Somos construídos

Vocês não vão crer no que me levou a digitar tamanho absurdo que está por vir. Estava eu analisando as atrocidades oferecidas ao meu desprazer pela podre timeline do meu não tão amado Facebook, quando deparei-me com a seguinte manchete: “Por que alguns animais comem o próprio cocô?”. A essa altura, se você que está, por ventura, lendo essas palavras e já teve contato com algum de meus outros escritos, já deve saber o quanto minha mente tende às mais estranhas conjecturas e incoerentes conclusões. Tendo esses simples fatos sido estabelecidos e você, leitor, suficientemente situado nas circunstâncias que deram origem à tamanha enrolação, posso tomar liberdade de prosseguir com meu pensamento.

Logo que li e processei bem a frase estampada em letras grandes que formavam o chamativo de um artigo, comecei a unir certos pontos, gerar certas dúvidas e adquirir certo grau de entendimento. É claro que o ato de ingerir as próprias fezes é, além de totalmente repulsivo e socialmente intolerável, algo que certamente não é sadio e, mesmo que seja, o é em pouquíssimo valor. Além disso, associamos tal comportamento à instintos primais, dignos (justamente) apenas de animais.

Entretanto, perguntei-me algo que, se desconhecesse meus próprios limites, muito me preocuparia com minha sanidade mental: Por que nós temos uma visão negativa sobre, não apenas usar de cocô para alimentação, mas outras atitudes (às quais não há necessidade de citação no momento)? A resposta para tamanha insanidade é bem simples: Tal ojeriza deve-se ao fato de crescermos aprendendo o que podemos ou não podemos fazer — degustar bolo fecal com certeza pertence aos itens presentes na segunda lista. Há, de fato, certas atitudes que realmente não podemos tomar em prol da própria segurança — tocar no fogo, andar sobre vidro, ir muito fundo no mar, contemplar nossa insignificância em relação ao universo, etc. Não apenas isso, mas somos conduzidos a adquirir certos gostos e tomar conhecimento do que é bom ou ruim baseando-se em qualquer moralismo necessário para a constância aceitável da sociedade.

Concebamos um cenário hipotético em que um indivíduo não é ensinado sobre qualquer uma das limitações citadas anteriormente desde muito jovem, e também não é exposto à indução de conduta ética ou moral — basicamente, é deixado sozinho para experimentar o mundo. Algumas coisas vão acabar sendo aprendidas por ele na prática e pelas experiências boas ou ruins. Agora, é impossível prever preferências tais como apreciar ou não o consumo dos próprios detritos. Pode-se até mesmo dizer que tal indivíduo será a representação mais pura e natural do ser humano, sem interferências ou influências.

Tudo isso leva à conclusão previsível de que somos todos construídos, e que nossas aversões não são exatamente “nossas”, mas fruto de fortes intervenções vindas de diversas origens às quais estabelecemos contato durante nosso desenvolvimento. Portanto, torna-se impossível dizer quem realmente seríamos se não fôssemos expostos à nada disso. É fácil concluir também que não seríamos (no sentido de não sermos capazes de reconhecer tal fato, o que acarretaria na impossibilidade de sermos classificados como inteligentes), apenas existiríamos.

Escrito em 19 de fevereiro de 2016 às 02:59
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