(Não) Viva cada dia como se fosse o último

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“Viva cada dia como se fosse o último. Um dia você acerta.”

A frase, com um certo humor negro embutido, ilustra bem um dos maiores desafios impostos pelo universo à nossa reles insignificância: a vida é muito mais efêmera e frágil do que nos dispomos a pensar na maior parte do nosso tempo. Planos de uma vida inteira, sonhos inacabados, o abraço numa pessoa amada que você deixou pra amanhã… tudo pode se tornar pó na sutileza de um segundo — e não há nada que possamos fazer a respeito, o que talvez seja a maior tragédia de uma espécie que se acostumou a moldar o ambiente à sua volta a seu bel prazer.

A morte é uma certeza incerta. Ao passo que, diferente de todas as outras espécies, temos consciência do fim da própria vida, ainda assim não temos controle nenhum sobre quando e como ela ocorrerá. Qual o sentido, então, de engendrar planos para um período que ninguém sabe ao certo quanto tempo pode durar? E daí vem o velho conselho de viver o agora, pois o amanhã pode ser tarde demais. E isso faz todo sentido, na teoria.

Na teoria. Porque se, ao vivermos cada dia como se fosse o último, talvez comecemos a dar valor às coisas pequenas, por outro estaremos abrindo mão de todas as outras que nos fizeram humanos. Imagine se Thomas Edison decidisse não “perder tempo” inventando a lâmpada depois de falhar inúmeras vezes. Ou se Santos-Dumont, depois de quase se matar em engenhocas voadoras que não deram certo, adotasse o carpe diem como mantra antes de inventar o avião. Ou Turing e a jornada da quebra da criptografia da Enigma nazista, ou Einstein e seus primeiros cálculos (incorretos) acerca da Relatividade Geral, ou Galileu e Copérnico e as inúmeras acusações de heresia em relação ao modelo heliocêntrico. Desistir nestes (e inúmeros outros casos) causaria consequências severas no curso da humanidade.

A única saída para este aparente paradoxo acaba soando um pouco inusitada. Viva cada dia como se fosse o primeiro. Não é uma questão de chorar frente aos desafios, na condição de desamparado de um recém-nascido; refiro-me a enfrentar o mundo sem vestes, metaforicamente sob a forma dos nossos dogmas. Com a inocência de uma criança que desconhece o impossível — e por isso mesmo é muito mais capaz de realizar um feito impossível que um adulto, que muitas vezes está sob a carapuça do “não posso”, “não tenho tempo”, “não vai dar certo”.

Quando você passa muito tempo olhando pro abismo, dizia Nietzsche, o abismo olha de volta pra você — e lentamente te engole, com a voracidade que trucidou tantas outras mentes das quais nunca ouvimos falar. Às poucas que tiveram a ousadia de mergulhar, a História as coroou. E sim, o caminho é difícil… mas quem disse que precisaria ser fácil? E por mais que a morte nos traga a incerteza de chegar ao fim do caminho, ao caminhar descobrimos que a verdadeira beleza não está no destino, mas na jornada. O maior ato de ousadia que alguém pode causar é dar o primeiro passo.

Tudo bem, talvez não sejamos, eu e você, os próximos Edisons, Santos-Dumonts, Turings, Einsteins, Galileus e Copérnicos. Nem precisamos. Somos nós mesmos. E isso é mais que suficiente pra fazer a diferença.

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