A Morte do Bielsismo

O técnico da Seleção Argentina, Tata Martino, pediu demissão nessa terça-feira. Não será mais o comandante da Albiceleste e não deixará saudades no torcedor Argentino.

Acostumado a sofrer, e não é de hoje, o hincha gostaria que a saída não acontecesse pela desorganização da AFA, desculpa dada pelo estratega, mas sim pelo reconhecimento do próprio Tata que seu projeto futebolístico, apesar de feito com boas intenções, é falido e não deu nenhuma dignidade ao futebol Argento e nem ao torcedor. Ninguém quer ir ao bar e falar: “O meu futebol é mais conceitualmente interessante do que o seu. O projeto é de longo prazo e temos que ter calma”. Quando se trata de Bélgica, Suécia ou Estados Unidos pode até ser, mas duvido que os Argentinos tenham esse zêlo pelos bastidores que os analistas românticos enxergam.

Martino lembra muito seu mentor principal quando o assunto é conquistar títulos, o que significa que passa longe deles. O mentor é Marcelo Bielsa, que é um desses casos do futebol onde o personagem é maior do que o ator. Martino jogou para Bielsa naquele Newell’s de Scoponi, Gamboa, Berizzo e Llop, só para falar da defesa. Aquele time conquistou alguns títulos locais, surpreendeu e chamou a atenção do futebol. É o mesmo time que perdeu duas vezes para o São Paulo, aquele do Telê, em 92, na decisão da Libertadores, e em 93, nas oitavas-de-final, nessa ocasião já sem Bielsa, mas com a mesma espinha dorsal. Depois daquilo, a carreira já não foi a mesma. A fama o precedia.

A ideia de jogo era um futebol bonito, vistoso e eficiente. O sonho dourado de todos os torcedores. Bielsa acabou indo ganhar dinheiro no futebol Mexicano, onde não conquistou nenhum título. Voltou a Argentina em 1997, dirigindo o Vélez de Chilavert, Pellegrino, dos irmãos Husain, e do destaque Patricio Camps. Já naquela altura os técnicos mais badalados do país eram Ramón Díaz e Carlos Bianchi, mas após a saída de Passarella da Selección, Bielsa, na ocasião no Espanyol de Barcelona, e respaldado pelo título do Apertura 98 com os Fortineros, acabou sendo chamado para dirigir a Albiceleste.

O trabalho de El Loco começou na Copa América de 99, uma Argentina renovada entrou em campo, e decepcionou. Com 13 jogadores atuando no futebol local e 9 do exterior, o desempenho foi ruim. Ficou famosa a derrota por 3–0 para Colômbia com os três pênaltis perdidos por Martín Palermo. A derrota para o Brasil nas quartas-de-final não colocou o trabalho de Bielsa em cheque, era ainda o começo da caminhada.

Sem participar dos Jogos Olímpicos de 2000 e da Copa América 2001, era natural que a Argentina tivesse um desempenho melhor nas Eliminatórias. Nenhum jogador perdeu férias, não houve críticas da imprensa local e tudo parecia perfeito no time que tinha Verón, Sorín, Crespo, Batistuta e Ortega fazendo bonito. A dúvida pelo dono da camisa 9, aliás, foi um dos pontos que começaram a comprometer o trabalho de Bielsa. Crespo estava no auge, Batistuta já com 33 anos em 2002, não era o mesmo que tinha voado na primeira temporada com a Roma. As brigas eternas de Verón e Sorín, a ridícula convocação de Caniggia, para ser expulso no banco, e os reservas como Crespo e Claudio López tumultuando o ambiente, revelaram um treinador incapaz de se impor em um grupo de estrelas. Deu no que deu na Copa: Eliminação na primeira fase de uma Argentina que era favorita ao título.

É verdade que Bielsa e seus discípulos são os maiores entendedores do futebol. Devoram vídeos, livros, sabem tudo de tática, mas isso não é o suficiente. Coco Basile, ex-jogador, boêmio e típico paizão, mas menos aferrado a prancheta, levou a Argentina a duas conquistas de Copa América. Sem Maradona, nos anos de 91 e 93. O torcedor naquela época não queria saber de futebol conceitual, acadêmico e até plástico. Queria levantar troféus. La Copa es la obsesión. Siempre. O ouro olímpico em 2004 não serviu para manter Bielsa no comando. El Loco se fué.

Martino herdou pouca coisa boa de Bielsa. Mas a sua adesão, pelo menos da boca pra fora, ao Bielsismo lhe rendeu um crédito inimaginável para um treinador que apenas foi campeão na Liga Paraguaia e uma vez com um Newell’s cheio de bons jogadores como Maxi Rodríguez, Heinze e Scocco. Ele conseguiu fazer o Barça de Messi vencer apenas uma Supercopa da Espanha quando lá esteve. Isso mostra o quanto o flerte com o fracasso é parte indissolúvel do Bielsismo. O próprio Bielsa andou pela Seleção Chilena, depois Atheltic Bilbao e Olympique de Marselha, mas só na base do “pojeto”. Não podemos ser rigorosos demais com quem propoe um bom futebol, mas tudo tem limite. Os anos de Bielsa e seu legado futebolístico acabaram. Isso é bom. Foram 8 anos, dos 23 sem título da Argentina, onde esse foi o modelo vigente. Foi um bom prazo para as coisas darem certo, antes que os ferrenhos defensores do “projeto de longo prazo” falem alguma coisa.

Não se sabe quem assumirá o comando da Albiceleste. Alguns falam na volta de Sabella, que está doente, outros em Bauza, por seu modelo copero, de pouco brilho futebolístico, mas muito resultado, talvez ser necessário nesse momento. Simeone é unanimidade, mas não vai trocar o Atlético de Madrid, os milhões de Euros e seu status de ídolo no clube Colchonero por uma missão complicada. Dirigir a Argentina, sem Messi, com a AFA pegando fogo e sendo obrigado a levar um título é das tarefas mais complicadas do futebol mundial hoje. Quem é o LOCO que se habilita? — EL LOCO Bielsa já teve sua chance. Façam suas apostas…

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