Epístola do Príncipe: O dia em que fomos apresentados na missa.

Acordámos no Príncipe, sinto que estão 50 graus e já são 9.30h da manhã. Sim eu disse “já são” porque o dia aqui começa por volta das 6h!

Já tomámos o pequeno-almoço graças aos nossos amigos locais que nos trouxeram pão e café . A manteiga já a Maria tinha “angariado” no voo de Lisboa para São Tomé.

É agora hora de irmos até à igreja para nos apresentarmos ao Sr. Padre e assistirmos à missa das 10h.

Na rua, apesar de ser domingo, sente-se uma enorme agitação. As pessoas andam todas em campanha porque estamos em altura de eleições e uma das candidatas, a Maria das Neves, escolheu começar a sua campanha no Príncipe como forma de agradecimento à população pelo resultado obtido aqui nas eleições anteriores.

Chegámos à igreja e a irmã Maria apresentou-nos ao Sr. Padre Carlos, que nos recebeu lindamente agradecendo esta nossa participação na comunidade e prometendo um tempinho no fim da missa para que nos pudéssemos apresentar e divulgar o nosso programa de actividades. Na hora de começar a missa, a igreja encheu e era altura dos preparativos para a celebração da primeira comunhão de imensas crianças. Posso-vos dizer: sou católico e estou habituado a igrejas e a missas, mas esta arrepiou-me e não foi pelos lindos tetos ou altares banhados a ouro (que não existem), foi sim pelo clima e emoção que se sentia no ar.

Quando nos sentámos fomos abordados pelo Sr. Nicolau (responsável pelo Centro Cultural e que ajuda na igreja), que nos pediu para fazer a leitura da segunda oração desta missa e deu-me o papel para a mão. No início fiquei entusiasmado, pensei “ boa, é uma oportunidade para nos integrarmos na comunidade em algo que eles valorizam imenso”. A missa começou e foi linda, muito cantada, super mexida, com o Sr. Padre Carlos, que é colombiano e vai mandado algumas piadas para conquistar os crentes. Chegou a altura de ir ler, dirigi-me ao altar e a igreja calou-se. Eu tremia por todo o lado o meu coração batia a mil. Aproximei-me do microfone, olhei em frente, e vi todas aquelas pessoas emocionadas a assistir a esta cerimónia da qual eu agora ia fazer parte. Não os podia desiludir. Comecei, “Epis, Episu,Epits” e congelei. Estava em pleno altar a ler a segunda oração e bloqueei na primeira palavra, pensei para mim: “é Epístola deixa de ser parvo, faz um sorriso e avança com isto”. E assim fiz, respirei fundo, sorri e continuei.

Quando terminei pensei: “consegui estragar a oportunidade que nos deram de integrar esta cerimónia”, mas enganei-me. A caminho do meu lugar, imensas pessoas piscaram-me o olho como quem diz “estiveste bem” e no fim algumas vieram mesmo ter comigo a rir e a dizerem que todos se enganam nessa palavra: “não dá, é muito complicada”, dizem eles. Afinal adoraram e sentiram que eu era um deles tal como eu passei a sentir o mesmo. Tenho a agradecer esta experiência à igreja , ao Sr. Padre Carlos e ao Sr. Nicolau que nos deram a oportunidade de participar nesta cerimónia. A missa é agora um hábito a tomar enquanto estivermos na Ilha.

Francisco M.

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