Quem quer transporte público?

Terminal Parque Dom Pedro II, centro da capital paulista

Eu moro num bairro da zona sudeste da capital paulista chamado Vila Sônia. Quase ninguém conhece quando eu falo o nome dele. É um bairro relativamente novo, datando dos anos 50, quando não tinha nem energia elétrica. O nome é uma homenagem à filha de um dos donos do terreno que forma o bairro, sr. Antonio Bueno. Ele pertence à subprefeitura do Butantã, fazendo divisa com os distritos do Rio Pequeno, Butantã, Morumbi, Campo Limpo e Vila Andrade, além do município de Taboão da Serra.

De uns tempos pra cá a especulação imobiliária disparou por aqui. A tão propagada linha 4 do metrô, a linha Amarela que ligaria a Estação da Luz à Vila Sônia não ficou pronta. Os canteiros de obras pela Avenida Prof. Francisco Morato estão bem floridos, coisa bonita de se ver, porque estão abandonados e as armações de concreto estão enferrujadas. Nosso metrô mais próximo é a estação Butantã.

O bairro é atendido por uma linha de ônibus, a Vila Sônia — Metrô Butantã, que é circular. Por ser um bairro cheio de altos e baixos, com grandes inclinações e declives e uma população idosa, além de escolas importantes para a região, é uma linha mais que necessária.

Mas hoje, o cobrador da linha estava revoltado. Ouvi a conversa dele com o motorista e alguns passageiros de que um grupo de moradores da Vila Sônia ligou para a SPTrans — empresa responsável pelo gerenciamento do transporte público da capital paulista, que ficou com o legado da finada CMTC, privatizada por Paulo Maluf quando era prefeito, em 1995 — dizendo que eles deviam tirar a linha de circulação porque na Vila Sônia todo mundo tem carro.

Os passageiros, logicamente, deram risada e ficaram indignados. É um disparate você querer tirar linhas de ônibus do bairro que for, ainda mais com o tamanho que a capital tem e com os problemas de mobilidade que temos. A Vila Sônia já sofre com trânsito nas ruas estreitas e antigas, porque os moradores dos condomínios do Portal do Morumbi e vários outros que surgiram por causa do metrô, cortam caminho por dentro para chegar em casa.

Os transportes coletivos em São Paulo têm registro a partir de 1865, onde a capital tinha poucos bairros e a concentração populacional estava nas ruas Direita, do Rosário e São Bento, no centro da cidade, local onde residiam as famílias de posse. Os bairros como Brás, Santo Amaro e Penha estavam ainda começando e para chegar lá era preciso alugar um carro de boi. Um italiano publicou uma tabela com preços para o transporte em carro de boi no jornal e a coisa começou aí. Os bondes com tração animal começaram a operar em 1872 e em 1880 foi construída a linha de bondes com início na rua da Liberdade, ligando a capital à Vila de Santo Amaro. O primeiro bonde elétrico começaria a operar em 1890.

O antagonismo decarro e transporte público não é novo. O prefeito Prestes Maia, na época secretário de obras, privilegiou o transporte individual em seu famoso plano de avenidas nos anos 30, quando a capital paulista teve um boom de urbanização, ao chegar perto de 1 milhão de habitantes. A Light, (The São Paulo Tramway, Light and Co. Ltd.), operadora dos bondes e responsável pela produção e distribuição de energia elétrica na cidade na época, tinha proposto uma linha de metrô em 1927, acompanhando outras cidades do mundo que já tinham começado obras do mesmo nível (Paris em 1900 e Buenos Aires em 1913). Prestes Maia ignorou o projeto para dar seguimento ao seu plano de avenidas, que abriu grandes vias de circulação para carros, como as avenidas 9 de Julho e Rio Branco. A população que lá morava foi expulsa pela urbanização e realocada na zona norte da cidade, fundando o bairro da Brasilândia.

Mais tarde, nos anos 50, o projeto de um metrô para a capital voltou à pauta do poder público com uma nova comissão. Quem era o presidente dela? O próprio Prestes Maia. As marginais Tietê e Pinheiros, o Minhocão, os grandes viadutos e túneis, tudo foi pensado em abrir vias de circulação para carros, e os incentivos dados para a compra de automóveis foram uma forçante por anos.

Voltando ao pensamento desses moradores, me impressiona o umbiguismo e o egoísmo de querer que uma linha de transporte público seja removida de seu bairro. Claro, né? Se ele anda de carro, todo mundo deve andar, então tire que é melhor. SQN. A linha da Vila Sônia já é problemática por si só. De domingo é impossível sair de casa, pois são apenas dois carros na linha. Costumo dizer que ele passa só duas vezes por dia no domingo, quando vai e quando volta.

As agudas inclinações das ruas e valetas profundas responsável por danificar os veículos e todo dia um deles apresenta defeito ou quebra. A viação não pode colocar carros mais modernos ou articulados, pois eles não conseguem circular pelas ruas.

Há um boato de que vão tirar a linha do ônibus para colocar uma lotação. Seria ótima a mudança se o metrô já estivesse funcionando. Mas como não há previsão de entrega da estação e do terminal urbano, a linha ainda é nossa melhor opção para entrar e sair da Vila Sônia.

Acho bastante asquerosa essa posição presunçosa de certas pessoas, como se usar transporte público fosse algo nojento. Todo mundo riu da atriz Lucélia Santos, pegando ônibus no RJ. Por que? Por que isso é tão mau visto? Por que é associado a gente pobre? Por que é associado à classe trabalhadora? Sim, por tudo isso.

Todos nós deveríamos ter acesso ao transporte coletivo de qualidade e que pudesse desafogar as vias de circulação já entupidas de carros. Infelizmente, carro ainda é uma posse que dá status, não interessa se foi financiado em 36 vezes. Essa ilusória posição social faz com que moradores se achem no direito de pedir a remoção de linhas de ônibus, sem pensar nos empregos dos motoristas, cobradores e fiscais e sem pensar nos moradores que dependem exclusivamente delas ou nos alunos que frequentam as escolas tradicionais daqui. Tem gente que nunca andou de ônibus na vida, o que é assustador de se pensar. Pois deve ser justamente gente assim que ligou na SPTrans.

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