Por que uma atriz de sucesso abandonaria Hollywood?

Texto de Lisa Jakub para a Newsweek, em 29 de agosto de 2015

Estava eu lá parada em frente à casa que comprei aos 15 anos. Usava um vestido chique e sapatos impossíveis de se andar, com uma maquiagem aplicada por uma amiga, indicada ao Emmy na categoria de Maquiagem, porque eu mesma nunca aprendi a fazê-lo. Eu ia para uma festa de arromba e já deveria estar lá. Era a festa de lançamento de Independence Day, um filme que eu estrelava. Will Smith estaria lá, Jeff Goldblum estaria lá e Billy Crystal e Sharon Stone.

Supostamente, eu deveria estar lá também, mas ao invés disso segurava a maçaneta da porta, a vista embaçada, os joelhos tremendo. Eu estava sofrendo um ataque de pânico.

Claramente havia um problema.

Por anos, achei que o problema era comigo. Afinal de contas, eu estava vivendo um sonhos, não? Eu era uma atriz, em Los Angeles. Tudo começou com o mais surreal dos encontros — uma menininha de 4 anos, com seus pais, comprando material agrícola sendo “descoberta” — para se tornar uma carreira de 18 anos em Hollywood. Aquele momento aleatório e levemente assustador, tornou-se uma bola de neve com mais de 40 filmes e programas de TV. Acabei tendo uma carreira, uma casa, uma identidade, uma vida.

Então, por que eu estava suando, tremendo, praguejando — incapaz de ser uma pessoa jovem, divertida, a ligeiramente famosa atriz que eu aparentava ser? Por que não estava em casa, lendo um livro? Por que sonhava acordada com um trabalho em um escritório? Um trabalho onde eu sem querer pegava o lanche de alguém na geladeira compartilhada, enquanto sentava numa cadeira de rodinhas, com meu cardigã pendurado no encosto para barrar o ar condicionado? Por que eu sonhava com o pesadelo suburbano?

Eu já era atriz havia dez anos quando fui contratada para ser a filha mais velha de Robin Williams em um longa que parecia ser um filme mal feito no estilo de Tootsie. O filme era muito melhor do que isso e mudou muita coisa na minha vida. Sair de casa se tornou desafiador: tinham as tentativas ocultas de fotos, abraços de pessoas que não sabiam quando parar e uma afirmação de propriedade que me fazia sentir como um macaco de dança ao invés de uma estranha, introvertida e solitária adolescente de 15 anos.

E havia o fator da beleza. Por ser morena, fui colocada na categoria “étnica” de Hollywood. Por não ter seios turbinados, eu era considerada “atlética”, estava destinada a papéis de amiga, molecona ou Joana D’Arc. Mais de uma vez, os produtores sacudiram as cabeças, coçaram os queixos e suspiravam, dizendo: “você é uma boa atriz, Lisa, mas não é bonita o suficiente”.

Eu sorria e dizia: “bem, obrigada pelo seu tempo!” e pensava porque eu não me vendia. Mas quando eu pensava alto sobre sair da indústria, todo mundo dizia que eu era louca. Trabalhei tanto desde a pré-escola para chegar até ali: você vai deixar sua carreira? Não podia desapontar produtores, diretores, espectadores e todo mundo que morria de vontade de ser famoso jogando tudo para o alto daquele jeito. Então, deixei a vida me levar, assumindo que se não estava feliz, a culpa devia ser minha. Eu não tinha conexão com aquela satisfação, portanto, pensei, devo ter aquela alma deprimida de artista.

Havia coisas boas, claro. Eu gostava de viajar e das intensas ligações que criávamos nos sets de filmagem. Mas quando fiz 22 anos, as desvantagens apagaram as regalias. Não segui o caminho das drogas e álcool como alguns dos meus colegas. Escolhi a versão da boa moça que desprezava a si mesma em uma aura de sufocante sofrimento.

Eu temia que se fosse despida de meu título de atriz, não haveria mais nada para mim. Acabaria desabando como se cortassem as cordas de um boneco. Porém, maior que meu medo de sair, era meu medo de ficar. Me via como um animal enjaulado, presa em uma vida que não queria, cambaleando e espumando, tomando decisões imprudentes que resultariam em notícias clichés nos jornais.

Então, eu fui embora.

Mudei-me para uma pequena cidade na Virgínia. Fiz faculdade. Trabalhei em uma rádio e fiz transmissões sem fins lucrativos. Aprendi a usar um cartão de ponto e a fazer fritada de legumes na frigideira para o jantar. Recolhi cupons para a lavanderia. Aprendi o que era uma vida normal. E era lindo.

Quando as pessoas falam “você parece aquela menina de Uma Babá Quase Perfeita”, eu digo “é, ouço muito isso…” e tento sair de fininho do lugar. Enfim abracei minha verdadeira paixão na vida: escrever. E agora eu sento em meu escritório, com o cardigã no encosto da cadeira de rodinhas e faço o autêntico trabalho que sempre almejei. Nunca uso saltos altos e aqueles pagamentos vultuosos, com vários zeros, não aparecem mais. Atualmente, os zeros foram para frente, porque fiquei famosa ao receber um cheque de 41 centavos.

Mas estou feliz. Fazendo esse trabalho, aprendi a ser grata por tudo o que aconteceu. Não me escondo mais. Todo mundo têm uma história; a minha calhou de ser a história de um sonho real de deixar Hollywood e não de viver lá. É incomum e algumas vezes as pessoas me olham atravessado, mas aceito minha aversão. Penso naquela garota que tremia, presa à maçaneta da porta, temendo a grande estreia. Difícil acreditar que era eu. Ela estava apavorada, então fez o mais seguro e mentiu para si mesma:

Você é uma idiota por não querer essa vida.

Você não pode deixar as expectativas dos outros na mão.

Você não será capaz de fazer outra coisa.

Se for muito longe, você não poderá mudar de ideia.

Todo mundo sofre nesse trabalho.

Ela foi para a festa, circulou com aqueles sapatos desconfortáveis e mentiu para o mundo. Ela fingiu sua própria vida.

Mas eventualmente essa garota acordou e parou de colocar as definições de sucesso dos outros sobre a sua. Ela passou a escrever a história de sua própria vida.

E este era o final feliz que ela sempre quis.

Lisa Jakub é escritora, oradora e atriz aposentada. Sua biografia, You Look Like That Girl (Você Parece Com Aquela Garota), está nas livrarias e ela está trabalhando em seu próximo livro. Lisa mora na Virgínia com seu marido, Jeremy e sua cachorra, Grace.