Machim no Capim

- “Não vamos conseguir nem metade!” — dizia um.
- “Três dias no mínimo.” — dizia outro.
A limpeza em Porto Real estava agendada para o sábado seguinte. O ano letivo começa em setembro e o jardim da creche estava a precisar urgentemente de ser desbravado. O plano era juntarmo-nos aos pais, que todos os anos são convocados para esta árdua tarefa. O plano era esse, mas ainda havia dúvidas quanto à sua exequibilidade…
- “Xiiiiiii…! Se a comunidade ajudar, talvez. Mas não é trabalho para um dia…” — dizia o terceiro.
As dúvidas justificavam-se. É que o “capim” aqui no Príncipe cresce alto e cresce rápido — tanto que cortá-lo merece verbo próprio, “capinar”. E capinar era o que íamos fazer.
Às 6h da manhã lá estávamos nós: os voluntários locais, com mais experiência (e talvez desconsolo); e os portugueses, ingénuos, e ainda com esperança que o capim se intimidasse com o olhar e abandonasse o campo de batalha de mote próprio. Não resultou.
Arregaçámos as mangas e começámos a arrancar as danadas ervas. A nós se juntou o primeiro pai, que aconselhou vivamente o uso de luvas. “Há aí bicho que pica.” — levámos o conselho a peito e depressa confirmámos a sua utilidade quando encontrámos umas quantas centopeias.

Lentamente, começaram a chegar outros membros da comunidade. Um a um, de catana em riste, juntaram-se a nós, mostrando uma destreza invejável no uso dos seus “machins”. Com eles chegavam outros conselhos. “Não encosta no ‘coça-coça’.” — avisaram, apontando para uma planta com folhas frondosas. Redundante será dizer o perigo que aí nos esperava.
Rapidamente nos tornámos num batalhão — ao todo já éramos uns vinte. A comunidade aderiu em peso e as largas dezenas de metro quadrado de capim começaram a ser domadas. Com ancinho, enxada, catana e mãos enluvadas, cortámos e fomos cortados, esfolámos e fomos esfolados. O suor que escorria das nossas testas era tanto que dificultava a vista.
Passo a passo, erva a erva, lá fomos derrubando o mato inimigo. Também houve tempo para pausas e assim fomos conhecendo os nossos colegas de trabalho. A Dona Armanda deu um ar da sua graça quando dançou “O Quadradinho” e o Sr. Nelson distribuiu coragem líquida ao oferecer um vinho branco refrescante e até cachaça… Ainda não eram 9h da manhã! Mas, como se costuma dizer, “no amor e na guerra…”.
No final prevalecemos. A manhã ainda não tinha acabado e a creche estava “descapinada”! Abandonámos a batalha, cansados mas sorridentes, e apenas com uma certeza: para o ano, lá estará o capim, à espera da desforra. E a luta não será fácil! Boa sorte para a próxima equipa. :)

Francisco G.