As várias mulheres numa só

Cantora alagoana Renata Peixoto lança virtualmente Infinita, nesta sexta-feira (5), e tem show de lançamento do disco previsto para ainda este mês no Teatro Deodoro

Jean Albuquerque

Foto: Divulgação

Entrevista marcada para às 14h, pego o ônibus sentido Teatro Deodoro; decido fazê-la pessoalmente para quebrar um pouco com essa distância que é comum das redes sociais. Chego no local e sento para esperar Renata Peixoto, 20, cantora alagoana que está prestes a lançar o seu álbum de estreia: Infinita.

Demorei um pouco para reconhecê-la, só tínhamos tido contato via facebook, ela chega e pergunta se sou eu sentado em frente ao Teatro, pede desculpas pelo atraso; justifica que teve que deixar os ingressos do show em um dos pontos de venda. Veste uma calça branca, blusa num tom azul alegre e uma sandália plataforma marrom, confessa odiar jeans. Diz que está vestida como ‘artista’.

Fomos em direção a galeria do Complexo Cultural Teatro Deodoro, situado no centro de Maceió, era a minha primeira vez no lugar, descemos até o subsolo onde tem um espaço que mais parece um palco, cheio de cadeiras ao redor e um piano coberto por um tecido num tom cinza.

A performance e toda a energia nos palcos contrastam com o jeito meigo, sorriso fácil e a mania de conversar quando está no ônibus para matar o tempo a caminho da UFAL. Às vezes começa a cantar e o cobrador já joga um elogio, admite que adora ter contato com as pessoas e vai fazer falta quando tirar a carteira de habilitação e deixar de andar de coletivo.

O CD Infinita contém dez faixas, sendo oito compostas por Renata em parceria com alguns amigos e duas por outros artistas, Roxa lembrança, de Janu Leite, de Arapiraca e a outra: Caraminholas, de Caê Mancini; carioca que mora em Maceió há bastante tempo.

O esquema de lançamento irá funcionar da seguinte maneira: três singles por semana até o lançamento virtual previsto para o dia 05 de agosto. E para marcar esse momento, tem show de lançamento do disco dia 17, ainda esse mês, no Teatro Deodoro.

O novo registro é dividido em dois momentos, faixas mais suaves e sentimentais, outras com uma pegada mais pra cima: Leve e Claro, Se eu Quiser e Dividamos. Destaque para as canções que mais conseguiram me tocar: Será que vai lembrar de mim, no trecho: “Eu te amo, isso é claro / Cada instante do meu cuidado ainda é teu / Volta aqui, pois meu lado / Tem um tanto de amor que você não conheceu”. E Azuis, um blues bem executado, cantado em inglês e que não deixa a desejar nem um pouco em relação aos clássicos do estilo.

E segue com a faixa título que abre o disco, mostrando uma Renata em várias facetas, o papel da mulher dentro da sociedade e a reivindicação de ser o que quiser ser, ao seu tempo, ao seu modo, sem amarras. Já Roxa Lembrança, composição de Janu Leite, trata da violência doméstica que as mulheres sofrem diariamente.

“Existe política na minha música, existe engajamento mas não é obrigatório. Eu utilizo o feminismo no meu dia a dia, nas minhas vivências. Ele vai de uma maneira natural e indireta. O feminismo traz sobrevivência, aprender e sentir, ter consciência que existem muitas coisas, acontecem comigo e no mundo e não é culpa minha. Outro dia eu estava arrumada para cantar, eu estava ali, (Teatro Deodoro) o cara passou e falou coisas absurdas, eu estava só esperando o meu baterista chegar”, desabafa.

O som da Renata Peixoto ganha influências do jazz, MPB, música pop e blues. Uma experimentação que conta com a participação de músicos com bagagem dentro do cenário local: o baixista Felix Baigon, o maestro Almir Medeiros, o trompetista Siqueira Lima, o percussionista China Cunha, o baixista Sandro Lima, os bateristas: Leandro Amorim e Renan Freitas, Yuri Costa (pianos e teclados), GAB (violões e guitarras) e Emmanuel Miranda (baixo).

E para marcar esse momento, tem show de lançamento do disco no dia 17 de agosto, no Teatro Deodoro.

Foto: Divulgação

Repertório do Show

Além das dez músicas inéditas do Infinita, vai ter algumas outras músicas: Iansã de Caetano Veloso e Gilberto Gil, e Sussuarana, que é interpretada por Maria Bethânia e Nana Caymmi. Quando interpretei Sussuarana no recital da Casa Villa Lobos, eu estava passando por uma momento difícil de construção, crise existencial e ela representava o que eu estava passando naquele período. Eu não costumo chorar no palco e, dessa vez, eu estava tão sensível que acabei chorando, por isso não pode faltar no meu show.

Música autoral

É importante ter o próprio projeto, dá identidade. Mas também não gosto quando se menospreza o intérprete, porque além de compositora eu também sou intérprete. Cada projeto tem sua importância. Quando vou cantar a música de alguém, é mais seguro… Construo a interpretação baseada na minha história e crenças, mas visto uma personagem. Já quando são as minhas músicas isso não acontece: fui eu que escrevi, sou eu ali, não há personagem. Sinto como se eu tivesse com a pele despida, e dá medo.

Nós artistas refletimos sobre o meio em que vivemos, nossa história, o que acontece com a gente, com as pessoas próximas e com o mundo. Acho esse papel dialético: o meio nos transforma ao mesmo passo que transformamos as pessoas que entram em contato com a nossa arte.

O artista independente

É complexo ser independente. Gosto até de dizer que somos dependentes de nós mesmos ahsuhaushauhsa. Coletivos, bandas e artistas solo enfrentam as mesmas dificuldades de maneiras diferentes. Eu sou solo, por isso, na maioria das vezes tô cuidando de tudo. Desde a criação artística até transformar esse conceito em algo concreto: CD, EP, marca, show, comportamento, arte, fotografia, videoclipe.

Além de vender esse projeto e angariar patrocínio, que há algumas dificuldades. Há poucas empresas com a política de fomentar a Cultura ou que pensam em colocar sua marca naquele projeto porque o público-alvo daquele artista é o mesmo que o dela. Nós artistas e produtores precisamos despertar esse interesse nas empresas também. E isso tudo, antes, era competência das grandes gravadoras.

Na minha experiência com produção, participei de todas as etapas, algumas de maneira direta, como na produção executiva, outras de maneira indireta, como na produção musical do disco e o desenvolvimento da minha marca. No fim das contas é muito trabalho… nós artistas amamos demais haushaushuahsuahsa.

Palco Ocupe a Praça — Bom Parto / foto: Coletivo Popfuzz

No Palco

Palco é o melhor lugar do mundo! Como eu ando produzindo muito, quando subo no palco não consigo desligar a produtora imediatamente. Demora uma, duas músicas, mas depois é libertador. No Forrock, ano passado, eu tava tão aperreada com produção que durante o show tive dor de cabeça.

É uma contradição, porque na mesma medida que dá prazer, tenho que lidar com os problemas e também com a frustração quando não consigo resolvê-los. A produtora e a estudante por enquanto estão deixando a artista pra última hora. Só agora, perto do show, eu tô conseguindo pensar na direção artística, na montagem de cena e no roteiro.

E eu gosto de fazer isso com tranquilidade pra poder desenvolver o eu-lírico de cada música e trazer à tona minhas memórias emotivas.

A mulher no Espaço Musical

Gradativamente estamos conseguindo mais espaço. Sempre houve a tradição das Divas da MPB, mas hoje em dia percebemos que, apesar de ainda no meio musical o predomínio ser masculino, nós mulheres estamos entrando na cadeia como compositoras, instrumentistas, roadie, diretoras e produtoras musicais, etc. É importante porque é uma questão de podermos exercer a profissão que quisermos e representatividade.

Com relação a mulher moderna nas letras de música, percebo uma tendência das compositoras e compositores de abordarem com mais ênfase o feminismo e a independência feminina. É um reflexo do que tá acontecendo na sociedade. Elza Soares lançou ano passado o disco “A Mulher do Fim do Mundo”, que é incrivelmente maravilhoso e retrata o cotidiano da mulher brasileira. Como por exemplo na música: “Maria da Vila Matilde”, ela diz “cadê meu celular eu vou ligar pro um, oito, zero”, ou seja, ali tá mulher que conquistou direitos, não admite ser violentada e não deixa sair barato.

Sempre ouvi muita música que trata da doçura e até fragilidade, mas também sempre gostei de música que fala de uma mulher sensual, independente e segura. Pra mim, ser mulher é isso. A mulher é as duas coisas e não adianta só ficar no amor: ‘ai, meu coração’; porque tem o outro lado: “Eu vivo cansada, porque trabalho e meu marido não me ajuda a cuidar dos nossos filhos e da casa” e assim por diante. É fundamental, porque além da representação, gera a reflexão.

O Feminismo

Eu sou feminista e como intérprete, compositora e na vida eu não gosto de me restringir. Nós mulheres temos que lidar com as diversas circunstâncias, nos adequando ou não. Como intérprete eu canto uma diversidade de gêneros e sentimentos muito ampla e, por causa disso, o Infinita.

O feminismo vai pro meu som de uma maneira indireta, não é o foco principal. Ele me faz perceber que essas coisas absurdas que acontecem comigo cotidianamente não são culpa minha e que muitas delas eu não consigo resolver. Isso me faz sentir impotente, é horrível. Depois que entrei no feminismo refleti mais sobre alienação, chantagem emocional, violência domestica, desigualdade, assédio, desrespeito etc.

E tudo isso é muito relativo, varia de mulher pra mulher. Existem muitas mulheres que estão em relacionamentos abusivos e não conseguem sair. Não é porque não querem, ao contrário, muitas querem, mas existem coisas que fogem do controle. Pode ser o medo do que o cara pode fazer, ou o carinho que ela tem pela pessoa amada ser muito grande, até a esperança de que o cara vai mudar. Eu mesma já passei por relacionamentos abusivos e saí, depois entrei em relacionamentos assim de novo. Mesmo eu me policiando ainda é difícil pra mim… Enxergar claramente e ser muito pragmática nesse sentido quando há emoções.

Há machismo aqui e ele acontece muitas vezes de maneira inconsciente. A educação que a gente recebe influencia diretamente. Como nossos pais se comportam, como as mulheres com que a gente convive se comportam influencia também.

Se estamos no convívio constante de mulheres que não tem essa percepção engajada, o comportamento delas para gente vai ser considerado normal e algo diferente daquilo não vai parecer algo natural. Para que possamos sair desse padrão de comportamento e assumir outro, tem que ter reflexão e desconstrução interna.

Homens desconstruídos

Acho que há casos e casos. Não gosto de generalizar, dizer que homens não podem ser desconstruídos vai de encontro ao meu propósito com o feminismo. Se eu quero igualdade, eu quero que os homens saibam o que acontece com as mulheres quando eles não as respeitam. Quero que reconheçam se a criação deles for machista e que isso perpetua determinados comportamentos. Acredito que podemos construir juntos.

Pra mim não adianta todas as mulheres serem feministas e muitos homens continuarem abusando, agredindo e assediando. Eu gosto de homens que são engajados nisso, que refletem sobre isso, que discutem e mais ainda: que mudam.

Concordo com alguns seguimentos feministas que dizem que o homem não pode ter voz dentro do movimento. Porque quem sente na pele é a mulher, quem tem que falar sobre isso de uma maneira mais imperativa é a mulher, mas não acredito que o homem deva ser excluído dessa discussão.

Palco Ocupe a Praça — Bom Parto / foto: Coletivo Popfuzz

Tocar na periferia com o projeto Ocupe a Praça

Eu tinha me inscrito no edital para o Jaraguá, mas não entrei naquele primeiro momento e fiquei como primeira suplente. Daí fui remanejada para o bairro do Bom Parto. Pra mim é um público novo. E é fato: aqui em Maceió tal lugar é frequentado por tal pessoa. Eu não quero isso para minha arte, nem pra mim: quero estar com as pessoas e quero levar a minha música junto.

Eu achei bem importante ter tocado para a periferia. Quando soube que eu e BluesWay (minha banda de blues) iríamos tocar no Bom Parto fiquei feliz por ser um lugar novo e achei que fosse ser diferente. E foi diferente, não de uma maneira ruim, muito pelo contrário.

Quando eu subi no palco, fiquei nervosa, porque não sabia como iria ser, como me comportar. Mas foi uma experiência massa, fui muito bem recebida e a energia do público foi contagiante. Eu já conhecia o trabalho da Tequila Bomb, Ladoeste, Favela Soul e da Arielly Oliveira. Arielly estava lá, eu gosto muito, muito dela e tenho planos de nós duas fazermos algo juntas.

Acho que a gente deve quebrar essa barreira que divide a MPB da periferia. Eu quero que não exista nenhum tipo de impedimento pra que galera vá aos meus shows, e que não exista algo que me impeça de ir para lá assistir ou fazer shows também. Eu vejo isso como a parte política da música. Sinto falta de ver todo mundo junto e misturado: o RAP, o Forró, o Índie, o Rock Independente, a MPB, o Metal, o Samba e tudo mais. Misturar tudo mesmo.

Cenário musical em Maceió

Vejo a cena musical em Maceió dinâmica. Acompanho há uns 5 anos e nunca tinha visto tanta gente produzindo. E olha, estamos produzindo muita música boa e também nos profissionalizando cada vez mais. Estamos fazendo, isso que importa.

Aqui temos muitas bandas autorais de todo gênero que se imaginar, e pra todos os gostos. Enfrentamos várias dificuldades, mas não deixamos de produzir por isso. Quanto ao público, ele aos poucos vem atentando mais para a música autoral. Isso é massa, espero que ele só cresça com o passar do tempo.

A trajetória

Comecei a cantar ainda criança, meu pai me fazia dormir na rede cantando clássicos da MPB, principalmente o Samba. Primeira música que eu aprendi foi um samba de breque do Moreira da Silva que era enorme, muito grande. Esse samba tem uns barulhinhos tipo Bang Bang. Todas as festas de família eu cantava essa música, e aí virei a sensação nas festas.

Meu pai ouvia muita MPB em casa: Martinho da Vila, Jorge de Altinho, Luiz Gonzaga. Engraçado é que ele não ouvia muitas cantoras, ele ouvia mais homem, meu pai ouvia muito Dire Straits. Lembro que quando ele colocava Another Brick In The Wall, do Pink Floyd, eu ficava com medo ahsuahsuahsa.

Na Escola Espaço Educar, todo bimestre tinha aula sobre algum gênero musical. Lá aprendi sobre a Jovem Guarda, Gonzagão, Tropicália, Bossa Nova, o Clube da Esquina, foi muito importante para minha formação como artista. Comecei a tocar flauta doce aos 9 anos. Aos 10, comecei a tocar violão, e aos 11, comecei a ter aulas de canto na Casa Villa Lobos.

As cantoras que me inspiram hoje, em sua grande maioria meu primo Rafael me apresentou. Eu ouço muita coisa, ultimamente eu estava viciada no Jazz que o Maestro Felix Baigon me apresentou: Andrea Motis, cantora nova de Barcelona — um ano mais velha que eu — ela toca trompete também.

Tem dias que eu quero ouvir Pop Internacional, outros que ouço Sertanejo Universitário, algum disco da Elis, alguns artistas daqui: Junior Almeida, Arielly Oliveira, Nó na Garganta, Divina Supernova, Elisa Lemos, Fernanda Guimarães, Tequila Bomb, Dof Láfá, Caê Mancini, Yuri Costa… ai, muita gente.

Minha carreira começou aos 14 anos, quando Millane Hora me chamou para fazer uma participação no show dela. Na madrugada antes do show compus minha primeira música… olhei assim e disse: eu posso ser compositora. Nesse dia cantei com Millane a música Cara Valente de Marcelo Camelo. Aí no ano seguinte, quando completei 15 anos, meus pais me deram um show de aniversário, o Primeiro Olhar.

No final de 2012 eu entrei numa banda que tocou uma vez e acabou, nessa mesma época eu comecei a cantar em bar… fiz umas temporadas e depois parei. Em 2013 rolou o SarAL e eu cantei nas duas edições. Foi aí que eu comecei a construir um público, fiz a abertura da 5 a seco, cantei no Rex JazzBar duas vezes em 2014, fui finalista do Festival de Música da UFAL nas duas últimas edições, participei do Projeto Linda de Música e Artes Visuais, este ano lançando o Infinita… um bocadinho de coisa já, e espero que essa lista só cresça!

Serviço:

O que: Renata Peixoto apresenta o show de lançamento do CD Infinita

Quando: 17 de agosto, 19h

Onde: Teatro Deodoro

Quanto: inteira R$ 20,00 / meia R$ 10,00

Mais informações: (82) 9 9672–8594

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