UNINDO A PROCRASTINAÇÃO E A EXECUÇÃO ÁGIL PARA OBTER CRIATIVIDADE E ORIGINALIDADE

O título desse post é polêmico!

Como poderia a procrastinação trazer algum tipo de benefício?

O primeiro pensamento é que o autor do post certamente deve ser um procrastinador contumaz e está procurando por alívios para sua consciência!

Mas se isso é verdade, no mínimo não foi intencional, pois descobri esses possíveis benefícios lendo um livro que não tem nenhuma relação direta com esse tema. Trata-se do livro “Originals: How Non-Conformists Move the World”, de Adam Grant , cujo objeto de estudo é o entendimento de como surgem as ideias originais, como podemos avaliá-las, gerá-las e as transformar em negócio. Primeiro vou fazer um breve resumo sobre o que diz o livro e, depois, trazer algumas reflexões interessantes para o ambiente corporativo.

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O livro é bastante inspirador e, em um determinado capítulo, o autor mostra uma visão muito interessante sobre a procrastinação. Ele mostra, por exemplo, como a procrastinização foi extremamente benéfica para o famoso discurso de Martin Luther King, sobre o qual todos conhecem a máxima “Eu tenho um sonho”. Será que Luther King já chegou no dia do discurso com tudo preparado? Será que, dada a importância do discurso, ele o concluiu com semanas de antecedência, deixando tudo pronto para, no dia do discurso, apenas executá-lo?

A história foi bem diferente! King começou a trabalhar no discurso, de fato, apenas quatro dias antes do evento. Na noite anterior ao evento, o discurso não estava concluído. E durante a ida para o evento, ele ainda fazia ajustes! Mais do que isso: ele improvisou durante o discurso — e não foi qualquer improviso: a parte em que ele diz “eu tenho um sonho” não fazia parte do discurso!

Esse e outros exemplos trazidos pelo autor do livro remetem para a seguinte ideia: a procrastinação poderia ser benéfica quando se procura desenvolver algo com criatividade ou originalidade.

E por que? Há vários fatores. O principal deles é que quando procrastinamos algo, mantemos esse algo em “aberto” na nossa mente. Isso significa que ele continua sendo alvo de processamento de nosso cérebro. Além disso, significa que esse algo ainda pode ser afetado por uma nova ideia ou evento com o qual nos deparemos. Essa combinação aumenta muito as chances de que façamos algo mais criativo e original do que teria sido possível se já tivêssemos fechado o assunto tão rápido quanto possível.

Leonardo Da Vinci, por exemplo, demorou anos para pintar a Mona Lisa — e algo distintivo na Mona Lisa é a forma como ele utilizou a projeção de luzes, algo que ele tinha aprendido em estudos de ótica que desenvolveu enquanto ainda concebia a pintura!

O fato é que muito planejamento antecipado fecha as possibilidades e mata a espontaneidade — e, claro, reduz absurdamente as possibilidades de se criar algo original!

É importante ressaltar que nos exemplos citados, cada personagem tinha um rico background que lhes permitia testar e refinar gradualmente possibilidades. King já tinha realizado diversos discursos, já tinha lido diferentes tipos de texto e obviamente isso foi fundamental para as experimentações mentais que ele fez até o dia do discurso!

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Não sei se é por causa de minha natureza procrastinadora, mas refletindo sobre minhas próprias experiências, passei por várias situações em que vivenciei exatamente o que foi descrito pelo autor: na medida em que o tempo passava eu tinha mais ideias para um determinado assunto, ou tinha oportunidade de utilizar algo que li ou que ouvi em uma conversa. Tenho convicção que em muitos casos obtive melhores resultados — do ponto de vista de originalidade e criatividade — do que teria obtido se tivesse corrido para terminar rapidamente o que tinha que ser feito.

Mas isso traz uma outra questão muito relevante: vivemos com prazos apertados no mundo corporativo, vivemos em uma luta contra ineficiência, já temos pessoas demais que não entregam o que lhes é solicitado — como defender a procrastinação em um contexto desses? Como utilizá-la a favor e ao mesmo tempo não correr o risco que o comportamento das pessoas que estão procrastinando não se torne pura enrolação?

O primeiro passo é saber que só é válido utilizar o conceito de procrastinação para certas atividades. Atividades cujo diferencial será justamente a originalidade e criatividade. Soluções para problemas desestruturados se enquadram muito bem nisso! Em ambientes corporativos, normalmente esses problemas estão associados a inovação ou diferenciação e, portanto, na maioria das vezes, necessitam de soluções criativas e originais. Tarefas bem estruturadas, mesmo que complicadas, não necessitam de criatividade e originalidade — a procrastinação, nesses casos, seria mera enrolação!

Uma vez escolhido o tipo de tarefa, ainda resta um grande risco: como garantir que haverá convergência na execução da tarefa? Leonardo Da Vinci gastou quase quinze anos para desenvolver as ideias para “A Última Ceia” — obviamente nenhuma organização pode se dar esse luxo!

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Precisamos, portanto, ter uma forma de acompanhar o progresso, gerar uma pressão para conclusão da tarefa, mais sem que essa forma ou pressão crie os efeitos anti-criatividade e anti-originalidade mencionados anteriormente.

Foi então que percebi que a execução ágil tem um princípio que se adéqua perfeitamente a esse cenário: a execução iterativa.

A execução iterativa não é nada mais do que saber que um problema será resolvido gradualmente e que o próprio processo de aprendizado para resolução do problema irá trazer o conhecimento necessário para chegar à solução. As iterações criam janelas fixas de tempo, ao término das quais espera-se um resultado e, a partir deste, uma condição mais benéfica para executar a próxima iteração e procurar um resultado melhor.

Essa dinâmica — janelas de tempos fixas com objetivos de curto prazo e execução de múltiplos ciclos — se adequa perfeitamente à necessidade que descrevi anteriormente: pressão para conclusão de uma tarefa, mas sem estagnação da força criativa.

A execução em múltiplas iterações garante a pressão de curto prazo, mas, ao mesmo tempo, mantém o problema em aberto, pois se sabe que ele será resolvido em iterações. 
Garante, portanto, que haverá progresso, mas sem forçar um progresso definitivo em curto prazo. Garante também que haverá exposição a eventos — das mais diferentes naturezas — que possam gerar novas ideias.

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Parece, portanto, que é possível procrastinar com método, ou seja, procrastinar de uma forma que seja possível colher benefícios sem incorrer no risco da mera enrolação.

E se é possível procrastinar com método — e se procrastinar auxilia na originalidade e criatividade — é possível ser original com método! Ou, pelo menos, aumentar significativamente as possibilidade que isso aconteça!

E nesse tempos de domínio das forças digitais, aliada à forte pressão por redução de custos, a originalidade e criatividade são mais necessárias do que nunca.

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