Aula de história no Lada

Chovia em Havana. Era de manhã e estávamos na sala do apartamento onde alugamos um quarto para passar as duas primeiras noites em Cuba. Esperávamos uma carona para ir para a estação de ônibus, rumo ao próximo destino na ilha de Fidel. Era uma das muitas salas do conjunto habitacional da década de 70 — imagino eu. Um paralelepípedo gigante, coberto por janelas nas duas faces de maior área, cada qual com sua peculiaridade. Umas com vidro, outras com vidro quebrado, outras com uma lona azul no lugar do vidro, outras sem lona, nem vidro, nem nada. Um mosaico de janelas de casas de família amontoadas, muito simétricas, mas longe de ser idênticas.

Pela janela avistamos o Lada branco, modelo que acredito ser o 2105 (pelo que pesquisei no Google), chegando. Apesar de uma infinidade de Ladas brancos circularem pela cidade, cada um tinha sua particularidade e aquele só podia ser o da nossa carona. Já levantamos e fomos pegando as coisas pra ir ao encontro do Manoel, que ia quebrar o grande galho de nos levar até a rodoviária. Por estar localizada num ponto mais afastado da cidade, um táxi ficaria uma pequena fortuna. E ir andando, na chuva, com mochilas de 10 kg na costas não parecia uma alternativa interessante, mesmo para os mais perrengueiros. Portanto, não pudemos recusar a oferta que ele fez de nos levar de carro.

Manoel é um senhor de seus 50 anos. Os cabelos, já meio escaços no alto da cabeça e grisalhos onde ainda existem em certa abundancia denunciam a idade. Tem a pele clara, os olhos azuis e os lábios finos, mas de sorriso fácil. É casado e tem uma filha. Não entendemos muito bem alguns detalhes, mas ao que tudo indica a família dele tem um apartamento numa área nobre de Havana, um bairro chamado Vedado, onde compartilham a moradia com turistas que alugam quartos na casa.

Eles também possuem o apartamento que ficamos hospedados [junto com um casal de alemães que conhecermos no aeroporto], no mesmo bairro, e que é usado exclusivamente para aluguel de quartos para turistas. Como eles conseguiram ter dois apartamentos sob o regime de Fidel é uma incógnita para nós. Até aventei algumas possibilidades, mas não tivemos tempo/oportunidade para entrar nesse assunto. Assim como você, provavelmente nós também vamos morrer sem desvendar esse mistério.

Abrimos a porta para nosso amigo cubano, pagamos o valor referente à última noite que passamos lá e entregamos as chaves do apartamento pra ele. Aproveitamos o momento para o presentear com uma camisa da seleção brasileira, afinal de contas, ele havia sido muito atencioso e prestativo durante a nossa estadia. Nos deu caronas e conseguiu hospedagem pra gente no nosso próximo destino, Santiago de Cuba. A camisa não é oficial e foi comprada empolgação da Copa de 2014, antes do 7x1. De qualquer forma, quando ele pegou o presente, seu rosto enrubesceu. Entendemos como um sinal de que ele havia gostado do regalo.

Saímos do apartamento. Trancamos a porta e fomos rumo ao Lada, embaixo de uma chuva fina e chata. A força do hábito fez com que de cara eu tentasse abrir a porta de trás do carro. Manoel me interrompeu sorrindo e disse que a porta só abre por dentro. Então ele abriu a porta do motorista e puxou uma alavanca próxima ao volante para abrir o porta malas. Voltou para o porta malas, tateou por baixo da tampa procurando um botão, alavanca ou coisa parecida para concluir o macete de destravar e abrir.

O porta malas apertadinho já tinha várias ferramentas, lona e quinquilharias empoeiradas. Jogamos as nossas mochilas ali dentro e aguardamos as orientações do Manoel para que pudéssemos entrar pelas portas do lado direito do carro, já que as mesmas só podiam ser abertas por dentro, como ele alertou. Para cada porta um macete diferente. Puxar um arame, encontrar uma travinha escondida na lataria, girar a maçaneta levemente sentido horário… Enfim, eu não consegui decorar a sequencia e todos os passos.

Quando todos já estávamos dentro do carro, Manoel abriu o porta luvas e tirou de lá uma alavanca de metal que ele encaixou entre o banco do motorista e o banco do carona. Era a marcha do carro. Não sei se era uma medida de precaução pra que ninguém roubasse o veículo — o que pra mim não fez muito sentido, porque só o processo de conseguir abrir as portas já era desafio suficiente.

A essa altura, já era de se esperar que ele também não iria ligar o carro do jeito convencional, enfiando a chave na ignição. Até agora eu não sei como ele fez, mas o carro ligou. Naquele momento eu já tinha entendido que os cubanos são verdadeiros artistas de fazer as coisas continuarem funcionando e tirei dos brasileiros o título de “reis da gambiarra”. Ainda temos que comer muito arroz moro (prato cubano feito com arroz e feijão) para chegar aos pés deles. Acredite.

No caminho, começamos a falar sobre política e Manoel nos contou um pouco sobre a Revolução — com R maiúsculo, por favor. Hoje os cubanos falam abertamente sobre o processo e o que pensam sobre o regime sem ter medo de retaliações. De qualquer forma, durante toda a viagem não ouvimos nenhuma crítica veemente e algumas pessoas, principalmente as mais jovens, não se mostraram muito dispostas a discutir o assunto.

Segundo Manoel, tudo aconteceu porque Fulgêncio Batista instaurou um regine ditatorial em Cuba. Batista queria sempre ficar un año más, un año más, un año más… E quando os cubanos se deram conta, a ditadura já estava lá. Ao fazer o relato, nosso amigo fez questão de ressaltar que os EUA, interessados no processo, patrocinaram Batista. Até aquele momento, a história que ele contava nos soava familiar. Nada muito diferente do que aconteceu em outros países da América Latina.

O diferencial da história cubana é que cada frase que Manoel falava correspondia a um solavanco no carro, já castigado pelas décadas de uso, nos dando uma evidência do que estava por vir. Passamos por algumas ruas um pouco esburacadas que não intimidavam nosso motorista. Ele passava por buracos sem reduzir a velocidade, o que nos dava a impressão de que o carro iria desmontar a qualquer momento.

Entre um tranco e outro, Manoel continuou: “Fidel estava insatisfeito com o contexto político do país e já estava engajado na causa de derrubar Fulgêncio Batista. Para ir adiante precisava de um empurrãozinho, que foi dado por meio de um patrocínio da URSS. Sabiam disso?”, nos perguntou em tom desafiador. Daí para a instauração do regime comunista foi um pulo.

Continuava chovendo e o limpador de parabrisa não funcionava. O que obrigava nosso motorista a interromper a história de tempos em tempos para passar as costas da mão direita no vidro da frente, numa tentativa de desembaçá-lo e enxergar melhor o caminho.

Após repetir esse processo mais uma vez, Manoel fez questão de ressaltar que, ao contrário do que muitos acham, Fidel não era de família humilde, de trabalhadores. Ele era de origem rica, da elite cubana. E completou dizendo que “Fidel sempre foi muito carismático. Até hoje ainda tem algum carisma. Diferente do irmão, Raul. A juventude gostava muito do Fidel e ele ganhou muitos seguidores por isso.”

Passando pelas ruas de Havana e observando os casarões antigos, das décadas de 50/60, o cubano relembrou que há uns 20 anos, após o fim da União Soviética, o país passou por momentos muito difíceis. Segundo ele, houve uma crise no país e faltava de tudo (produtos que até então vinham da URSS). Em seguida ele apontou para umas casas mais novas, com piscina e disse “mas o país está mudando muito. Vejam essas casas e prédios novos. Até pouco tempo não tinha isso aqui”.

Eu nem piscava, pra não perder nenhum detalhe em meio ao nheco nheco do carro velho e o barulho da chuva. Nosso professor história também parecia estar gostando e emendava uma frase na outra, sem nos dar tempo para fazer perguntas. Quando nos demos conta, ele interrompeu a história, reduziu a velocidade, apontou para a esquerda e disse “Ali é a estação”.

Lancei um olhar desapontado para o lugar que ele indicou enquanto esperava o seu socorro para fazer o macete e abrir a porta do carro. Não queria ir embora. Queria ouvir mais. Mas como chovia, nem tive muito tempo pra pensar. Fui impelida a sair do carro apressada, então pegamos as mochilas no porta malas, nos despedimos do nosso amigo e atravessamos a rua correndo, embaixo da chuva que não deu nenhuma trégua durante todo o caminho. O restante da história a gente viu viva, pelas ruas e cidades do país.

Com contribuição de Bianco Cunha, a quem me refiro quando falo na terceira pessoa.

Relato de viagem a Cuba, de 09 a 29 de janeiro de 2016.