A música do Skank

Me queimava aquela fumaça intrusiva. Havia muito ar no peito, ar que esvaiu-se pouco a pouco com a tosse repetitiva, contra a qual eu lutava inutilmente. Os colegas já diziam “bateu, bateu, já era” e eu já tinha me entregado a essa verdade. Fomos para uma salinha mais iluminada, já que todas as outras lâmpadas emanavam luz negra — eram olhos e dentes, camisas e meias, realçados artisticamente de forma a criar um ambiente propício ao que estava prestes a acontecer comigo. Na sala, olhares risonhos descompromissados passavam tranquilamente pelas expressões faciais e movimentos corporais, agora já mais lentos. Puxei Mari para o canto e a avisei que não estava bem. Neste momento pedi sem palavras para que ela me seguisse até o banheiro. Corri de pernas bambas para a pia e cuspi. Caí vagarosamente para o lado direito, porque a perna desse lado perdeu a força antes da outra e apoiei-me no vaso sanitário com a mão direita e na pia com a mão esquerda. Um enjoo de indescritível quentura (talvez mornidão) me levou a colocar as primeiras partes do que havia dentro de mim para fora. Mari estivera na porta, não tenho certeza de quando saiu de lá. Quando me recompus, levantei para olhar-me no espelho, lutando contra o movimento do banheiro, tentando pará-lo. Bati na testa com a escova de cabelo, dei leves tapas no rosto, arregalei os olhos. Em vão. “Será que vai passar?”, pensei. Sou professor, sou universitário, não posso fazer isso, será que vou me lembrar, será que vou retomar a consciência, ou será que vou ter uma overdose? Zeus!, não posso, não! Que imagem teriam de mim se eu precisasse ser levado a um hospital por uso de drogas ilícitas?!

Toda resistência foi mesmo em vão, constatei quando percebi que era, antes, apenas um movimento de rotação; mais tarde, o universo pareceria me ligar cada vez mais a ele e eu já não só girava como a Terra, como era ela e muito mais. Senti uma pontinha do caos universal e quis me arrepender de toda maleficência que um dia tivera cometido. Começara a translação. Me senti em fim de inverno, ansiando de maneira vigorosa pela primavera, e as sensações horríveis de impotência e náusea eram mais do que eu podia suportar em pé. Caí novamente (ou me deixei ser colocado no chão?), dessa vez ainda mais devagar, aproveitando o movimento de queda para perceber que todos caem, mas algumas quedas são majestosas, porque têm a grandeza de levantar-se em suas razões. O mundo começou, então, a se transformar em pequenas argolas quase invisíveis que giravam para frente em torno do mesmo eixo, o ponto médio do meu corpo. Via a me deixava contorcer por um mundo psicodélico que se assemelhava a várias pulseiras transparentes similarmente dispostas lado a lado no braço de uma pessoa ansiosa, cuja mão fazia girar algumas pulseiras mais rapidamente, ao tempo que mantinha um ritmo mais leve para o giro de outras. Cada giro me transformava um pouco. Não eram, ainda, transformações pessoais, eram, incrivelmente, físicas. Meu corpo era uma massa de modelar, cada vez mais transformado para lembrar a mais conhecida postura de Yoga, a meia lótus. Minhas costas, que não tocavam a parede por completo, foram puxadas calmamente contra ela, formando um conforto retilíneo que fez com que minha cabeça também tocasse a parede. Sentado no chão, encostei-me na parede, fria mas confortável. Minhas pernas foram se encolhendo para formar uma borboleta e meus braços fracos deixavam-se colocar por cima dos joelhos. Cores de arco-íris acompanhavam o movimento rotatório do meu mundo. As forças do universo já tocavam-me como as mãos da minha mãe quando me levava do sofá da sala para o conforto quarto.

Consegui levantar a cabeça e o inverno já não era tão frio, era uma temperatura amena e eu começara a me acostumar. De súbito, as cores já não tinham a mesma textura opaca e homogênea, agora uma cor era várias e eu podia sentir o relevo de cada tom. Durante alguns minutos, esqueci completamente que estava jogado no banheiro da casa de um amigo de amigo que tinha acabado de conhecer, não era importante. Era primavera e toda a importância do mundo estava em me sentir bem comigo mesmo e em deixar com que o invisível me moldasse. E o tinha feito: minha coluna, durante o inverno de minutos atrás, parecera alongar forçosamente e minha cabeça fora empurrada para o chão à frente. Mas suspiro pela primavera, cujas transformações foram agradáveis mudanças de cor e cheiro e perspectivas. Os giros deram lugar a outros movimentos, desta vez menos danosos, pois não me envolviam, era na parede que todo espetáculo visual acontecia: triângulos nas cores do arco-íris seguiam seu ponto de início como um cachorro atrás do próprio rabo, pontas brancas como picos montanhosos moviam-se na diagonal subindo para a minha esquerda, imagens hippies flutuavam diante da minha visão alterada e um som que lembrava a paz tocava nos meus ouvidos. Paz. Muita paz. Sorrisos involuntários e anseios carinhosos. Um passeio pelo inconsciente que revelou até mesmo que eu tivera sido manipulado dias antes por alguém que já deveria ter perdido sua importância. E não parou por aí: o próximo inverno também traria suas revelações.

Chegou o verão, quente e alegre como deve ser, e me manteve com a paz primaveril. Eu já não queria olhar para outro lugar que não para dentro de mim mesmo, me conhecer a fundo e experimentar ainda mais aquela conexão com o infinito. Surgiram-me pensamentos humanistas de esquerda e achei que todo maconheiro viraria um dia um defensor da esquerda e que era a droga que dava origem a pensamentos revolucionários radicais. Mas tinha vontade de sorrir e sorrir e sorrir e alguém abriu a porta do banheiro a me chamar. Tive vontade de expelir com um inseticida, tamanha a minha indignação. Mari chamou-me, com tom de escárnio, para levantar, e trouxe Pedro com ela para completar minha vergonha, a quem acusei com certa superioridade de invejar meu estado de espírito. A voz saía devagaaaaar e grave, como se passada por um programa de edição de áudio. Era tudo confortavelmente humilhante ou humilhantemente confortável, mas prefiro não rotular sensação tão gostosa. No entanto, esforcei-me para levantar e sair do banheiro, com o apoio de Mari, já que as outras pessoas precisavam usá-lo e já fazia um tempo considerável desde que entrei.

Ligaram a central de ar do quartinho de visitas e me fizeram sentar na beira da cama de solteiro que tinha a altura de duas camas-box. Senti um enjoo forte e pedi para Mari, que estava muito próxima, se afastar. Vomitei iniquidades dentro de um balde em que alguém tinha colocado um saco de lixo preto.

Três bêbados, incluindo Mari e eu, estavam sentados na cama, mas não faço ideia de quem era a terceira pessoa, me lembro apenas que era mulher. Depois de rirem, as duas saíram do quartinho e me deixaram só, numa solidão típica de inverno, acrescida à náusea e à música eletrônica que tocava alta. Mas ainda era outono e eu ouvia risos através da parede à minha esquerda, e me alegrava porque os outros estavam alegres. O enjoo parecia diminuir, mas meus olhos continuavam fechados como se esperasse que a qualquer momento ele pudesse me fazer externar toda a sujeira dentro de mim, de uma vez só. Mari entrou no quarto. Senti um repentino frio por dentro e calor por fora, o inverso do que acontecera até aquele momento. Minhas entranhas se contorceram novamente e dessa vez não consegui acertar o balde com o líquido salmon aguado, já que os jatos de despejo foram mais longe do que esperava, e então o chão virou uma bagunça colorida e malcheirosa. Eu só queria que todos saíssem dali. Queria ficar sozinho, mas tinha medo de cair no sono e, como certas estrelas do rock, não acordar mais, por isso não pedi que Mari fosse embora, apesar de sentir que deveria. Não falei nada, tenho certeza as únicas palavras que sairiam da minha boca seriam “só deixa eu curtir minha vibe em paz”, pois eu não conseguia pensar em nada além disso — uma frase um tanto ridícula, que eu nunca diria em plena consciência, mas doía e a consciência me fugia como uma alma que sai do corpo à noite para vagar por aí. Winter is Coming, pensei, e gargalhei por dentro, mas só levantei metade da boca, num riso insincero de agradecimento pela companhia. O inverno chegaria logo. Naquele momento prometi nunca mais fumar: aquela droga te deixa vulnerável ao inverno e eu gosto de me sentir preparado.

Começaram algumas tonturas, leves de início, como se alguém chacoalhasse a tela do notebook na minha frente e eu não fosse capaz de impedir. Depois senti como se um redemoinho de traços transparentes me sugasse para dentro de mim mesmo, para meu umbigo, de uma forma violenta que me fez tombar para trás e encostar na parede. Pensei nessa sensação como um castigo do universo por eu não me deixar aproveitar o momento de psicodelia por medo do que os outros iriam pensar ou fazer, pois sempre que tinha esse tipo de pensamento alguma sensação ruim tomava lugar. O redemoinho parava de fluir quando eu não pensava sobre ele, mas quando o fazia, o giro em direção a mim mesmo era agoniante. Era como a ansiedade que nos toma quando aquele personagem do filme está prestes a abrir um cofre com um estetoscópio, acrescida à náusea.

Foi aí então que a música — que tocava mais alto apenas para mim — transformou-se num instrumento moderno de tortura, o pior. E quando algo que se assemelhava ao refrão daquelas batidas inquietantes chegou, meu inverno atingiu o ápice, uma nevasca parecia ter-me encobrido e eu estava congelado naquela posição: coluna arqueada para a frente e mãos no rosto, uma verdadeira postura de sofrimento. Eu conseguia sentir a música em cada nervo, músculo ou articulação; as ondas sonoras moviam minhas entranhas, meus pelos, meus órgãos. Aquela visualização de equalizador que encontramos no Windows Media Player nunca fizera tanto sentido, tenho certeza que o criador sentiu o som mover-se pelos neurônios assim como eu, e assim a idealizou.

Minha percepção foi, no entanto, mais dolorosa. Cada estrondo grave era um golpe na minha cabeça e estômago, cada agudo era um furo de dentro para fora, como de um garfo de três dentes, do lado esquerdo da minha face, no maxilar. Queria pedir com mais palavras para que Mari trocasse a música, mas a dor não me permitiu dizer mais que “a música, a música”, repetidamente. Ela não entendia e ria cada vez que eu, com esforço admirável dizia coisas como “Mari, a música, por favor”. Tentei me recompor e fui capaz de pedir “passa essa música, por favor, doendo” e “a música doendo, Mari”, e com as mãos mais apertadas à face, chorei de implorar, mas ela só gargalhava ao mesmo tempo em que se desculpava por não conseguir conter o riso. Enquanto isso, eu continuava a sofrer aquela tortura invisível. Ela saiu do quartinho novamente, ainda rindo. A música diminuíra pouco a pouco, mas eu tinha certeza que, outra vez, o volume só mudara para mim. A dor foi passando paulatinamente, já conseguia ouvir outros sons que não os eletrônicos, ouvias as vozes das pessoas e as coisas que deixavam cair. Ouvi Mari comentar com os outros o quanto eu havia vomitado e o quão “chapado” eu estava. E estava mesmo, ao ponto de relevar na hora o que considerei, depois de acordar, um tipo de traição. Que tipo de amigo expõe sua vergonha? E por falar nisso, não lembro o momento certo em que dormi, mas enquanto eu estava deitado, pessoas abriam a porta insistentemente para me ver, para ter um motivo pelo qual gargalhar. Eu só queria fugir, e o sono seria uma ótima fuga. Lembro-me somente o movimento que fiz para deitar: foram vários espasmos que lembravam os movimentos de uma marionete controlada por um vento para o qual faltava coordenação motora. Não lembro mesmo que horas dormi, ou quanto tempo levei para pregar os olhos, mas ainda posso sentir a paz daquele sono libertador.