Quer ler o prefácio da nova aventura de Rosa e sua tripulação na Amaterasu?

Você sabe que tem que acordar. Mas para que? Essa nuvem de opiáceos sintéticos é revigorante. Deliciosa seria uma palavra melhor. Lembra muito algumas combinações ousadas da juventude, não é mesmo? Não que isso venha ao caso.

Acordar vai lhe trazer problemas, vai te fazer lembrar de problemas, vai apenas te preocupar mais. Ainda assim, suas pálpebras se erguem quase que mecanicamente, sem sua permissão ou vontade. E ao fazer isso, a dor voltou com uma força maligna, abraçando seu crânio como se um gigante apertasse os dois lados da cabeça para esmagá-la, feito uma fruta madura. Queria lembrar de onde essa dor veio? Melhor não.

Tudo está embaçado em um primeiro momento, porém você reconhece luzes, um cheiro asséptico que lembra muito bem um hospital ou uma enfermaria. Tenta chamar alguém e uma rouquidão inesperada a atinge. Você estava em um karaokê, por acaso? Ou ficou gritando até o mundo acabar?

Virando a cabeça, o que lhe custou preciosas calorias, você percebe umas figuras paradas. Estátuas? Não, pessoas mesmo ou é o que parece. O da frente usa um uniforme militar, alguns dos que estão atrás também. É quando sua visão entra em foco que você se levanta da biocama onde estava. A cabeça não alivia em nada na dor e você se senta mesmo assim. O crânio parece que vai rachar feito um ovo. Omelete de cérebro!

O sujeito à frente de todos os outros é facilmente reconhecível. Seu estômago afundou uns dois centímetros, talvez mais, pois aquele ali é seu ex-marido, capitão do cruzador Eketāhuna. Você testa a voz algumas vezes até que…

— Mike?

Mike Puatai foi seu marido por pouco tempo. Criou a filha que vocês tiveram juntos muito bem, superando seu tempo na prisão, os longos anos embarcada, mas paciência tinha limites até para ele. Seu olhar firme tinha algo como pena, raiva talvez? A tatuagem em seu queixo, finamente trabalhada em tinta preta, sempre a atraiu. Mordeu aquela covinha várias vezes… A pele acobreada, o cabelo bem curto, corte militar, os ombros largos de nadador. A combinação fatal de mesa de dados, tesão e tequila.

— Rosa, que bom que acordou.

Essa não… Ele está preocupado. Você reconheceria aquela ruga pitoresca entre as sobrancelhas em qualquer lugar, a tensão controlada na voz, um pânico oculto pela rigidez de soldado. O que aconteceu dessa vez?

— O que… — sua voz falha de novo — o que aconteceu?

— Estas são autoridades coloniais de Lamarr 3, querem falar com você. — apontou para trás com um aceno de cabeça.

Mesmo sabendo que as pernas não vão corresponder, você desce da biocama e dá alguns passos em falso pelo quarto. Olha bem para cada uma das pessoas naquele recinto, algo bem ruim tinha acontecido, era fácil perceber isso. Nenhum deles tinha um sorriso apaziguador, nem um sorrisinho falso de ironia, um olhar de simpatia. Não, não, aqueles eram olhos de quem queriam respostas. Você as teria?

— O que é que tá acontecendo? — você tenta de novo.

— Rosa…

— Minha tripulação? — você o interrompe.

— As autoridades querem falar com você…

— Mike, cadê a minha nave?! — ele te ampara antes que você caia no chão.

E a frase que você nunca quis ouvir, aquela para a qual você sempre achou que tinha preparo e maturidade, as palavras mais duras que sempre a assombrariam, foram proferidas:

— A Amaterasu foi destruída, Rosa.

E você apaga de novo.