Stress no trabalho — o que isso tem a ver com a sua carreira?

Por Marina Bergamaschi

Fonte da imagem: physiocomestoyou.co.uk

As transformações ocorridas nas relações de trabalho no último século, em que se consolidou um sistema de autogerenciamento profissional — “você é responsável pela sua carreira!” — e a valorização da acumulação individual do capital — “tem sucesso quem é rico!” — influenciaram a construção de um modelo social que valoriza os resultados de curto prazo, a resiliência e a agilidade para se adaptar a constantes mudanças.

Cada vez mais recai sobre o indivíduo a pressão pelo sucesso ou pelo fracasso, o que lhe dá a ilusão de autonomia e liberdade, mas também, o aprisiona aos interesses do mercado: “a culpa é do seu mau desempenho, do seu perfil que não é aderente; nós, as empresas, o sistema de produção, o governo, nada temos a ver com isso!

Neste contexto, temos uma crescente limitação da atividade humana ao âmbito da sobrevivência e valorização individual, barrando a possibilidade de criar, transformar e produzir com autenticidade e propósito — fatores importantes de equilíbrio psíquico no trabalho.

Ao repetir o mantra “O sucesso só depende de você!”, a sociedade e suas instituições se ausentam do papel que exercem na construção da identidade e do projeto profissional de seus integrantes. Em consequência, há o rompimento da sensação de pertencimento, integração e contribuição social (passamos a nos sentir excluídos, sozinhos e incapazes). Com isso, a capacidade de construir um plano de carreira que permita ao trabalhador dar um sentido à sua trajetória profissional fica limitada. O papel central na estruturação e desenvolvimento psíquico que o trabalho ocupa fica comprometido e pode levar, portanto, a patologias mentais ou psicossomáticas.

O discurso organizacional da excelência contínua leva o trabalhador a aceitar as condições de trabalho atuais sem muita reflexão ou possibilidade de escolha: ele precisa mostrar-se o tempo todo cheio de motivação para atingir metas cada vez mais irreais, em ambientes cada vez mais competitivos e sob ameaça de serem facilmente substituídos caso não cumpram com esta expectativa.

Os sentimentos relacionados a experiências de humilhação, à vivência cotidiana de incerteza, à ocorrência de injustiças consigo ou com os colegas de trabalho ou ao confronto com dilemas éticos e morais, estão na origem de patologias como depressões, fobias, pânico, abuso de substâncias, dentre outros diagnósticos cada vez mais comuns nos ambulatórios de saúde do trabalhador.

A visão idealizada de si mesmo desmorona (“eu achava que o mérito era todo meu, que podia tudo, mas não…”) e, ao mesmo tempo, o trabalhador se depara com a percepção de que foi abalado o caráter ético que dava sentido às atividades realizadas (“a missão, a visão e os valores da empresa estão só na parede, ninguém os pratica!”) e com isso, o propósito do seu projeto profissional tende a desaparecer.

Sintomas como cansaço, enxaqueca e gastrite, aparentemente inofensivos, tornam-se cada vez mais frequentes e generalizados. Estes podem ser os primeiros alertas de que o stress crônico está se instalando e pode evoluir para a síndrome do esgotamento profissional (Burnout), descrita a partir do sentimento de esvaziamento vivenciado pelo trabalhador decorrente da perda ou empobrecimento do sentido do trabalho.

De forma geral, burnout é entendido como uma reação negativa ao stress crônico no trabalho, determinada principalmente por fatores como sobrecarga, falta de autonomia e de suporte social para a realização das tarefas, ou seja, relacionada à relação do trabalhador com a organização do trabalho. A sintomatologia abrange falta de energia, fadiga persistente, insensibilidade, cinismo e distanciamento afetivo, indiferença ou irritabilidade relacionadas ao trabalho e sentimentos de ineficiência e baixa realização pessoal. Quantos destes sintomas você já sentiu hoje ou na última semana? :- /

A prática nas empresas é tratar estes sintomas como um fenômeno isolado, decorrente do adoecimento individual. Busca-se reduzir, prevenir ou evitar a incidência de crises e adoecimentos físicos e psíquicos no ambiente de trabalho, minimizando perdas em rendimento e lucratividade por baixo desempenho, ausências, afastamento ou desligamento. O caso acaba sendo encaminhado aos profissionais de saúde ou consultores de carreira, para que estes apoiem o trabalhador no seu reequilíbrio pessoal.

A crise se apresenta ao trabalhador camuflada de preocupação com o desempenho pessoal no trabalho ou com a adequação de seu perfil profissional, portanto, nada mais natural do que buscar auxílio no redirecionamento do seu estilo de vida ou da sua trajetória profissional, buscando uma atuação mais plena.

Treinamentos, aconselhamento de carreira, coaching, counseling, mentoring, mindfulness, diversas modalidades terapêuticas e de medicação surgem, então, como estratégias para enfrentar o desconforto do indivíduo com seu próprio papel profissional. Seja através de feedbacks institucionais, por indicações de outras pessoas, ou através de sua própria percepção da necessidade de ajuda, o trabalhador parte em busca de maior autoconhecimento, planejamento e desempenho para dar conta de seu esgotamento físico e/ou psíquico e ressignificar sua carreira e identidade profissional.

Se estamos falando de devolver o sentido do trabalho ao profissional, entendo que a abordagem psicossocial contida nos conceitos de desenvolvimento vocacional, identidade ocupacional, projeto profissional e construção de carreira, pode jogar alguma luz sobre esta questão no contexto atual e é por isso que a Orientação de Carreira, como a concebemos na TRID, pode ser uma saída para os profissionais que se deparam com os sintomas e crises descritas acima.

Entendemos a noção de projeto profissional como um projeto de ação, uma estratégia de transição que não buscaria um estado definitivo, mas sim, a construção de planos de ação que possam ser ativados e atualizados nas diversas situações do percurso da vida profissional de uma pessoa, ou seja, um novo projeto é elaborado a cada situação de crise. Isso cria uma identidade profissional indissociável do projeto de vida desse indivíduo, por um caminho singular e intransferível. Um projeto de vida é o ponto de conciliação entre as potencialidades,desejos e restrições do sujeito e as possibilidades e interdições da sociedade, articulando-se as influências passadas, as realidades presentes e as ambições futuras.

Associar o projeto profissional com o projeto de vida de uma pessoa é uma abordagem cada vez mais comum dentro da Orientação Profissional e de Carreira e torna-se imprescindível na medida em que atuar em uma profissão implica em facilitar ou comprometer certas atividades sociais, familiares, de lazer… Uma vez que uma profissão não responde a todas as aspirações do sujeito, há de se integrar os demais papéis sociais que essa pessoa ocupa para se trazer realidade a este projeto. Por isso os autores atuais ressaltam a condição plural e contínua da situação relativa ao trabalho: falamos de mundos do trabalho e não mercado do trabalho, estratégias identitárias e não identidade, projetos profissionais e não escolha profissional, desenvolvimento de carreira e não ocupação.

Ao meu ver, é esta visão integrada de projeto de vida e projeto profissional que serve de pano de fundo para pensarmos a qualidade do vínculo entre uma pessoa e seu trabalho e as relações deste vínculo no adoecimento psíquico relacionado ao trabalho.

Marina Bergamaschi é sócia-fundadora da TRID — Trabalho e Identidade, empresa especializada em Orientação Profissional e de Carreira. Estudou Psicologia, Licenciatura e Especialização em Orientação Profissional e de Carreira, todos na USP. Atuou em consultório particular, escola, hospitais, consultorias e empresas nacionais e internacionais. A vivência clínica em terapia Junguiana e Coaching e a experiência organizacional em Recursos Humanos, proporcionaram um olhar humanista que se uniu à paixão por escrever para criar este e outros textos.