Mãos anónimas

O dia na ilha do Príncipe começa cedo, perto das 6 da manhã. E, em dia de posto de saúde, os horários são mais rigorosos porque o primeiro desafio começa com a procura de um transporte para nos levar à Praia Abade.

Assim que chegamos, depois de alguns caminhos conturbados dada a ausência de estrada alcatroada, a comunidade, que já nos conhece, recebe-nos com os seus sorrisos brilhantes, outrora tímidos.

Os homens vão à praia buscar areia e as meninas vão à nascente buscar água. A comunidade tem observado a evolução do nosso trabalho e também tem participado: ajudaram-nos a capinar, a ir buscar areia e a fazer betume.

Mas desta última vez fomos ainda mais surpreendidos: as tarefas que tínhamos planeado fazer nesse dia já tinham sido finalizadas pela comunidade. Na nossa ausência puseram literalmente mãos (n)a obra: pintaram as paredes do interior e exterior do posto. Afinal, aqueles olhares aparentemente alheios ao nosso trabalho, foram de tal forma atentos que deram frutos.

Nesse dia, sentimo-nos parte da comunidade. Seja pelos sorrisos das crianças, seja por termos deixado de ser “brancas das neves” para passarmos a ser a Rita, a Joana e a Inês, seja pela senhora que faz o melhor pão da ilha e que, sem mesmo a questionarmos, justifica que só vai ter pão à tarde, seja por último pela participação na recuperação de algumas mãos anónimas que não esperam reconhecimento. A essas mãos anónimas e ao Hospital dos Lusíadas, o nosso muito obrigada.

Inês