O sofrimento dos “melhores” alunos diante do vestibular

Por Camila M Fabre

Imagem: Studenthelp

Frequentemente ouvimos falar sobre os prejuízos no processo de aprendizagem e na autoestima sofridos pelas crianças quando são taxadas de “burras” na escola. Porém, raramente é discutido o sofrimento dos alunos que ocupam a posição contrária: possuem ótimo desempenho escolar, são considerados brilhantes pelos professores, os modelos a serem seguidos pelo restante da sala e o orgulho da família.

Provavelmente, você deve estar coçando a cabeça e se perguntando onde pode estar o sofrimento nesses casos. Talvez, até esteja achando uma enorme bobagem da minha parte escrever um texto com este tema. Se este é o seu caso, tenha paciência e siga lendo que vou explicar tudo.

Enquanto espera-se pouco dos alunos com dificuldades escolares, espera-se muito dos alunos “exemplares”. Neles são depositadas expectativas e esperanças, como: o máximo desempenho nas provas, a aprovação no vestibular, o estudo nas melhores faculdades e uma escolha profissional que os leve a um bom emprego, cargos de destaque e um ótimo salário. Elementos, que somados, compõem a fórmula do que muitos chamam de sucesso.

A confiança dos outros em nós fortalece a autoestima e vejo que ela é oferecida em abundância a este grupo de alunos (situação contrária no outro grupo). O problema é que junto com a confiança costumam vir as expectativas: confia-se e espera-se demais.

Não é nada fácil carregar sobre as costas o peso de ter que, mais evidentemente que no outro grupo, cumprir com tantas exigências. Com este intento muitos jovens se dedicam freneticamente para o vestibular sem nem mesmo saber qual curso querem estudar. A cobrança por ter que cumprir com sucesso a missão de aparecer na lista dos aprovados atropela um sentido que deveria ser fundamental para aqueles que se inscrevem em um vestibular: ingressar no curso que se deseja.

Outra situação, bastante comum, é que façam escolhas sem considerar a coerência com a própria identidade. Acabam optando por cursos, considerados pelos valores do grupo social no qual estão inseridos, “à altura” de sua inteligência e com a potência de mantê-los no modelo de sucesso que já representam. É o caso de muitos que escolhem Medicina, Direito ou Engenharia, por exemplo. Estas são profissões que carregam o estereótipo de serem garantias de status, bons empregos e altos salários. Alunos “brilhantes” que não seguem esta direção costumam ouvir: “Que desperdício, tão inteligente, poderia ter escolhido um curso melhor”.

O trabalho para se manter neste modelo de sucesso inclui se afastar de qualquer possibilidade de fracasso. Isso é exaustivo e leva tais jovens à alienação: quase não sabem sobre si e fazem pouco pelos próprios desejos. Porém, o que os mantêm nesta posição?

Desde que nascemos, o amor é uma de nossas necessidades básicas. Ao longo da história de cada um de nós, através das relações que estabelecemos com os outros (família, escola, amigos), aprendemos quais são as condições para que nos amem (admirem). Este aprendizado se dá mediante diferentes tipos de sinais: verbais e não-verbais, implícitos e explícitos nas nossas formas de interação. Um abraço, um sorriso, um parabéns ou um convite para um jantar costumam indicar que somos queridos, importantes ou que agradamos. Diferentemente, ao sermos ignorados, recebidos com frieza ou repreensão, entendemos que desagradamos ou não somos bem-vindos. Tais sinais modulam nossa forma de ser e atuar no mundo, de maneira que busquemos sempre ser amáveis (e amados) aos (e pelos) outros.

Os alunos ditos “brilhantes” costumam ser reconhecidos e admirados por seu bom desempenho escolar. Muitas vezes a relevância tamanha dada a este atributo se torna prejudicial à fase típica de experimetação e ampliação de experiências e jeitos de ser, definindo-os e reduzindo-os a esta qualidade. Eles próprios apegam-se a esta autoimagem e sentem um enorme medo de perdê-la. Afinal, entendem que é isso que os faz serem amados e admirados por aqueles que os rodeiam. Acreditam que só “são” quando correspondem exatamente a esta condição.

Presos à própria imagem do aluno “brilhante”, assumem verdadeiro pavor por falhar ou frustrar as enormes expectativas que possuem sobre eles. Diante disso, costumam escolher caminhos árduos atrás do tal sucesso, muitas vezes vazio de um sentido que traga real satisfação às suas vidas.

Aos pais e educadores, atentem-se às suas exigências: seus filhos ou alunos podem ser inteligentes e muito capazes para seguir e alcançar diversos desejos, mas é importante que façam isso pelo desejo deles e não pelo de vocês. Há muitos casos de pessoas insatisfeitas com sua profissão, que fizeram uma primeira faculdade e ao concluí-la, a duras penas, percebem que a fizeram para não desapontar o desejo dos pais.

Aos jovens, quando reconhecerem o peso da cobrança pelo ótimo desempenho, procurem compreender que o fracasso não o torna incapaz de tudo. Pessoas brilhantes também falham e o alcance do sucesso que tanto cobram de vocês não depende, unicamente, da sua inteligência. Além disso, fica mais simples brilhar onde você estiver de corpo e alma. A escolha de um caminho que não lhe faça sentido, que não lhe traga entusiasmo, não acende o seu brilho. Lembre-se de aproveitar a jornada!

Se precisar de apoio para lidar com esta dificuldade, a Orientação Profissional pode te ajudar!

Camila M Fabre é psicóloga formada pela UNESP, com Aperfeiçoamento em Orientação Profissional e de Carreira pela USP e especialização em Psicologia Transpessoal pela ALUBRAT. Iniciou sua carreira na área de Recursos Humanos. Hoje atua como psicoterapeuta e orientadora profissional e de carreira sendo também sócia-fundadora da TRID — Trabalho e Identidade. Desenvolve um trabalho sensível, aliando técnicas corporais, artísticas e lúdicas, sempre considerando o desenvolvimento integral do ser humano.