À esquerda e seus minions

Um breve comentário sobre o ocorrido com o candidato Jair Bolsonaro e como a esquerda tem reagido nas redes.

Em plena campanha eleitoral em Juiz de Fora, nesta quinta-feira (06 de Setembro de 2018), um dos candidatos com maior intenção de voto é esfaqueado em meio a multidão, perdendo 2,5 litros de sangue. O autor do crime, preso em flagrante é Adélio Bispo de Oliveira. Bolsonaro foi levado imediatamente, e em estado de choque, para a Santa Casa de Misericórdia da cidade. Depois de se tomar as devidas providências, parece que o candidato está em situação estável, ainda que seja bastante grave.

Bom, o motivo que me levou a digitar algumas palavras sobre o ocorrido foi a reação da esquerda frente ao que ocorreu. Com “esquerda” aqui, sendo bem claro, eu me refiro tanto as lideranças partidárias e militantes quanto as inúmeras pessoas que eu tenho adicionados em minhas redes sociais (sobretudo o Facebook) que foram a público debochar, fazer piada, ou se vangloriar do ocorrido.

Eu pessoalmente achei bem madura a reação dos outros presidenciáveis, nada demais visto que eles não podem se dar o luxo de cometer gafes num momento de disputa eleitoral. Certamente encontrei (poucas) pessoas da esquerda com posições razoáveis sobre o assunto. Porém, a grande chuva de memes, piadas, desconfianças[1], ironias e deboches me chamou bastante a atenção.

A pergunta principal é: o que pretendem os militantes e simpatizantes da esquerda? É preciso lembrar que o ponto central de qualquer disputa política democrática é o convencimento, o diálogo, por isso que durante a corrida eleitoral os candidatos são convidados para um debate, e não para uma luta de boxe, uma maratona ou coisas do tipo.

Outra formulação da pergunta anterior: a quem os militantes e simpatizantes da esquerda querem convencer com aquelas atitudes? Como eu disse acima, Bolsonaro é o candidato com uma das maiores intenções de voto, na maioria das pesquisas que vi ele só está atrás de Lula que, sinceramente, muito provavelmente não vai concorrer a presidência este ano. É difícil identificar as intenções dessa militância que não cansa de se lamentar do quanto é esquecida pelo povo, do quanto a ideologia dominante faz com que pareçam monstros e do quanto é difícil lidar com um povo que é “ignorante” e, por isso, reacionário. Eis que nesses últimos dois dias eu vi atitudes verdadeiramente monstruosas vindo de algumas dessas pessoas. Debochar de uma pessoa que foi esfaqueada?! E isso por conta de ideais políticos divergentes? Bolsonaro, enquanto um personagem polêmico caricato é obviamente uma ferramenta de aquisição de votos (como a maioria dos candidatos), mas como indivíduo ele é um pai, um marido, tem amigos, uma família, e tem posições políticas muitos comuns. O problema é que não se pode esfaquear personagens e esteriótipos caricatos, foi o indivíduo que foi esfaqueado e quase morto, mas o personagem “Bolsomito 2018” na verdade só ficou mais forte. Se a esquerda acredita que ganhará algo se vangloriando e ridicularizando uma pessoa que foi quase assassinada, eu sinto muito mas estão cavando cada vez mais sua própria cova progressista e revolucionária.

Eu não quero parecer ingênuo, eu sei que a violência sempre está presente na política, mas para mantermos um ideal democrático atuante devemos evitar todo tipo de constrangimento de opiniões e sim incentivar o debate justo e o pensamento livre. Caso contrário, seguiremos numa polarização ilusória e dogmática entre esquerda e direita na qual nenhum dos lados sabe o que o outro diz por estar gritando tão alto que não consegue-se ouvir a opinião de mais ninguém.

Eu tenho que admitir que pessoalmente me comovi com a situação, ver alguém ser apunhalado não é nada fácil[2]. Por mais estranho que pareça à essa esquerda de Facebook, Jair Bolsonaro é muito parecido com as pessoas comuns, eu devo ter uns 3 tios que são muito semelhantes ao Bolsonaro (e nem todos são eleitores dele), isso deve ser levado em consideração antes de termos atitudes cruéis e debochadas como as que citei acima.

O que eu pretendo com essas palavras não é amolecer o coração de ninguém, mas talvez abrir os olhos de alguns membros massa amorfa e conflituosa, que é a esquerda, para o ocorrido. É preciso ter em mente o que se pretende alcançar com suas ações políticas, pensar bem sobre os fatos e elaborar uma boa tática que respeite a democracia e que sempre permitam a divergência e a pluralidade de opiniões. É preciso dar um basta nessa “cultura dos memes”, memes são divertidos sim mas é preciso medir sua extensão, saber até onde se pode ir com eles, e isso deve ser uma preocupação sobretudo na política. Enquanto temos problemas sérios de segurança pública, saúde, educação, sistema penal, justiça e entre outras dificuldades, a esquerda não pode se reduzir a fazer piada com tudo o que acontece no ambiente político e fazer com que sua ação mais esforçada e trabalhada seja a de compartilhar um meme no Facebook. Sejamos maduros!

Façamos, em contrapartida, um incentivo à um debate sério e constante sobre nossos problemas, nossas dificuldades, reflitamos sobre como podemos lidar com o nosso futuro e nosso presente, sempre respeitando toda e qualquer divergência e desacordo. Afinal, como diria certo filósofo: não faz sentido falar em crença onde não pode haver dúvida.

Notas:

[1] Sobre o grande dilema da falta de sangue nas imagens, eis um depoimento profissional sobre o assunto: https://noticias.r7.com/saude/entenda-por-que-nao-havia-sangue-apos-a-facada-em-bolsonaro-07092018

[2] Quando vi as imagens da facada me lembrei do que aconteceu em 1960 no Japão com Inejiro Asanuma, membro do “Japan Socialist Party”, que foi atacado e morto com uma espada enquanto discursava no Salão Hibiya de Tóquio. Embora não se possa simplesmente comparar esses dois ocorridos, foram dois casos de ataque em público e por conta de divergências políticas.

Alexandre Magno Q. A. Silva

Written by

Estudante de Filosofia. Vejo com a alma e escrevo com o corpo. Eventualmente deixo cair uma poesia…

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