5 principais motivos pelos quais as empresas (ainda) não conseguem ser ambientalmente sustentáveis

De acordo com um relatório do Fundo Mundial para a Natureza (WWF), a humanidade está consumindo mais do que a Terra é capaz de repor. Dados do Panorama dos Resíduos Sólidos de 2014, da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), mostram que aproximadamente 41,7% do lixo gerado diariamente no Brasil não tem uma destinação ambientalmente adequada, causando grande problema para a Saúde Pública e para o Meio Ambiente. Essa é uma realidade extremamente preocupante e mesmo assim muitas empresas ainda não conseguem ser ambientalmente sustentáveis. Listamos aqui os principais motivos que explicam esse cenário e algumas soluções possíveis.

1 — Preço

Esse é o primeiro motivo que impede muitas empresas de investirem na sustentabilidade. Existe uma barreira importante para reciclagem que é o custo da matéria-prima secundária, ou seja, que venha de algum processo de reciclagem ou reutilização. Um exemplo disso é o papel reciclado que é mais caro do que o branco.

Os materiais recicláveis recuperados já pagaram os impostos devidos e não deveriam ser taxados novamente. A reciclagem tem um grande apelo social e ambiental, mas precisa ser sustentável economicamente para ser viável e atrativa para os investidores.

Uma das soluções para o problema de preço seria uma política que incentivasse a diminuição desse valor, evitando duplicação de tributação fazendo com que a logística para fazer a matéria secundária viável economicamente.

2 — Baixa produção em escala

A segunda razão que explica o não investimento das empresas é a falta de volume de materiais reciclados em um escala industrial. Isso acontece, pois a quantidade de lixo gerado é muito superior à capacidade atual das associações. O trabalho dos catadores é super importante, mas acaba não sendo o suficiente. De acordo com o estudo da SELUR — Sindicato das Empresas de Limpeza Urbana e da ABLP — Associação Brasileira de Resíduos Sólidos e de Limpeza Pública, publicado em 2016 em conjunto com a PwC Brasil, denominado “Índice de Sustentabilidade da Limpeza Urbana (ISLU) para os municípios Brasileiros”, apenas 4% dos materiais recicláveis são recuperados, enquanto em países como Alemanha esse índice ultrapassa 50%.

3 — Falta padronização

O terceiro grande problema é a falta de padronização dos materiais reciclados para uso na indústria. Temos como exemplo a fabricação de plástico no Brasil. A norma brasileira ABNT NBR 13230 estabelece os símbolos para identificação das resinas termoplásticas utilizadas na fabricação de embalagens e acondicionamento plásticos. Entretanto, o que se vê, é que nem sempre a norma é colocada em prática, dificultando a separação e posterior reciclagem dos materiais de acordo com a sua composição.

Grande parte dessas embalagens possui um código que identifica o tipo de plástico do qual o produto é feito, mas, segundo uma pesquisa mercadológica realizada em 2008 pelos autores Leda Coltro; Bruno F. Gasparino e Guilherme de C. Queiroz, somente 80% das embalagens avaliadas apresentaram o símbolo de identificação da resina. Além disso, em alguns casos, até 40% das embalagens apresentaram a identificação do material de forma incorreta.

É necessário conscientizar as empresas da importância de se fazer a identificação de maneira certa de suas embalagens, seja de plástico ou de qualquer outro material. Precisamos de mais normas e especificações técnicas, pois essa falta de padronização do mercado dificulta e muito a cadeia de reciclagem do plástico no Brasil.

4 — Pouca consciência

O quarto motivo que destacaremos é a falta de consciência por parte dos consumidores, pois muitas vezes optam pelo preço mais baixo. Para mudar essa situação é preciso que o governo e as empresas invistam mais em propagandas que estimulem o consumo de produtos ambientalmente corretos e que tenham embalagens que possam ser recicladas.

A Natura é um ótimo exemplo de marca que conseguiu, brilhantemente, emplacar produtos que prezassem pela sustentabilidade e que caíssem nas graças dos consumidores. Em 2000 a empresa lançou a linha “Ekos” com a proposta de utilizar apenas ativos da biodiversidade brasileira extraídos de forma sustentável. Desde o ano de criação até hoje os produtos são um verdadeiro sucesso graças a sua qualidade e uma campanha publicitária bem alinhada com essa ideia.

Sabemos que há muito que mudar, mas percebe-se uma grande evolução na nossa mentalidade. Segundo pesquisa realizada em 2015 pela PROTESTE Associação de Consumidores, as pessoas estão dispostas a pagar mais por alimentos orgânicos e socialmente sustentáveis. 94% dos 760 entrevistados estariam dispostos a consumir mais produtos orgânicos se a oferta fosse maior.

5 — Pouca ação do setor público

A quinta e última razão pelas quais as empresas ainda não conseguem ser ambientalmente sustentáveis é a falta ação consistente do setor público. Apesar da Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/10), que cria metas importantes para a eliminação dos lixões e institui instrumentos de planejamento nos níveis nacional, estadual e municipal, a maioria das prefeituras ainda não coloca isso em prática. É importante que todas as esferas do governo trabalhem para reverter essa situação gerando mecanismos e soluções viáveis para melhorar a consciência logística.

As entidades também precisam se mobilizar para estimular a reciclagem. A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) está dando bons exemplos. A entidade criou, em 2015, o Grupo de Trabalho de Máquinas e Equipamentos para Resíduos Sólidos (GTRS) para estimular o adensamento da cadeia produtiva do setor de resíduos sólidos. Além de incentivar a indústria nacional com esse viés, o grupo tem como objetivo contribuir para a organização do setor e aproximação dos diversos stakeholders.

Um dos projetos desenvolvidos pelo GTRS é a criação de uma bolsa virtual de resíduos sólidos. O que é resíduo para uma empresa pode ser matéria-prima para outra. Nessa iniciativa, os associados da entidade poderão fazer seu cadastro em uma plataforma e oferecer os resíduos gerados por sua empresa. Assim, será possível estabelecer contatos e gerar negócios.

O setor de reciclagem de resíduos enfrenta também outro grande problema. Temos no Brasil uma capacidade instalada e ociosa que trabalha hoje com um nível de utilização em torno de 60%. É preciso defender a indústria nacional, pois temos toda a tecnologia necessária para fazer a triagem, reciclagem e destinação adequada dos resíduos. Em uma planta de triagem de lixo, por exemplo, mais de 90% são de componentes que podem ser fabricados aqui no país. A partir do momento que se enxerga valor no lixo, ele se torna um negócio.

Precisamos, urgentemente, mudar os rumos do nosso planeta. Enquanto não houver uma articulação entre governo, empresas e sociedade, estaremos fadados a uma crise ambiental tenebrosa e que pode ser irreversível. Vamos lutar por uma política mais eficiente e fazer a nossa parte diariamente.