.

Recentemente encontrei na internet um Tumblr recheado de ilustrações e quadrinhos maravilhosos, daqueles repleto de representatividade e verdade que te faz sorrir até a orelha. É o “Na ponta da Língua”, por Beliza Buzollo. Nele achei um quadrinho que — carinhosamente — apelidei de “O Armário” que foi um grande soco no estômago.

Um soco daqueles que dói mais que se é capaz de explicar, vira ao avesso e faz você olhar pra trás tentando entender de onde veio a porrada.

Ilustração de Beliza Buzollo.

E por que tudo isso? Porque todas essas frases que podem ser lidas ai em cima já foram ouvidas por mim e por todas as lésbicas que (re)existem por aí, inclusive, e talvez principalmente, por aquelas que ainda não tiveram coragem de se assumir por serem bombardeadas todos os dias por frases e pensamentos como esses.

Por isso, sapatão, esse texto não é pra você. Nós nos entendemos e reconhecemos nas lutas cotidianas, nas invisibilizações, nas agressões e também nas conquistas e reconhecimentos. Pra você, todo meu afeto. E força.

Esse texto é para você Família. Para você “amigo”. Para você super conservador. Para você ser humano sem luz que acredita ser seu direito julgar e oprimir o outro e confunde isso com liberdade de expressão.

Para vocês pode ser “só um elogio”, “mais um comentário” ou “o preconceito está na nossa cabeça”, mas a verdade é que a cada frase dessas que nós lésbicas escutamos, um passo para trás é dado. E um passo para trás nessa jornada de autoconhecimento e, principalmente, aceitação é um puta retrocesso.

Costumo dizer que sair do armário, para mim, é um ato político. É fazer da nossa existência, resistência. E como disse Aline Miranda: “ser mulher e amar outra mulher é revolucionário”.

No entanto, é sempre bom lembrar que sair do armário é um processo difícil pra caramba. É anunciar aos quatro ventos quem se é. Ser de verdade quem se é. É dar a cara a tapa todos os dias. E isso, na sociedade machista e misógena que a gente vive, é bem assustador.

Assusta lidar com a heteronormatividade compulsória, ou seja, com os papéis sociais, comportamentos e padrões estéticos atribuidos como normais ou aceitáveis para cada gênero e categorizando todos os espectros do desejo, afeto e gênero como desviantes. E isso sendo bem simplista na definição.

É assustador lidar com a fetichização dos nossos corpos e afetos. E também com a hostilização.

É assustador encarar todos os olhares tortos. E não se enganem, eles são muitos e por todos os lados, seja daqueles que nunca te viram na vida ou daquela pessoa que tá todo fim de semana na sua casa.

Assusta ter que aumentar o repertório de respostas quando o repertório de conversas se reduz, no início, ao quanto isso está sendo estranho/difícil/insira qualquer outro sentimento aqui para aqueles que estão à sua volta. E incomoda porque, mais um vez, nosso protagonismo é retirado, somos silenciadas em nossa própria vivência.

Assusta tanta coisa e mais ainda perceber que todas essas micro-violências cotidianas, às vezes nem tão micro assim, são naturalizadas e, na maioria das vezes, nem são vistas como violências. O que nos torna invisíveis.

Por tudo isso e muito mais, você que conhece uma lésbica não a silencie. Não tome seu lugar de fala. Lembre-se que esse momento é importante, escute-a.

Não seja a pessoa que pergunta “cadê os namoradinhos?” na festa de família.

Não use frases como “tenho muitos amigos gays, mas…” para disfarçar seu preconceito.

Não pense e muito menos verbalize que somos lésbicas “porque ninguém comeu direito” ou “é falta de pica”, nossa existência e desejo é complexa demais para ser reduzida em torno de um pênis — inclusive se quisermos um podemos comprar de varias formas, tamanhos, cores e alguns até brilham no escuro.

Não diga “você pode ser o que quiser mas tem que aceitar as consequências”, isso soa quase como uma ameaça e é extremamente negativo, ninguém pensa que a consequência é liberdade.

Não falem “você vai matar seu pai” (pois é, ouvi isso!) porque a não ser que a sapatão esteja armada e com intenção de matar, isso não vai acontecer.

Não a façam acreditar que “é a decepção da família”, nem em um momento de impulso, fazer alguém acreditar nisso é cruel.

E não tratem como fase, não é. É uma fase de uma vida inteira, então não minimizem tudo que passamos para estarmos ai dividindo esse momento com você.

Eu podia passar os dias listando coisas que vocês não devem fazer para não contribuir com as violências diárias que sofremos mas vou me limitar a dizer somente:

“Não sejam as pessoas que nos aprisionam nos armários”