O amor é verde

Jogadores ajoelhados após a vitória sobre o Internacional por 1x0, no Allianz Parque. Foto do Jornal Lance!

Nasci numa quinta-feira, 10 de junho de 1993 — um feriado de Corpus Christi. Meu pai, um pernambucano já adaptado à caótica rotina de São Bernardo do Campo, a maior cidade do ABC paulista, batizou-me com o nome de seu avô paterno, uma tradição familiar. À época, trabalhava como motoboy em uma dentre as muitas pizzarias fundadas pela colônia italiana radicada nos arredores de São Paulo. A patroa de meu pai, sabendo da gravidez de minha mãe, me presenteou com um enxoval verde-e-branco — ela, obviamente, uma palmeirense fanática. Meu pai, que nunca foi muito fã de futebol, agradeceu o presente, mas disse, em tom de brincadeira, que eu acabaria me rendendo ao seu time, o São Paulo.

Ledo engano. Dois dias depois, como que por ironia do destino, a Sociedade Esportiva Palmeiras saía de seu maior jejum, 17 anos sem títulos, vencendo seu arquirrival Corinthians por 4x0 e iniciando uma das eras mais gloriosas de sua história, a chamada Era Parmalat. Em um período de sete anos, seriam três Campeonatos Paulista, dois Campeonatos Brasileiros, dois torneiros Rio-São Paulo, uma Copa dos Campeões, uma Copa do Brasil, uma Copa Mercosul e uma Copa Libertadores da América. O Campeão do Século XX havia ganhado mais um torcedorzinho.

Depois da virada do século, no entanto, o primeiro campeão mundial amargurou vários anos de decadência. No coração alviverde, o que mais dói são, obviamente, os dois rebaixamentos à Série B, em 2002 e 2012 — muito embora a ausência de títulos relevantes seja igualmente dolorida. Os rivais, claro, aproveitaram-se da situação, já que viveram momentos gloriosos neste meio-tempo.

O pequeno André, hoje com 23 anos e muitas histórias de quase-infarto devidas à equipe alviverde, vive a expectativa de comemorar o nono campeonato nacional da história de seu time, o terceiro de sua vida. Mas com um gostinho todo especial: além de ser o primeiro campeonato conquistado pelo Palmeiras na modalidade de pontos corridos em sua história, vem sacramentar o mais bem-sucedido programa de sócios da América Latina; vem contemplar a aquisição de um dos estádios mais bonitos do mundo, o melhor estádio inaugurado em 2014 (superando inclusive todos os estádios que contaram com dinheiro estatal usado para financiar a última Copa do Mundo); vem coroar a administração exemplar do único clube da história do futebol brasileiro a fechar o ano fiscal com receita acima dos R$ 500 milhões.

O veterano Zé Roberto, uma das estrelas do atual elenco alviverde, virou motivo de chacota dos rivais ao afirmar, antes do primeiro jogo da temporada passada, que o Palmeiras é grande (vide vídeo acima). Hoje, o Palmeiras prova-se mais que grande. Mesmo nos momentos que quiseram derrubar, fomos gigantes. Nossa defesa ninguém passa — é a menos vazada do Campeonato Brasileiro. Nossa linha atacante de raça é a segunda que mais marcou gols. E nossa torcida canta e vibra em todos os jogos, com a maior média de público do país (acima dos 30 mil expectadores).

Não sei se a patroa do meu pai à época imaginou que eu realmente pudesse me tornar palmeirense. Também não acredito em destino, ou que eu estivesse predestinado a bater no peito e gritar que sou Palmeiras até morrer. Fato é que, hoje, 20 milhões de corações palestrinos (incluindo o meu eu e todos os corações da família da dona Marlene) pulsam em um só ritmo, celebrando a história centenária vitoriosa do Palestra Itália. E se, como diria o eterno Joelmir Beting, explicar o que é ser palmeirense a quem não torce pelo Palmeiras é impossível, não me preocuparei em explicar o que todo palmeirense já sabe: o amor é verde.