sobrou um pouco do verão

Ana Luiza Gracioli
Aug 24, 2017 · 2 min read

Eu fechei a janela agorinha mesmo, porque ela me dava a tua vista.

E eu fiquei cansada de só observar tuas curvas e as curvas mais lindas que vem ti são as do teu cabelo preto todo enroladinho. Eu levantei da cama olhando em volta meio tonta, como daquelas vezes que a gente se mexe rápido demais, pareceu tudo vazio, embora minha cama estivesse mais cheia do que nunca. Tu foi embora e me deu aquela tontura de quando alguém especial se vai rápido demais.

Fui levando a vida como se levasse pedra em meus bolsos, ela ia me guiando ao invés de eu a guiar, confortante saudade da rasteira. Então lavei aquela camiseta que tu acha engraçada, que misturava cheiro da minha fumaça com o teu e não me pareceu certo a vestir sem voltar àqueles momentos tão nossos que hoje só de lembrar eu esbravejo saudade e grito com o tempo por ter desfocado de mim esses olhos tão pequenos, que ficam mergulhados nas ruguinhas quando tu sorri. Passei café e lembrei das luzes na tua pele e com um gole de recordação eu me aqueci.

Fui na feira e não reconheci coisa alguma, eu se querer sabia onde estava, ela não parecia ser a mesma, mas o seu Eliseu da banca 4 me reconheceu e me alcançou, como sempre, as quatro cebolas, duas cenouras, o alho poró e as ervas que engrossam o caldo das minhas refeições que agora faço sozinha, sentada na cadeira amarela solitária da cozinha, enquanto eu mancho com pingos delicados, a toalha de pimentas, que cansei deixar de molho para que saíssem as manchas impregnadas de outros caldos que derramei, assim como deixo meu coração todos os dias para tirar um pouco de ti que ainda repousa lá dentro.

Segui voando pelos cômodos, como a dança de um passarinho em dia de ventania no céu, a casa tomada pelo sol, como se as janelas que ainda restaram abertas trouxessem com o tempo a calmaria que eu sentia quando tu estavas presente e lembrei que na tua moradia não bate sol, na tua janela não tem vista e o quão triste é viver aprisionado dentro de si, sem se deixar resgatar.

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Ana Luiza Gracioli

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às vezes eu tento fazer poesia, mas não me preocupo mais com a incoerência dos meus textos, nem com o erro das minhas pontuações

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