Caio

Silvio Júnior
Jul 25, 2017 · 5 min read

Musica do dia: Crazy — Alanis Morissette

Acordei sem nem ao menos fazer esforço de abrir os olhos, já sentindo a claridade invadir todos os espaços do meu quarto. Concluo que provavelmente o dia já se arrastava para o inicio da tarde, devido à posição do sol. Me arrependi amargamente de ter ficado acordado até quase de manha assistindo maratona de serie. Era sempre assim todos os dias e noites, dezenas de series e nenhum contato com o mundo real.

Me levantei ainda desajeitado com a cara amassada, cabelo bagunçado e vestindo apenas uma calça de moletom. A casa estava tão silenciosa que quase consegui ouvir o eco da minha própria respiração a cada cômodo que eu adentrava, era sempre assim nos dias dos plantões da minha mãe. Na geladeira um post it escrito: “Almoço na geladeira”. Estava tranquilo com tudo voltando ao normal depois do que aconteceu no ultimo ano, já não aguentava mais a minha mãe fingindo que tava tudo bem para tentar me fazer ficar bem. Meu celular vibrou sob a bancada da cozinha, era uma mensagem do Michel dizendo que passaria na minha casa antes das 14:00 horas. Havia marcado de ir ao paintball com ele e a Fernanda, mas não estava nem um pouco animado.

Me arrumei e fui assistir Discovery kids enquanto comia a lasanha de carne que minha mãe deixou pronta, ate o Michel aparecer com uma pontualidade londrina. É incrível como ele sempre esteve ao meu lado em todos os momentos da minha vida, apesar de na maioria deles eu ter sido um porre ou estar longe de ser uma pessoa legal. Em 5 minutos já havia terminado meu almoço, escovado os dentes e já estamos virando a esquina da minha rua.

_ A Fernanda já esta la nos esperando _ Foi a primeira coisa que ele disse quando saímos

_ Serio que ela vai mesmo fazer isso?

_ Voce não conhece a garota em questão? _ O Michel estava com a cara de sarcasmo que fazia quando queria dizer alguma coisa sem usar palavras.

Dei de ombros. Conhecia muito bem o gênio de menina ma da nossa amiga. Ela era a garota mais bonita com personalidade mais marcante que já conheci, parecia uma líder de banda indie que transmitia confiança no andar, mas ao mesmo tempo parecia ser doce.

(…)

_ Como as moças demoraram! _ A Fernanda disse no momento em que chegamos. Nesse dia ela estava vestindo uma blusa branca por baixo de um casaco verde dobrado até os cotovelos, uma bermuda jeans com aspecto antigo, botas de cano médio e o seu piercing do dia era uma argola quase do tamanho de uma moeda de R$ 0,10. Minha mãe dizia que ela estragava a beleza do rosto.

_ A moça. _ Corrigiu o Michel.

_ Calem a boca. Chegamos no horário marcado. _ Disse conferindo a hora no meu celular, e realmente estávamos na hora. _ Aquela funcionaria esta fazendo sinal para a gente?

_ Sim, já estamos credenciados. Equipe amarela versus equipa azul.

O Michel e eu seguimos a garota que já estava ao lado da instrutora. Não entendi direito como funcionava a dimanica, mas também não pedi que ela repetisse as regras. Já estava em campo, sabia que precisava acertar os três meninos da outra equipe, não deixar que eles me acertem e roubar a bandeira deles, talvez não nessa sequencia.

Eu estava tão ansioso para fazer um disparo que mirei o chão e apertei o gatilho. Fiquei hipnotizado ao ver pequenas gotas amarelas se espalharem por todos os lados e não me importei com a cara de susto da Fernanda.

_ Caio! Atire neles, não na gente.

_ Foi mal. _ Eu fiquei surpreso comigo mesmo por estar sorrindo, e essa foi uma das ultimas coisas que me lembro. Minutos depois eu havia percorrido todo o campo adversário, e estava com a bandeira na base deles. Todos inclusive Michel e Fernanda já tinham gasto todas as vidas. Vencemos com uma vantagem incrível.

_ Não sabia que você era um atirador de elite. _ O Michel estava vindo em minha direção, ele estava mais azul que um membro Blue Man Group.

_ A Fernanda ta parecendo um personagem de mangá. Acho que ela podia deixar o cabelo assim. _ Fui atingido por uma bala amarela no peito assim que terminei de falar. _ O que? Por quê?

_ Porque eu ouvi o que você disse, e porque ainda tenho munição. _ Ela fez outro disparo em minha direção me causando as primeiras manchas.

O juiz já tinha saído do campo, e nós ainda estávamos com balas para revidar os ataques. Pena a outra equipe não ter mais munição, pois acabamos de criar um novo jogo agora sem regras, bastava disparar e acertar o outro para deixá-lo sujo. O melhor resultado foi do Michel, com a mistura amarelo e azul agora parecia um calouro em dias de trote todo imundo. Fazia tanto tempo que eu não extravasava daquele jeito que minha mente fez questão de gravar aqueles sorrisos dos meus amigos, os sons que suas gargalhadas emitiam junto a minha. Não lembrava mais o que era sorrir. Me lembro da Fernanda pulando nas minhas costas dando uma chave de braço, do Michel me abraçando tentando me abraçar todo sujo de tinta e a Fernanda torcendo seu rabo de cavalo azul em cima de nós. Devia ter falado naquele momento, mas não disse, eu amo os dois.

Durante o jantar minha mãe parecia contente apesar de cansada. Eu estava feliz, e ela sabia que eu estava. Não sei explicar o que aquelas tintas de cores vibrantes me causaram, só sabia que esse dia havia sido tão especial que eu resolvi guardar para mim, não dividi com minha terapeuta. Estava sentindo que estava na hora de encarar as rachaduras e deixar o tempo levar os traumas daquela fatídica noite. Apesar de ainda ter a sensação de ouvir barulhos pela casa, de sentir o cheiro da comida nos dias ele inventava algum prato e de ouvir o som da sua voz, sabia que ele não iria mais voltar, resolvi abrir a porta e limpar a bagunça. Voar.

    Silvio Júnior

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    Meros devaneios tolos

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