Testes Vocacionais não preveem o seu futuro profissional

Astrid Trid
Dec 3, 2018 · 6 min read

Por Camila M Fabre

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Dentre as várias perguntas que costumam chegar àqueles que trabalham com orientação profissional e de Carreira, uma se destaca: Vocês fazem Teste Vocacional? A frequência com que esta questão se apresenta possibilita pensar que boa parte das pessoas que se preocupam com suas escolhas profissionais, desde o vestibulando até o adulto em transição de carreira, compreende (e reduz) a Orientação Profissional (OP) como sendo a aplicação de Testes (o que é um engano, embora haja alguns profissionais que a façam assim).

É perceptível que muitas destas pessoas procuram testes quase como alguém que procura uma cartomante: desejam que eles revelem o seu futuro, qual profissão trará sucesso, dinheiro e felicidade. Isso é preocupante e para agravar, o mercado (psicólogos, orientadores profissionais, faculdades, revistas, sites, feiras de profissões) faz inúmeras ofertas de serviços e testes, vendidos como sendo capazes de revelar um caminho certo, seguro e feliz. Que bom seria se isso tudo fosse possível.

Testes Vocacionais são instrumentos utilizados em orientação profissional ou seleção de pessoal, para a avaliação, em geral, de aptidões e interesses. Muitas destas ferramentas não são testes psicológicos e algumas não possuem validade científica alguma. Os testes psicológicos são fundamentados em uma teoria e precisam atender aos requisitos de validade e precisão passando por um crivo científico e de Direitos Humanos. Além disso, são de uso restrito do Psicólogo. Antes de se submeter a algum desses instrumentos, procure se informar a respeito. Você pode verificar se ele é validado através da lista de testes favoráveis no site da SATEPSI, sistema responsável por avaliar a validade dos Testes Psicológicos no Brasil

Considerando os instrumentos aprovados e o seu uso dentro dos requisitos de validade, o que se propõe aqui é discutir o que leva as pessoas ao desejo por respostas exatas e seguras com relação aos seus futuros profissionais e de onde vem a crença de que possa haver um teste ou serviço capaz de atender a este desejo. Será que existe? Como estas pessoas poderiam ser melhor ajudadas?

Os primeiros testes surgiram entre 1910/20, através do trabalho desenvolvido por Frank Parsons. Nesse período, plena 2ª Revolução Industrial, a busca por maior produtividade dentro das fábricas era traduzida pelo lema o homem certo para o lugar certo. Acreditava-se que ajustando as características pessoais do trabalhador às da ocupação, se obteria sucesso e eficiência. Dessa forma, os testes se propunham a atender tal demanda, avaliando as competências e habilidades de cada trabalhador.

Imperava uma visão mecanicista sobre o mundo e sobre o homem. O ser humano era visto como uma máquina cuja identidade era algo estático e imutável. Por isso, o resultado desta avaliação (considerada a Orientação Profissional da época) era definitivo, para toda a vida, sem possibilidade de mudanças. A escolha era restrita e ficava a cargo do orientador definir a vocação de cada um através dos resultados dos testes aplicados.

Apesar de mais de cem anos terem se passado e da relação do homem com o trabalho ter se modificado um bocado, o que tem sido constatado é que muita gente ainda procura orientação profissional neste modelo e muitos profissionais continuam a fazer uso desta abordagem. Porém, será que este tipo de orientação consegue atender as necessidades da sociedade atual?

Na primeira metade do século XX o mundo do trabalho era estruturado pela normatividade, previsibilidade e estabilidade do modelo taylorista-fordista. A trajetória profissional de cada funcionário era uma sequência de cargos e funções predefinidas pela própria instituição. Era comum iniciar e encerrar a carreira em um único emprego.

Hoje, essa estrutura é heterogênea, transitória e instável. Mais do que nunca, a organização do trabalho é caracterizada pela precarização e flexibilização. Vive-se hoje constantes ameaças aos direitos trabalhistas, cortes de benefícios, contratos de trabalho frágeis e com poucas garantias. Na sociedade atual passou a ser comum, ao longo da vida, transitar por diversos empregos e por várias profissões também. As carreiras se tornaram imprevisíveis, fonte de angústia e insegurança para os trabalhadores.

Também as profissões assumiram uma característica híbrida, multifacetada e globalizada, não sendo possível definir com tanta precisão o que faz cada uma delas. Englobam competências de diversas áreas do conhecimento (muito mais amplas do que aquelas que se ensinam em qualquer faculdade), suas atividades e responsabilidades variam de acordo com a região, com o local de emprego e dificilmente permanecem as mesmas por muito tempo. Sendo assim, será que simplesmente medir as competências e habilidades através de testes, realmente dá condições para que as pessoas façam suas escolhas e realizem seu projeto profissional?

Tudo indica que não. Porém, não se pode deixar de olhar e tentar compreender o fato de que tanta gente busca por este modelo de Orientação Profissional. Uma das hipóteses é que a falta de recursos (internos e externos) para lidar com a angústia proveniente da falta de seguranças no mundo do trabalho, talvez seja um dos grandes, se não for o maior desafio ao se fazer uma escolha profissional. E diante desta dificuldade, optar por um modelo que diga qual é a profissão ou o caminho certo é absolutamente encantador (e ilusório).

Escolher é ter que enfrentar a incerteza, sim senhor(a). A incerteza quanto às consequências da própria escolha. Você pode escolher e ficar satisfeito, ter sucesso, emprego, melhor remuneração, maior reconhecimento, mas pode também não ter tudo isso, ou nada disso. Escolher não dá garantias e testes também não.

Escolher é ter que, primeiro, se questionar: O que é que eu quero? (você sabe?). E essa resposta nenhum teste dá.

Escolher é ter que assumir e bancar os próprios desejos, mesmo quando eles não forem os mesmos desejos dos seus pais, avós, filhos, esposa ou amigos. Para isso, é preciso coragem, mas testes também não a dão.

Escolher é ganhar e é perder também. Escolher envolve fazer sacrifícios, grandes ou pequenos, não importa. Sacrifica-se o curso de Economia para fazer o de Direito, o emprego estável para iniciar o negócio próprio, horas de sono para passar no vestibular. Testes também predizem isso para você.

Escolher é eleger o que se pode e nem sempre o que se quer. Quantos sonhos de ser médico não viram realidade devido à falta de recursos para pagar uma faculdade? Quantas vezes a carta de demissão é adiada por não ter um emprego substituto? Olhar para si é necessário, mas olhar ao redor é fundamental. Testes não fazem isso por você.

Como é possível ver, pensar sobre você, sobre trabalho e fazer escolhas são tarefas complexas, muito importantes e para a vida toda. Sua identidade é transitória, em permanente transformação. As profissões e o mundo do trabalho também. Sendo assim, dificilmente haverá uma única resposta, que permaneça para sempre ou que traga tudo que você deseja com o trabalho. É importante saber o que se quer e nisso os testes e outras inúmeras ferramentas podem ajudar, porém, apenas, como um recurso auxiliar (nunca decisório) dentro de um processo que necessita ser muito mais amplo. Descobrir o que se deseja profissionalmente ou o que se faz bem é insuficiente no mundo atual. Se estas descobertas não estiverem integradas a um projeto profissional coerente, em que desejos e possibilidades sociais concretas se articulem, tudo não passará de um sonho.

Camila M Fabre é psicóloga formada pela UNESP, com Aperfeiçoamento em Orientação Profissional e de Carreira pela USP e especialização em Psicologia Transpessoal pela ALUBRAT. Iniciou sua carreira na área de Recursos Humanos. Hoje atua como psicoterapeuta e orientadora profissional e de carreira sendo também sócia-fundadora da TRID — Trabalho e Identidade. Desenvolve um trabalho sensível, aliando técnicas corporais, artísticas e lúdicas, sempre considerando o desenvolvimento integral do ser humano.

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