azulejo

CHRISTOPHER DELORENZO


Acho que aceito o titulo nobre da covardia. Com os pés desajeitados tocando o gelado do chão de cerâmica, nevosos. Encarando a mochila cheia, e tudo o que ela representa, sem coragem de deixar para fora um pequeno pedaço. Foi na mania de amontoar, e embaralhar a bagunça de roupas sujas e limpas num mesmo monte de descaso, que conheci tanta coisa, vi tudo crescer de um jeito muito meu que trazia tanto entendimendo do que foi e do que se é.

Pelo nervoso de se viver e a facilidade fajuta que tenho em fugir, decidi limpar toda aquela imundice, passar um pano na prateleira da cozinha abarrotada de vasilhas em desuso, varrer o tapete lotado de pelos de gato, organizar as finanças e cuidar de mim, se der tempo sentar pra decidir se iria ajudar a esfregar aquele nome sujo do azulejo do teu banheiro ou te colocar debaixo do carpete junto com assuntos inacabados e passados doloridos, onde fui covarde demais para me entregar.

Nem da tempo de acender um cigarro, anotando calculista no caderno sujo de gordura pelas mãos desleixadas, com motivos de vasão sentimental por intensidade bruta, esquematizando tudo com tristeza prematura, como se tu fosse um pacote de pão e meu sentimento aqueles duzentos gramas de queijo que no fim do mês me pesam os bolsos, — sem dar nem oportunidade pro futuro, no final eu teria que pagar de qualquer forma. Ralhei comigo e prometi que mês que vem tudo ia dar certo, a calma faria presença, a divida iria ser paga, a casa teria todos os móveis que faltavam por fim, as luzes queimadas seriam trocadas e nenhum mofo começaria sua colônia num canto escuro. Mês que vem tudo vai estar tranquilo. E assim que a beleza se instalar de vez, as certezas tomarem minha cabeça, a angústia irá embora.