A última aula de inglês de agosto que teve um sabor especial

Projeto Príncipe
Aug 24, 2017 · 5 min read

Chegámos à reta final. À medida que se aproxima o dia da nossa partida, a palavra “última” começa a ser uma presença assídua na descrição das atividades. Obviamente que estas terão continuidade no mês de Setembro com a equipa que aí vem, mas para nós, equipa de agosto, a aventura está a chegar ao fim. E para mim, foi a última aula de inglês que tive o prazer de lecionar na Universidade Gravana.

Segunda-feira. Um dia que, reza a história, é odiado em todos os cantos do mundo por todos aqueles que são forçados a abandonar a inércia do fim-de-semana e a dar início a mais uma semana de trabalho. Mas aqui no Príncipe, as segundas-feiras são tão mágicas como qualquer outro dia.

Ao final da tarde, às 18h para ser mais preciso, era hora de começar a aula de inglês na Escola de Santo António II. Não esperava uma sala cheia, tendo em conta que no domingo foi dia de festa na ilha e toda a população se reuniu ao longo do dia (e alguns, da noite) para celebrar o São Lourenço, enquanto assistiam à representação do Auto de Floripes. Ainda assim, estava a contar com alguns alunos.

Uma vez na escola, tal foi a minha surpresa quando reparei que o jardim se tinha transformado numa área de churrasco. Algumas salas estavam a ser utilizadas como quartos para dormir e a sala onde estava planeado dar a aula era um autêntico restaurante — o que se cozinhava no jardim, comia-se nas mesas da sala.

Olá, boa tarde a todos! Vieram para a aula de inglês?” Obviamente não esperava uma resposta afirmativa, e as minhas suspeitas confirmaram-se. Explicaram-me, então, que eram todos de São Tomé e tinham vindo para o Príncipe para a festa de domingo, prolongando a sua estadia até terça-feira. A escola disponibilizou-se para os receber, então ali estavam. Pedi permissão para “roubar” a sala para a minha aula e imediatamente todos se levantaram, começaram a arrumar e, imaginem, a limpar a sala toda. Aquele simples gesto conquistou-me automaticamente.

Introduções feitas, comecei a preparar o computador e o projetor para a aula. Poucos minutos depois da hora planeada chegou o meu primeiro aluno, que se prontificou a aguardar mais um pouco, não fosse mais algum colega chegar atrasado.

Dez minutos depois, decidi arrancar a aula com o único aluno minimamente pontual. Leve-leve, mas também não se pode ser sempre “levezinho”! Como tinha apenas um aluno, decidi fazer uma aula personalizada. Percorremos alguma matéria básica, para que eu conseguisse perceber qual era o seu nível de inglês — era a primeira vez que o Jeremias vinha às nossas aulas. Enquanto o fazíamos, reparei que estava parado à porta da sala um dos “hóspedes” da escola, um senhor na casa dos 40 anos, com um ar bastante interessado naquilo que estávamos ali a fazer. Sentiu o meu olhar, e perguntou se podia entrar para assistir. Sentou-se e antes que tivesse tempo de falar, entreguei-lhe um caderno de exercícios — se sentou, tornou-se meu aluno, então vamos aprender!

Prosseguimos a aula, agora com dois alunos. Ambos participavam ativamente e era notório que a sua motivação crescia à medida que se apercebiam que estavam a aprender algo novo. Lembrei-me de olhar novamente para a porta, e os meus olhos encontraram duas senhoras, do lado de fora, igualmente curiosas com a nossa aula. Convidadas a entrar, apressaram-se para arranjar uma cadeira e não perderam tempo para pedir um caderno de exercícios. Enquanto eu os distribuía, uma terceira colega juntou-se às alunas recém chegadas. Comecei a sentir que o churrasco estava a perder adeptos.

Começámos a falar das horas em inglês. Nine o’clock, half past ten in the morning, a quarter to eight in the evening, e por aí fora. A apresentação de power-point seguia acompanhada da minha voz, e os olhos dos alunos focavam atentamente naquilo que estava a ser explicado.

Subitamente, uma outra senhora, também ela “hóspede” da escola e apreciadora de churrasco, entra pela sala sem pedir autorização e a falar um inglês trapalhão — “I speak very good English” dizia ela. Desafiei-a a sentar-se connosco e provar-me que não se tratava de conversa fiada. Aceitou o desafio de bom grado, e assim ganhei mais uma aluna na minha aula.

Após terminar a exposição da matéria e colocar algumas questões orais, pedi que abrissem o caderno de exercícios e passassem à escrita. Seguiu-se um momento de silêncio, o qual eu aproveitei para olhar em redor — a sala que antes tinha apenas um aluno, contava agora com mais 5 alunos, todos adultos oriundos de São Tomé, que acharam bem mais interessante desenvolver o seu inglês do que saborear o peixe que era grelhado no jardim.

Cada um com o seu caderno, demos início à correção dos exercícios. Não consigo encontrar palavras para explicar o que senti quando interroguei a “turma” sobre o primeiro exercício e quase que se atropelavam para conseguir responder. “Professor, eu quero responder!” “Professor, eu sei essa!” Aquece o coração de qualquer um.

Corrigidos os exercícios e tiradas as dúvidas, demos a aula por terminada. O aluno “quarentão” agradeceu-me por aquele momento com um forte abraço, e as restantes colegas perguntavam, curiosas, a que horas seria a aula amanhã. Uma delas contou-me que era professora de ginástica num hotel, e queria aprender algumas noções para falar com os seus potenciais clientes. Não perdi tempo a aderir ao seu pedido.

Ao sair da sala de aula, agradeci a todos por terem assistido à aula, e pedi desculpa por ter interrompido o jantar. “Interrompeu o quê? Você agora não vai embora sem provar o peixe!” Tentei resistir, mas a insistência foi tanta que eu próprio me sentiria mal se não provasse. Moreia, era o petisco — e que delicioso estava!

E assim foi a minha última aula de inglês na Universidade Gravana. Começámos com um aluno e acabámos com a sala cheia, mas, melhor ainda, saí da escola de barriga e coração cheio.

Duarte

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