Felícia


Tu foi, mas já vai voltar.

E sabe que eu fui, mas se pudesse te levava junto comigo pra todos os lados que meu destino tivesse que me carregar.

Eu sei, desculpa a ausência, eu te conheço melhor do que ninguém e te amo muito mais do que qualquer um vai ousar, e se ousar, eu volto e amo mais.

Tu volta, lá pelas duas, e repousa na janela, as vezes até bate no vidro com a cara de quem diz “ei, abre a porta pra mim” e assim eu abro, como abri meu coração da primeira vez que te vi, e da primeira vez que me disse com os olhos, em piscadas preguiçosas, que me amava demais.

“Ei, me alimenta, faz uma janta e enche meu prato”, tu diz, é a tua frase favorita e nosso hobby compartilhado.

“Ei, te trouxe um presente, mas ta faltando uma parte, não leva a mal?”, disse olhando pra mim, faceiro da vida.

Tu deixa um monte de ti espalhado nas minhas roupas, deixa espalhado em mim teu cheiro, assim que me vê chegar da rua com o cheiro de outras vidas, que tu não entende muito bem, mas aceita porque agora eu to aqui contigo.

E a gente conversa, conversa demais e como eu, tu gosta de falar e fala demais, porque sabe que eu amo o som agudo da tua voz.

Tu lembra quando eu chorei daquelas vezes, e com um carinho despretensioso, sempre me avisa que não vai mais os deixar voltar, porque me ama e que é pra eu colocar aquelas musicas que eu gosto de dançar enquanto tu fica deitado na cama de barriga pra cima bem alheio do mundo.

Contigo eu aprendi a amar de montão, contigo eu aprendi a amar livre, sem amarras, sem necessidade de palavra, mas com a generosidade de compartilhar de verdade com quem se permite. Contigo eu aprendi o peso da saudade que é ter que ir e deixar ficar pelo bem do outro.

Vou te tirar pra dançar, vou sim, te pegar pelos braços, vou te pegar no colo, a gente vai girar pela sala, vou te deixar ir sim, calma, mas só depois do carinho, porque tu sabe que eu adoro te amarrotar em abraços e beijos apertados.

Vem cá, da essa barriga aqui, deita aqui do meu lado, encosta a cabeça no meu colo, to nem ai se ta quente demais, teu cheirinho de mundo me corrompe numa rasteira de amor infindo, lindo, grande, cinza, preto, amarelo e malhado, de olhinhos verdes e carinha de coitado.

Desenho: Ricardo Antônio, 2016

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