O que podemos fazer por Porto Alegre?

Na semana de aniversário da capital, provoco os moradores a repensarem sua relação com a cidade

Vista que tenho do meu apartamento para a Cidade Baixa.

Estive cinco dias em São Paulo e tive contato com muitas iniciativas interessantes que poderíamos copiar para Porto Alegre. São movimentos da linha do POA Inquieta, um coletivo que quer transformar a capital gaúcha em um polo de economia criativa que alia sustentabilidade e inovação social.

Em São Paulo, conheci gente querendo fazer a sua parte para tornar a megalópole um ambiente melhor de se viver. E senti isso nas ruas, nas avenidas, nas praças. Participei da reunião de um grupo que criou o movimento Desacelera São Paulo: Convivência Afetiva na Cidade. Fiquei sabendo das movimentações do Projeto Crie Futuros, criado pela futurista Lala Deheinzelin, que inclusive vem palestrar em Porto Alegre na Virada Sustentável. Também caminhei bastante por bairros arborizados cheios de orquídeas fixadas pelos moradores.


Este texto é um convite à reflexão. Depois de ter andando alguns quilômetros de carro e caminhado alguns metros, na volta à linda e mal cuidada Porto Alegre, fiquei ainda mais inconformada e inquieta. A situação da aniversariante que completa 247 anos em março deste ano revela como os moradores estão se relacionando com a cidade.

Não dá mais pra ficar se queixando e colocando a culpa no outro, seja prefeitura, governo etc. Tem como mudar o que está estabelecido até a próxima eleição? Ficar vibrando na desgraça, acusando, vomitando notícias ruins leva aonde? O que está a nosso alcance fazer? Nós, aqueles que se importam com o “pensar global, agir local”, precisamos unir esforços para fazer alguma coisa. E o POA Inquieta já está se movimentando nesse sentido.

Porto Alegre está doente. E boa parte dos seus moradores também parecem estar. No trânsito, a buzina é frequente. Se vou ultrapassar, o cara acelera. Resíduos da construção civil na calçada já virou rotina. Árvores assassinadas, calçadas destruídas, pessoas com medo de caminhar às ruas. Como pode ter se estabelecido isso se somos ricos, milionários em recursos intangíveis? Tantas universidades, escolas de referência onde não se pratica nem a coleta seletiva! Se temos tanta coisa que nenhuma outra cidade grande tem, como hospitais de referência, um atelier público livre, dezenas de parques e tanta gente pensante?

Está mais do que na hora de deixar as diferenças de lado e tentarmos construir alguma coisa pra melhorar esse cenário. E a medida que participo, me jogo nas redes, nas rodas da colaboração, mais percebo que o buraco é bem mais embaixo. Desconfio, hoje é difícil ter certeza, que o nosso grande problema é conseguirmos estabelecer relações de confiança, de entrega, de comprometimento.

A luta do “meu pirão primeiro”, da sobrevivência em um ambiente hostil, precisa ser encarada de frente, é a realidade. Ou melhor, pra fazer alguma coisa junto, pelo coletivo, é primordial apararmos as arestas para evitar a evasão das articulações pelo coletivo.

Mesmo sem concordar com todos, precisamos nesse momento considerar o que é o “menos pior” para a cidade. As conversas em grupos de whattsApp são indicativos desse clima. Respeitar quem pensa diferente, considerar o contexto e o apesar de tudo é cada vez mais urgente. Aprendi muito sendo síndica por três gestões. E uma delas é o quão necessário é ter empatia, colocar-se no lugar do outro. Não precisa pensar igual. Basta respeitar que as pessoas tem configurações diferentes.
 
Então proponho uma ação: que tal nos desconstruirmos e vivenciarmos o contexto por outros ângulos? Vamos trocar de papel para enxergar a cidade por outros ângulos e configurações diferentes? Quem sabe esse talvez seja um caminho. O médico, o administrador virar gari. O articulista cheio de razão ir pra sinaleira vender raquete pra matar mosquito. A estilista trabalhar em um galpão de reciclagem. Vou propor isso para o pessoal do POA INquieta, vamos juntos? Uma andorinha só não faz verão… e o outono já chegou.