Cadê o foco que estava aqui?

Por Adriana Ricci

Queixa comum nos itinerários de qualquer trabalho, o foco ou a falta dele, aparece como um sintoma bastante recorrente de que algo não vai bem: “Não consigo ter foco no que preciso fazer”, “Preciso de foco na minha carreira”, “Preciso garantir um foco de longo prazo” e por aí vai.

Nunca foi tão difícil se manter engajado em uma atividade, já que sobram convites de alertas de whatsapp, notificações de facebook, além dos convites contínuos para você fazer algo que ame. Tal dificuldade não combina muito com a ideia de sacrifício, que é com o que mais se assemelha a tentativa desesperada de tentar manter a atenção em algo que não tem sentido para você.

A falta de foco é ainda sintoma dos nossos tempos, se observarmos a velocidade da expectativa de ascensão das novas gerações e a facilidade com que mudam de uma atividade para outra. Nada surpreendente para quem aprendeu, desde cedo, a encontrar respostas para suas dúvidas no Google, estudar aquilo que de fato lhes interessa usando apenas a ponta dos dedos e a compartilhar sentimentos em frases curtas ou fotos na internet.

Foco vem do latim focus, que significa também fogo. O dicionário nos informa que a palavra, ao menos no nosso português, serve para designar um ponto de convergência. Mas convergência de que?

De desejo, pensamentos e ações, logo imagino. Tentar fazer algo e não conseguir se focar no trabalho, por exemplo, significa que falta convergir seus desejos, pensamentos e sentimentos para um único ponto. Estar inteiro, digamos assim, naquilo que você está fazendo. Ou seja, há algo mais que disputa sua atenção e capacidade de realização ou entrega. Há um algo além que demanda seu fogo, sua energia.

Na física ou na fotografia, pensar a falta de foco é pensar em imagens embaçadas. Então, quando alguém se queixa de não conseguir se focar no que importa, entendo que falta a ela um ponto de convergência. Assim, ao invés de ensinar técnicas de adestramento para pensamentos rebeldes que insistem em aparecer em momentos inconvenientes para sua produtividade e seu empregador, prefiro recomendar que você os trate com carinho e se pergunte onde está o fogo naquilo que está fazendo (nessa hora, quem já passou por momentos de crise com o trabalho pensa naturalmente em outros usos para o fogo, mas o fogo aqui vem como metáfora de energia, ok, coleguinhas?).

O problema do foco é que na ânsia de se manter focado, você pode desconsiderar ideias e sentimentos que podem ser justamente a solução para sua luta diária pela já mencionada convergência.

Retomo o que disse no início deste texto, da falta de foco como sintoma, para sugerir que você se atente a este “sinal”. Brincando um pouco com as palavras, arrisco dizer que não há foco sem fogo. Se está difícil convergir sua atenção e habilidades para aquilo que está fazendo, pode ser que o sentido tenha se perdido. Aí, ao invés de seguir táticas de adestramento, sugiro que encare isso como uma faísca para que você se encontre em algo que não lhe exija tantos malabarismos mentais.

E um alerta final: pode ser que este não seja o seu caso e que a falta de foco seja apenas excesso de chatice na tarefa ou projeto que está fazendo (e não é que faz parte? Um absurdo, não acham? Rs) ou excesso de foco nas redes sociais :D

Adriana Ricci é sócia-fundadora da TRID- Trabalho e Identidade. Psicanalista e Mestranda em Psicologia Social pela USP. Psicóloga com aperfeiçoamento em Orientação Profissional e de Carreira pela USP e Coach pela SBC. Possui sólida experiência em Recursos Humanos, sempre ligada aos processos de vanguarda em desenvolvimento e gestão de pessoas de grandes empresas multinacionais, além de atendimento particular em orientação profissional e de carreira e psicanálise.