Às vezes estou a ir para a escola, com fones nos ouvidos, muito provavelmente, a ouvir Queens Of The Stone Age e começo a pensar. O nevoeiro desfaz-se na minha cara e eu pareço conseguir sentir todas as suas partículas, o meu nariz esta gelado, o dióxido de carbono expirado por mim fica tão visível que parece que estou a fumar um cigarro e eu pareço ter perdido a sensibilidade de todos os dedos nas minhas mãos, que parecem que vão cair a qualquer momento. Ainda assim, pego no meu iPod e começo a escrever, no meio da rua, porque não quero ir para a escola. Estes são os únicos momentos que tenho para apreciar o mundo, os únicos em que não estou demasiado ocupada a fingir que me interesso pelas conversas que estou a ter, os únicos em que posso ver por onde estou a andar e consigo pensar que, se calhar, isto até vale a pena e que, talvez, o mundo seja bonito. Sou obrigada a acordar, o considerado, “demasiado cedo” e ir para um estabelecimento onde outras pessoas são obrigadas a fazer o mesmo, senão vou presa. Além disso, sou obrigada a estudar para ter bons resultados a uma coisa que não gosto e não tenho interesse nenhum. Porque? Por causa dos outros. É tudo para os outros. Segundo a minha família extremamente católica, fazemos tudo para os outros e temos de utilizar os nossos “dons” de forma a melhorarmos a vida dos outros. Eu faço parte dos “outros” dos outros mas não dos meus “outros” e acho isso indecente. Porque é que não posso fazer parte dos meus “outros” em vez de estar sempre dependente dos outros?
Não gosto de ir à escola. Não gosto do conceito de escola. Somos quase obrigados a dar-nos com pessoas e depois a tratá-las bem. E para quê? Para nos integrarmos? Isso parece ser demasiado importante para mim do que o que eu gostaria que fosse.
Desde o início do ano letivo, só me lembro de uns 2 dias em que estive realmente feliz. De resto, obriguei-me a mim mesma a esboçar um sorriso minimamente simpático para não duvidarem do meu estado de espírito. Tenho de falar muito, muito alto, com uma voz esganiçada, rir-me, fazer expressões, comentar. Estou farta. São demasiadas coisas em que pensar.
Acho piada quando me dizem “Eu conheço-te” ou “Só me dou contigo porque gosto de ti”. Não, não conheces e não, não gostas de mim. Já vi esta frase inúmeras vezes por toda a parte, mas já a dizia antes de a ter visto: não gostas de mim, gostas da ideia de mim. Não o que sou, mas o que pensas que sou.
Toda a gente à minha volta parece saber avaliar-me com os mesmos rótulos: se sou virgem, ou não virgem, se fumo ou não fumo, que tipo de virgem sou, que tipo de não virgem sou, que tipo de fumadora sou, que tipo de não fumadora sou, o que fumo, as notas que tenho, a marca de roupa que visto, o meu estilo de roupa, quantas vezes me penteio ou lavo o cabelo, a música que oiço, quantos amigos tenho, quantos namorados tive, o dinheiro que tenho, as vezes que sorrio, as vezes que me rio, as vezes em que me baralho nas minhas próprias palavras e as vezes em que faço figuras tristes. Acho que são basicamente estes os critérios com que me avaliam ou avaliaram. Mas aposto que ninguém sabe responder corretamente a mais de 20% deles. Porque? Porque não me conhecem. Sou um ser humano, mas sinto-me como uma sombra. O que se sabe sobre mim muda de segundo para segundo, tal como as minhas emoções. Tanto odeio uma pessoa como já estou a pensar que se calhar gosto dela a sério. Tanto quero agredir alguém verbalmente como o quero beijar e sinto-me em extremos.
Se calhar é porque sou instável. E falsa. Sinto-me falsa como nunca me senti e não estou habituada. Estou a tentar adaptar-me a uma nova realidade, à minha nova realidade. Como num jogo em que se perde e se começa com uma personagem nova, que tem habilidades diferentes da anterior.
Mudei. Não sei se para melhor ou pior mas, sinceramente, não quero saber. A única coisa que gostava de saber é o que sinto, adorava poder determinar se o ódio é amor ou se o amor é ódio porque não aguento o facto de não os conseguir distinguir. O meu pensamento está a matar-me.
A minha cabeça vai explodir.
Os meus dedos parar de escrever.
O meu cérebro parar de funcionar.
As frases a ficar mais pequenas.
Cada vez mais, e mais, e mais.
E mais, e mais, e mais, e mais.
Mais, cada vez mais, e mais.
Mais, mais, e mais, e mais.
Cada vez mais, e mais.
Mais, cada vez mais.
Mais, e mais, mais.
Mais, cada vez.
E mais, e mais.
Mais, e mais.
Mais, mais.
E mais.
Mais.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Sumugz’s story.