Hermann Hesse, C. G. Jung e as histórias por detrás das histórias

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Estou lendo Siddartha, do Hermann Hesse.

Quer dizer, estou quase lendo Siddartha, do Hermann Hesse. Quase porque ainda estou na introdução, uma deliciosa contextualização biográfica de onde andava Hesse, por fora e por dentro, quando escreveu essa obra.

Andava ele no entre guerras, entre 1919 e 1922. Desiludido com o mundo exterior, o fim da primeira guerra marca uma virada profunda na sua obra, uma entrada na busca do que ele chama de “the way within”, o caminho pra dentro. Nesse período o escritor passeia pela filosofia oriental, através do olhar ocidental, desenvolvendo protagonistas andarilhos que vagam de terra em terra coletando aprendizados e evoluindo. É uma estrutura clássica, eternizada nos contos de Marco Polo, por exemplo, o viajante veneziano que narra o exótico oriente.

Mas isso tudo é só contexto. Interessante mesmo é saber o que se passava dentro de Hesse.

A primeira parte do livro, como conta a introdução, surgiu para o autor quase como um sonho, um download, veio fácil, óbvia. Esse primeira parte narra a história do protagonista no seu momento de vida em busca do self, questionando a si e ao seu entorno. Essa parte Hermann conhecia bem e assim pode escrever sobre.

Já a segunda parte do livro deveria falar sobre um Siddartha vitorioso, conquistador do próprio self. E ser escritor é meio como ser dentista, né? Ninguém quer ir num dentista de dentes feios, assim como ninguém consegue acreditar em um protagonista “inventado” por um escritor. Quero dizer com isso que mesmo quando o protagonista é ficcional, suas dores são reais, seus questionamentos, evoluções, seu arco dramático não vem de nenhum outro lugar se não da coletânea pessoal de vivências do próprio autor. Sejam vivências suas ou aquelas que ele aprendeu observando outros, característica dos bons escritores. E Hesse não havia vivido, na sua Jornada do Herói particular, o momento da conquista, da derrota do dragão, do regresso, da vitória sobre si. Sendo assim, Hesse não tinha em si Siddartha, para que pudesse dá-lo vida.

Deprimido, “vivendo como uma cobra, de forma vagarosa e econômica”, como descreveu a si mesmo, o autor foi acometido de um “bloquei criativo”, segundo a introdução. Nome péssimo, na minha visão, pois não foi um bloquei seu problema, e também não foi de natureza criativa. Seu problema é que ele não tinha em si seu personagem. Sabia a história que deveria contar, mas não tinha repertório emocional para contá-la. Foi uma ausência de vivência, não de criatividade.

Apercebendo-se das suas próprias limitações, foi buscar ajuda de um psicanalista de Zurique. Um senhor que trabalhava com o universo simbólico e utilizava-se muito das mitologias orientais no seu trabalho. Um simpático médico chamado Carl Gustav Jung.

Agora péra. Pára e pensa. Imagina que você pode sentar numa mesa de bar e ser uma mosquinha ouvindo as conversa de Hermann Hesse e C.G. Jung. Melhor, imagina que você é uma mosquinha no consultório terapeutico ouvindo esses dois gigantes tentando decifrar a vida.

Era aí que eu queria chegar. Enquanto para mim Siddartha era a história biográfica do brahmin indiano que atingiu o estágio de Buda, contada pelas lentes poéticas de um dos maiores escritores de todos os tempo, era uma leitura interessante e potencialmente transformadora.

Mas… agora Siddartha se tornou para mim a história de Hermann Hesse e C. G. Jung sentados juntos por horas a fio, conversando e tentando achar sentido interno para um mundo externo assolado para uma guerra e a caminho de outra, valendo-se pra isso de toda sabedoria embebida nas tradições orientais do Hinduísmo e Budismo.

E essa história, essa é muito mais do que apenas potencialmente transformadora! Foda-se o rio em que Buda vira Buda, a história contada aqui é sobre esse consultório em Zurique, essa busca interna que pode ser em São Paulo, Juazeiro do Norte, Caximbinhas. É sobre dois gigantes ajudando-se mutuamente. É sobre os achados de dois humanos em busca de sentido.

A grande aventura por trás da aventura narrada são os caminhos percorridos por Hermann Hesse dentro de Hermann Hesse que o levaram a encontrar seu Siddartha perdido, seu rio interno onde o mundo dos sentidos encontra o mundo do espírito. Sua vitória, seu próprio Buda.

Nem li ainda, mas essa história já me dá frio na barriga.

Decidi contar isso aqui porque estudar cultura, trabalhar com comportamento, com pessoas, é isso: buscar as histórias por trás das histórias. É entender qual o conjunto de valores, de símbolos, de crenças que leva alguém a optar por um político, um tênis ou uma opinião. É entender que o que leva alguém a se comportar de determinada maneira, acreditar em determinadas crenças.

Votar em alguém, fazer uma viagem, comprar uma roupa ou uma barrinha de cereal não são atos distintos, são um mesmo conjunto de coisas que só conseguimos desvendar quando buscamos as histórias que vivem escondidas por detrás das histórias. E isso é o que nos dedicamos a fazer.

{São Paulo. Semanas de muitos insights, tempos de quase-setembro. 2016} — -

Por Bibi Xausa-Bosak, escritora, documentarista, antropóloga visual e co-fundadora da Pixie Vision e da Söndera | VisualAnthropology.