Balada

Liza decidiu que era sábado demais pra ficar em casa a noite. Pelo menos foi a desculpa que ela deu a si mesma para não dizer que estava naquele período crítico do mês que a vontade de dar a fazia subir pelas paredes.

Escolheu a roupa, parou na frente da janela, seu apartamento de universitária só tinha espelho no banheiro e o tamanho era apenas o suficiente pra passar fio dental, por isso usava a janela como espelho pro corpo inteiro, se achou sexy. Pensou por mais um minuto e essa saia na altura do joelho e essa camisa social fariam no máximo uma secretária sexy. Colocou um salto alto, uma calça jeans, desabotoou o último botão da camisa e amarrou deixando a barriga a mostra. Parecia que estava indo pra um rodeio. Estava fudida. Pegou o celular e ligou pra Ju.

A amizade entre Jucélia e Elizangela são dessas coisas que ninguém jamais vai explicar. Liza era a nerd que mal saía de casa, que sequer tinha roupas de balada e Ju, bem, Ju ficou conhecida no segundo ano da faculdade pela alcunha de “mãos leves”, “apenas” porque ela punhetou habilmente Carlos numa aula de filosofia e jamais seria descoberta não fosse o fato de que o professor sequer sabia que Ju era sua aluna.

O fato é que Ju segurou os cabelos de Liza enquanto ela vomitava na calourada do direito após uma caipirinha e uma tequila. Liza nunca tinha bebido. Foi Ju também que tirou a gritos e pontapés (mais gritos que pontapés) Luiz do apartamento de Liza quando ele se tornou abusivo. Por isso e por outros motivos, Liza prometeu a si mesma que seguraria os cabelos de Ju quantas vezes fossem necessárias pro resto da vida.

Jucélia gostava de Liza porque Liza era nerd e era a única da faculdade que era capaz de entender suas piadas com referências a literatura Russa e, em especial, àquele livro que todo aluno de direito jura que leu, mas que a maioria não passou da décima página. Liza foi a única que ficou quando Ju descobriu que estava grávida no segundo ano da faculdade de direito.

Às 16h, Ju entrou no apartamento esbaforida com uma mala cheia de roupas numa mão e um espelho maior que ela mesma na outra. Era cedo, ainda dava tempo, pelo menos ela achou até encontrar a amiga de calcinha e sutiã sentada no sofá e comendo os dois últimos chocolates restantes.

Foram horas de preparo entre depilar as pernas, fazer as unhas, pensar no penteado e escolher a roupa. Quando finalmente, as 20:30 Liza estava em frente ao espelho num vestido na altura das coxas que era tão justo que podia ver em sua barriga a forma do último bombom que havia comido, Ju deu um tapa na sua bunda e, aos risos, gritou: “Hoje você vai dar, sua periguete!”.

Fábio era o mais bonito da medicina, o que definitivamente não era pouco. Na prática, significava que ele podia comer metade do campus sem muito esforço e, se fosse simpático, a outra metade não seria resistente. Aproveitara bastante seus predicados nos dois primeiros semestres. O que o fez perder praticamente um semestre da faculdade e o colocou nos prumos no terceiro e no quarto. Desta forma, tinham seis meses que só estudava. Precisava sair. As escapadas depois das provas com a professora de anatomia não estavam mais satisfazendo seus desejos. Pegou do guarda-roupa a camisa e a calça menos amassadas e saiu.

No buteco mais badalado entre os universitários, Liza conseguiu uma rara mesa. Já não estava mais com o vestido na altura das coxas. Quando foi ao banheiro antes de sair se sentiu mal na roupa que vestia e ouviu com alegria que Ju tinha desmaiado e agora roncava tranquilamente no sofá. Foi a deixa pra escolher outra roupa na mala de Ju. Usava um shorts que era mais curto que o vestido, mas pelo menos lhe daria liberdade pra sentar sem mostrar a calcinha mínima que usava por baixo do vestido. Calcinha que também trocou quando percebeu que com o shorts não precisava se preocupar se ela “marcava”.

Fábio chegou ao Um Real cumprimentando todo mundo. Onde ele ia todos o conheciam, apesar de Fábio não conhecer praticamente ninguém. Tinha desenvolvido ao longo dos anos uma habilidade ímpar pra cumprimentar calorosamente pessoas desconhecidas lhes passando uma estranha segurança de que eram próximos. Ao passar pela mesa de Liza olhou pra mais essa desconhecida e sorriu com o canto da boca.

Liza não sorriu de volta. Primeiro porque jamais saberia como reagir adequadamente àquele sorriso. Segundo porque nem olhava para Fábio. Já estava ali há 40 minutos e tinha se odiado duas vezes e meia (estava na metade da terceira) por ter saído esta noite.

No apartamento de Liza, Luiz tinha acabado de abrir a porta. Nunca esteve feliz com o término e, por isso, atormentava Liza com visitas inesperadas e com sua habilidade para destravar portas não importa quantas tetra-chaves existissem. Pra ser sincero essas 4 na porta de Liza tinham lhe tomado 15 minutos. Quando entrou na sala se deparou com uma barulhenta Ju que roncava alto e olhava diretamente pra ele com os olhos meio abertos. Desde que engravidara Ju tinha desenvolvido o ronco mais absurdo do planeta e o estranho hábito de dormir com os olhos meio abertos. A soma destas habilidades lhe concedeu um raro quarto exclusivo no dormitório. A cena apavorou Luiz que já atormentado pelos gritos e pontapés de Ju agora tremia diante da bizarra encarada que sofria. Saiu silenciosamente enquanto pensava que se Jucélia era assustadora assim dormindo, era melhor não acordá-la.

No buteco do Um Real Liza compartilhava a mesa com mais três garotas. Não conhecia nenhuma. Elas pediram pra se sentar ao notarem que Liza estava desacompanhada e pra Liza essa foi a pior escolha possível já que agora os olhares que sua mesa atraíam não eram pra ela.

Estava se levantando pra ir embora quando alguém derrubou um copo de cerveja em cima dela. Revoltada, se virou pra enquadrar um calouro da engenharia num nível alcoólico que lembrava ela mesma na sua primeira calourada. Se compadeceu e se virou pra ir embora, quando Fábio a abordou.

No começo não entendeu nada, odiava aquela barulheira a sua volta e Fábio tentava ser sedutor utilizando um tom de voz inaudível. Fez gestos mostrando que não estava entendendo e que iria embora. Uma vez fora do bar e seguida por Fábio, conseguiu ouvir a voz dele pela primeira vez. Foi quando notou que era realmente bonito com aqueles olhos claros e o sorriso meio torto. Só percebeu que ele tinha perguntado alguma coisa quando viu que ele esperava uma resposta e ela tinha passado os últimos segundos pensando que queria morder a boca dele.

Fez de conta que nada tinha acontecido e soltou: “Desculpa, eu não estava conseguindo ouvir nada lá dentro.” Fábio sorriu. Odiava baladas. Ia porque sabia que sempre saía com alguém e porque os amigos estavam sempre lá. Estava aliviado de sair. Liza ficou besta com o sorriso, segurou o rosto dele e o beijou. Levaram alguns segundos para se recuperar desconcertados pela reação inesperada de Liza.

Envergonhada e excitada, Liza pensava que Fábio tinha gosto de morango. Fábio pensava que Liza beijava mal mas que era até bem gostosa.

Em dez minutos estavam num beco próximo ao buteco. Fábio começou a achar que finalmente Liza tinha encaixado o beijo, estava bem melhor. E Liza tinha começado a sentir o gosto de vodca na boca de Fábio. Sentira náuseas, mas continuou, hoje ela ia dar pra alguém.

Fábio pegou Liza no colo e empurrou contra a parede. Segurava as coxas dela com vontade. Tinha gostado delas desde que a vira pela primeira vez. O pau já roçava a virilha de Liza que estava em transe olhando pra cima enquanto ele beijava seu pescoço.

Fábio já tinha colocado Liza de volta ao chão, e agora a virava de costas pra ele com uma das mãos enquanto a outra procurava soltar o botão do shorts. Encontrou certa resistência pra descer o shorts de Liza, mas a calcinha também desceu junto e pode tocá-la ali de costas pra ele enquanto apalpava seu corpo todo com a outra mão. Liza segurava a mão de Fábio firmemente em sua buceta enquanto jogava o corpo pra trás e deitava a cabeça no ombro de Fábio.

Liza gozou na mão de Fábio, que a virou de frente e se ajoelhou pra chupá-la. Ficou em pé na sua frente. Colocou o pau pra fora, afastou suas pernas e penetrou. Fuderam no escuro até que ele gozasse.

Fábio chegou no apartamento e se jogou na cama. Pegou o celular e pensou em mandar um whatsapp pra Liza. Será que o número era dela mesmo? Sorriu ao ver a fotinho dela de óculos de aro grosso. Desistiu de mandar a mensagem. Seria meloso demais não esperar amanhecer.

Liza tirou os sapatos antes de entrar pela porta. Podia ouvir o ronco de Ju do lado de fora, mas ainda assim preferia evitar a possibilidade de acordá-la e ter que contar como fora a noite. Entrou no chuveiro e pensou em Fábio. Sua boca tinha gosto de morango, com vodca, mas ainda morango. Então se tocou antes de ir dormir e sonhar com morangos voadores e trepadas no escuro.