Convivendo com a dor crônica

Todo mundo em algum momento tem dor nas costas. É normal do corpo humano perder o viço ao longo dos anos e a coluna é uma parte do corpo que sempre sofre com aquelas posições tortas no sofá, no computador, lendo na cama. E desde 2010 que eu sofro de dor crônica.

Em 2010, saí da escola onde dava aulas sentindo choque nas duas pernas. A dor, a rigidez nas costas, os choques e dores nos calcanhares pioraram muito, mas eu precisava trabalhar e pagar as contas, colocar comida na mesa, aquelas coisas. Esse foi meu último dia trabalhado.

Em 2011 a situação piorou muito, a ponto de eu nem conseguir mais andar. Dor, dor, dor, lancinante, intensa, todos os dias, todos momentos, todos os minutos. Quando finalmente fui para a mesa de cirurgia, onde coloquei quatro parafusos e duas hastes de titânio na base da coluna, achei que meu tormento estava acabando. Acordei na UTI naquela noite, apesar de todos os contratempos, feliz. A dor sumiu.

Foi assim por pouco tempo. Eu fazia fisioterapia e uma dor forte do lado direito do quadril começou. Parei a fisioterapia, voltei para o consultório. Fiz vários exames. Nada. Os cirurgiões não concordam entre si. Um queria tirar o titânio todo, o outro queria colocar mais próteses, o outro achava que uma infiltração resolveria.

Pouco tempo depois, dores fortes no braço direito e no pescoço começaram, subindo pela nuca e a parte posterior da cabeça. Além da usual tendinite, eu agora tinha uma hérnia de disco pressionando o nervo do meu braço, mais duas acima pressionando os nervos do pescoço. E essa tem sido minha vida.

A dor crônica atinge 30% da população mundial. É caracterizada por se estender por meses e até anos, às vezes devido à uma doença, lesão ou cirurgia. Os ortopedistas não sabem me dizer porque a dor persiste e as mudanças que aconteceram no Hospital do Servidor Público Estadual dificultaram muito a vida de quem sofre de doenças crônicas. É simplesmente impossível conseguir um atendimento.

Conviver com a dor crônica é um desafio diário. Se deixar, ela te controla o dia inteiro. Ficar em casa, sem trabalhar, é outro. Por isso o blog. Eu precisava de algo pra fazer pra não pirar. Mas tem dias que não dá. Ela se apodera de todos os passos do seu dia. Do levantar ao dormir, do comer a escovar os dentes, do subir uma escada a pegar algo no chão. Certas coisas ficam impossíveis de se fazer, como ter paciência, como esperar compreensão das pessoas que não entendem que você não está de manha, que você não está fingindo, que não é preguiça.

A pior parte é com os peritos. Eles não acreditam na sua dor, não confiam que você está tão mal quanto diz estar, afinal você talvez esteja apenas não querendo trabalhar, certo? É preciso sair de casa sem medicação, porque ela te deixa tão sonolenta e distraída, que um acidente pode piorar a coisa. Qualquer esbarrão no metrô, qualquer solavanco do ônibus, e a fina linha que separa a paciência do terror se rompe.

Pior é que você se afasta das pessoas, deixa de responder mensagens, e-mails, deixa de sair quando te convidam, deixa passar oportunidades de conhecer as pessoas, porque não tem condições de sair de casa. Você vira a antipática, a antissocial, a arrogantona que não quer contato com os meros mortais, quando na verdade tudo o que você quer é que alguém te abrace e pergunte o que pode fazer pra ajudar.

O desgaste físico não se compara ao emocional e mental. Ler com dor é uma tarefa digna de Hércules. Eu não consigo prestar atenção, volto o parágrafo várias vezes. Às vezes evito qualquer atividade intelectual pra não me estressar com a possibilidade de não conseguir terminar.

Remédios… Ahhh, você vira especialista neles. Conhece todos. Vira referência farmacológica para os outros que estão com dor. Tramal, Tylex, Paco, Tegretol, Gabapenina, Lyrica, Toragesic. Tem dias que a dor te priva de qualquer paz e você dobra a dosagem pra poder aguentar as horas que virão até você dormir. E tem semanas que você não tem dinheiro pra comprar os remédios, que o posto de saúde não fornece, e aí você mergulha na escuridão.

Quem convive comigo todos os dias, como a minha mãe, acabam vindo a reboque e viram reféns da dor. Eu fico tão impaciente, que uma resposta que pra mim parece normal é carregada de grosseria. Pra não acontecer isso, eu prefiro esconder a dor, fazer piadinhas e fingir que está tudo bem. E não está, claro. Você não consegue segurar o prato na hora de se servir pro jantar, mas também não quer que ponham pra você, afinal não é mais criança!

Se eu tivesse procurado ajuda logo que os problemas apareceram e fizesse fisioterapia, tivesse tempo de fazer exercícios e tomado remédios, a cirurgia não seria necessária. Eu só prestei atenção quando o corpo falou “pára, sua loka!”.

Não deixe uma dor piorar a ponto de ser governado por ela. Se você convive com alguém que tenha dor crônica, não trate a pessoa como uma inválida, mas não seja bruto ao ponto de dizer “você já fez isso tantas vezes e agora não pode?”, porque, acredite, tem horas que não dá. Não diga “ahh, mas por que você não faz fisioterapia/acupuntura/natação/pilates?”. Vai ver eu não tenho dinheiro, miga, já parou pra pensar nisso? Você nem sempre vai ler no meu rosto que estou me contorcendo de dor, mas acredite, ela está lá e se alguma cura milagrosa tivesse surgido, eu já saberia.

Tenha a sensibilidade de olhar para alguém com dor e tentar compreender. Porque julgar é fácil, carregar a dor é muito difícil.

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