A mulher e o passarinho.

Eva foi despertada naquela manhã por um canto diferente dos que estava acostumada, depressa ela correu para a porta da cozinha para ver se era ele — e era — o pássaro mais lindo que ela já havia visto e dotado de um canto que a fazia ter vontade de não ouvir mais nada além. As penas de seu corpo eram de um verde vivo e em volta do pescoço, como um colar vermelho, penas que se assemelhavam a chamas e davam um ar de místico ao animal.

Twit, como ela decidiu batizar o ilustre visitante, aparecia sempre no início da manhã e algumas vezes à tarde, ele se alimentava das sementes que caíam da gaiola dos 3 periquitos e 2 calopsitas que ali moravam. Para Eva o dia só começava após a visita de Twit.

Sempre que contava a alguém era encorajada a capturar Twit para que ele pudesse cantar para ela sempre, todos sabiam que ela adorava aves e diziam que assim ela teria certeza que sempre veria Twit. Ela até chegou a pegar uma arapuca emprestada, mas tinha receio de maltratar o animal e nunca colocava a engenhoca para funcionar.

Um dia, como se desconfiasse que algo estava estranho, Twit não apareceu e nem no outro, e no outro. Aquela semana toda passou e Eva teve a impressão de que seus dias haviam perdido a cor.

Na manhã do décimo dia ela acordou, ainda sem forças para sair da cama, rolou para um lado e para o outro, de súbito deu um salto, correu até a cozinha e lá estava ele brigando com um pardal pelas deliciosas sementes que estavam espalhadas pelo chão. Rapidamente Eva armou a arapuca e colocou painço preto (preferido de Twit) como isca, e saiu de perto.

Quando o sininho tocou avisando que a armadilha havia trabalhado ela não conseguia acreditar, lá dentro Twit estava desesperado, tentando fugir sem sucesso.

Seu lindo pássaro foi acomodado na melhor gaiola que ela possuía, com todos os apetrechos que a vendinha do seu Zé dispunha, inclusive um caixotinho que serviria para Twit dormir. Logo que foi colocado em sua nova casa o pequeno pássaro explorou toda ela, mas entrou no caixotinho e de lá não saiu mais.

Eva acreditava que Twit estava muito feliz, por isso estava tão saltitante, e como esperado adorou seu caixotinho de dormir. Mas os dias passaram e ele mal havia mexido na comida ou na água, então ela resolveu olhar o que estava acontecendo, e descobriu um Twit agressivo, que não mais cantava e estava tentando fugir sempre que ela mexia no caixotinho. Os dias se passaram e a situação não mudou.

Por fim, ela decidiu soltar o pobre passarinho que não sabia viver enclausurado. Assim que ela abriu a gaiola e saiu de perto Twit atravessou a pequena porta que o separava da liberdade e sumiu em direção ao céu.

Naquele momento Eva teve a certeza de que não o veria novamente, mas de certa forma não se sentiu triste, pois havia feito a coisa certa. Ela se sentiu tão bem que resolveu soltar os demais pássaros que possuía, mas estes nasceram em cativeiro e não sabiam viver de outra maneira, mesmo com as gaiolas abertas eles apenas ficavam a observar aquela atitude atípica de sua amiga humana.

Na manhã seguinte Eva acordou mais cedo que o normal e ligou a Tv para ouvir enquanto passava o café, quando foi à varanda para recolher a gaiola de Twit foi surpreendida com o pequeno passarinho dentro da gaiola, entrando e saíndo do caixotinho, chegando um pouco mais perto pela percebeu que além de Twit havia mais 3 pequenos passarinhos no caixote, então ela descobriu que Twit agora era mamãe.

Todos os dias ao menos um integrante da família de Twit aparecia para dar o ar da graça, cantar empoleirado sobre a antiga gaiola da mamãe, que agora estava sempre aberta e com água e comida fresca. Com isso Eva aprendeu o que muitos de nós deveríamos saber a tempo:

O homem não pode ser dono de tudo, muitas vezes é melhor conquistar um novo amigo do que aprisiona-lo.

Agora ela não só era amiga de Twit, mas também de Huguinho, Zezinho e Luizinho e nunca mais ficaria sem ouvir aquele canto maravilhoso.