O lado amargo da liderança.

Por Marina Bergamaschi

Fonte imagem: https://thesystemsthinker.com

Parece bastante claro para a maioria das pessoas porque assumir um cargo de liderança seria um bom negócio: você ganha status social, decide como quer que as coisas sejam feitas, tem a oportunidade de inspirar outras pessoas e deixar um legado, além de - em geral - ser melhor pago para isso.

Bem menos abordados do que os motivos citados acima, são os aspectos sombrios da liderança. Sim, porque eles existem. E certamente você será um melhor líder se considerá-los na hora de assumir uma nova posição como gestor, aceitando os desafios de forma mais consciente. Ou então, será um melhor liderado se, ao considerá-los, perceber que na verdade prefere o outro lado desta mesa.

É desta decisão que tratamos quando falamos em Carreira em Y: vindos de uma mesma base, alguns profissionais se direcionam para o bracinho da direita, desenvolvendo-se como gestores de equipes, enquanto outros se destacam como especialistas seguindo pelo bracinho da esquerda.

Teoricamente, ambas as direções possuem igual importância para o bom andamento do negócio e deveriam ser igualmente valorizadas tanto financeira quanto socialmente. Mas sabemos que não é exatamente isso que acontece na prática cotidiana organizacional…

Então, já que estamos nesta realidade que hipervaloriza posições de liderança, é bem possível que você esteja em busca de uma doce oportunidade neste sentido, certo? Bem, vejamos com que tipo de amargura você terá que lidar. Aqui estão três delas:

1) Você se torna o alvo de piadas no escritório

Fazer uso de fofoca e humor parece ser uma tendência natural de socialização em qualquer ambiente. É divertido e te insere no grupo dos críticos (o que automaticamente te protege de fazer parte do grupo dos criticados). Aproximar-se do colega de trabalho para falar mal do chefe não é apenas uma válvula de escape, mas pode ser uma estratégia de sobrevivência no escritório.

Satirizar, apesar de poder ser considerado deselegante, nunca foi realmente mal visto ou apontado como algo a ser erradicado do ambiente de trabalho. Faz parte do jogo, aceita-se, tolera-se. Portanto, ao invés de aguardar que a equipe pegue leve, como líder, parece ser a melhor saída rir de si mesmo, até porque, é bem possível que você nunca chegue a saber o que falam a seu respeito nos corredores.

Uma das características do mundo moderno é que as pessoas se cansaram daquele tipo de respeito inquestionável associado à hierarquia aristocrática. Os poderosos são aceitos como alvo natural de críticas ao mesmo tempo em que consideramos inaceitável que alguém mais forte tire sarro de alguém mais fraco.

Antes de se tornar um líder você está de um lado da sátira: você provavelmente é adepto de ver e apontar o que não está indo muito bem, você é bom em identificar os responsáveis e você consegue enxergar todos os erros cometidos pelas pessoas que estão tomando as decisões.

No momento em que você assume um papel de liderança - seja como um gerente, um chefe de departamento, um empresário que emprega outras pessoas ou um investidor majoritário que cobra dos demais acionistas - você passa para o lado de dentro da vitrine. Você será mal interpretado, seus defeitos ficarão em evidência enquanto suas qualidades serão consideradas mera obrigação, isso é inevitável.

Nem sempre nós conseguimos lidar com as complicações e dificuldades inerentes a uma situação problemática: “Porque afinal estou entediado, frustrado, desapontado ou irritado?” Então buscamos alguém para culpar e o alvo ideal é sempre alguém que esteja por perto e aparente ser forte ou poderoso o suficiente para aguentar o tranco: em outras palavras, o líder.

Você talvez tenha até lançado mão desta estratégia em algum momento da sua carreira. Mas e agora, que você passou a ser o chefe?

2) No final, você vai ter que virar um filósofo ou um poeta

Talvez você tenha passado anos estudando Engenharia Elétrica, Cálculos e Materiais, mas como Gerente de Logística todo este domínio técnico dá lugar às questões inerentes à gestão de pessoas.

Talvez você tenha investido muito tempo e dinheiro se especializando em Medicina Nuclear, Oncologia e Cuidados Paliativos, mas como Diretor do Hospital Estadual todo seu manejo médico dá lugar às questões inerentes à gestão de pessoas.

Talvez você tenha finalmente alcançado um lugar de destaque como pesquisador e educador, reconhecido em seu Pós-Doutorado, benquisto por seus alunos e admirado por seus artigos científicos, mas ao se tornar Reitor da Universidade, todo este conhecimento dá lugar às questões inerentes à gestão de pessoas.

E as questões inerentes à gestão de pessoas são questões morais e éticas.

A moral e a ética são temas básicos da humanidade, incrivelmente presentes na religião, na filosofia e nas artes dos povos mais ancestrais. Tais questões não dependem apenas da experiência em resolver aquele tipo de problema, de treinamento especializado, de competências técnicas. A moral tem um quê de vocação, de missão pessoal, de dom. A ética exige uma predisposição para o pensamento filosófico, menos afeito às respostas definitivas e mais voltado para as discussões dialéticas, que consideram visões antagônicas e está sempre aberto para reconsiderar uma posição.

A filosofia aplicada às artes ganha ritmo e estética para se tornar mais palatável e inspirar os outros com mais leveza e efetividade.

Poesia é a ambição de se usar palavras para imputar ideias em nossa imaginação, influenciando nossas vidas com doçura e utilidade, como definia Horácio, poeta clássico da antiguidade romana.

Motivar, influenciar, engajar e direcionar são a poesia das atribuições de uma posição de gestão. Só nos motivamos por aquilo que nos toca, nos dá sentido, nos encanta. E é papel do líder colocar em palavras e ações inspiradoras as aspirações e projetos organizacionais.

Dentre os mil pronunciamentos que um CEO pode fazer - “A crise está em retração.”, “A meta foi ultrapassada.”, “Crescemos 3% no trimestre.” - ele deve saber escolher as palavras que falem diretamente ao coração daqueles que lidera. Ele será chamado, em última instância, a ser um poeta.

3) Você deixará de conviver com seus antigos amigos

Pode parecer exagerado dizer isso, mas pode acreditar: as suas relações de amizade no escritório vão mudar. A agenda, os papos, as piadas mudam. De repente, você deixará de ser tão frequentemente convidado para um café no meio do expediente, simplesmente porque esse passa a ser um pedido oficial de conversa com o chefe e ninguém está tão afim assim de ter duas ou três reuniões de feedback por dia, certo? Você já não se sente tão bem indo almoçar no PF da esquina e acaba acompanhando mais os outros gerentes em working lunchs do que a sua antiga turma de colegas no fast food. As conversas tomam um tom mais formal toda vez que você chega. Você vai se sentindo distante, sério e até um pouco frio. Os outros vão te sentindo distante, sério e até um pouco frio.

Não que o chavão “o poder subiu à cabeça” seja necessariamente aplicável aqui. Não acredito que se trate de uma mudança de caráter, uma mudança interna, mas de uma transformação impelida pela situação. O contexto mudou e você terá, necessariamente que se adaptar.

Você terá que funcionar assim mesmo, sem ser plenamente compreendido pelas pessoas que costumavam ser próximas a você. De uma certa forma, a liderança é um caminho solitário.

Para concluir

Temos o hábito de exagerar nos aspectos positivos das grandes mudanças pelas quais passamos ao longo de nosso desenvolvimento pessoal. A faculdade apresentada como a época mais divertida da vida, o casamento como a maior oportunidade de cumplicidade, a paternidade como a verdadeira auto realização.

Não que não hajam pontos positivos em todas estas fases, claro. A questão que levanto é que sozinhos, os aspectos positivos de uma situação configuram uma cena utópica, que não nos ajuda a ter uma noção mais realista de onde estamos nos metendo. Eles simplesmente elevam as expectativas a um nível inalcançável. E aí, por comparação, entrar na universidade, se casar ou ter um filho gera sempre uma frustração. O risco é que fiquemos tão desapontados que podemos acabar em pânico quando as coisas acontecerem de uma forma bem mais complicada do que aquela que imaginávamos. Sabe aquela sensação de que há algo particularmente errado com você? Aquele medo de não dar conta do recado, de não terem percebido que na verdade você não tem as qualidades para o cargo? É esse o risco que corremos ao não olharmos para os aspectos negativos de determinada situação.

A posição de chefe, de se juntar a um time de liderança ou de simplesmente se ter mais poder e responsabilidade sempre vai parecer invejável. Mas como vimos neste texto, ela traz consigo algumas dificuldades e inconvenientes consideráveis.

Sabendo disso, fica mais fácil se desvencilhar daquele sentimento de inadequação, impotência e vontade de desistir que nos acomete em tantos momentos das nossas vidas. Sabendo disso, fica mais fácil buscar e curtir aquela promoção quando ela de fato chegar. ;)

Marina Botteon Bergamaschi fez Psicologia, Licenciatura e Especialização em Orientação Profissional e de Carreira, todos na USP e atualmente faz Mestrado em Psicologia Social na mesma instituição. Atuou em consultório particular, escola, hospitais, consultorias e empresas nacionais e multinacionais. A vivência clínica em terapia Junguiana e Coaching e a experiência organizacional em Recursos Humanos, proporcionaram um olhar humanista que se uniu à paixão por escrever para criar este e outros textos. É sócia-fundadora da TRID — Trabalho e Identidade, empresa especializada em Orientação Profissional e de Carreira.