A incômoda relação entre amor, sofrimento e morte

No meio de uma conversa matinal entre Anne (Emmanuelle Riva) e Georges (Jean-Louis Trintignant), um casal de idosos que vive na França, ela sofre uma paralisia e não responde mais as perguntas de seu marido. Georges tenta estimular alguma reação de sua esposa com um pano úmido, mas sem sucesso. Ele se arruma para buscar ajuda, porém Anne volta a agir como se nada tivesse acontecido e sem se lembrar de coisa alguma. A partir dessa paralisia de Anne, a produção do diretor austríaco Michael Haneke, Amour (2012), começa a narrar a trajetória de pessoas tendo que lidar com o envelhecimento, definhamento e a perda das habilidades mais básicas do ser humano e com suas consequências.

Diretor de A Professora de Piano (La pianiste, 2001) e de O Sétimo Continente (Der Siebente Kontinent, 1988), Haneke se consagrou no cinema por intrigar o espectador, que não deve assistir às suas produções esperando apenas se entreter, pois sua marca é incomodar o público. Não poderia ser para menos, Haneke estudou psicologia, filosofia e teatro na Universidade de Viena. Mas ele queria era ser pianista, o que pode ser confirmado com a presença constante desse músico em seus filmes, inclusive em Amour (2012).

Não é à toa que a música é um elemento tratado de forma especial na produção aqui resenhada. Para isso, Haneke usa o silêncio constante, denso e fúnebre como contraponto à música, que se torna um raro indicativo de alegria. Exemplo disso acontece no concerto de um ex-aluno de Anne, Alexandre (uma das poucas cenas gravadas fora do apartamento do casal), quando ele visita Anne ou quando ela e Georges cantam “Sur le pont d’Avignon, on y danse, on y danse”, cantiga de ninar comum na França.

Foto: Reprodução

Em Amour (2012), Haneke constrói personagens humanos, sem se preocupar em fazer um personagem com o qual o público vá se afeiçoar e defender. Ao contrário, Anne não agrada, sua sinceridade soa como frieza e antipatia. Por ela ser assim, Georges acaba cativando o público por seu cuidado e dedicação. Entretanto é com esse personagem que Haneke traz ponto central do filme e surpreende o público, mesmo depois de ter deixado claro qual seria o desfecho da história na primeira cena.

Desde o momento que o casal volta do concerto de Alexandre, a câmera de Haneke não sai mais do apartamento onde os idosos vivem em Paris. Decorado com art déco, o ambiente permite entender que Anne e Georges viveram ali por toda sua vida conjugal. Entretanto o apartamento parece acompanhar o definhamento de Anne, paredes sujas, portas manchadas… tão abandonado e vazio a ponto de um pombo entrar com frequência em um dos cômodos.

Não só o apartamento definha junto com Anne, o tempo não se apresenta da mesma forma. Conforme o estado de saúde da personagem piora, o tempo se mostra descompassado. O filme já não mostra quanto tempo leva entre um acontecimento e outro. E, graças esse tempo desordenado que o destino de Georges é incerto, permitindo que o público determine, segundo sua própria interpretação, o que de fato aconteceu com o personagem.

Foto: Reprodução

Em poucos meses de lançamento, Amour (2012) venceu na categoria de Filme Estrangeiro do Globo de Ouro e ganhou a Palma de Ouro em Cannes. Além disso, teve cinco indicações ao Oscar, nas categorias de Melhor Filme Estrangeiro, Roteiro, Direção, Melhor Filme e Melhor Atriz para Emmanuelle Riva, que se tornou a atriz mais velha indicada na premiação aos 84 anos.

Com Amour (2012), Haneke lançou luz sobre a relação entre o amor, o sofrimento e a morte. Impossível permanecer indiferente diante da atitude de Georges, justo ele que se mostrou conformado com a situação o filme inteiro. Não é a toa que o título da obra seja “Amor”. É ou não amor livrar a pessoa amada do sofrimento? Ou livrá-la do sofrimento é uma atitude meramente egoísta que visa apenas livrar a si mesmo da angústia de ver a pessoa amada sofrendo?

Não há resposta certa ou errada para essas perguntas, nem a obra em questão pretende respondê-las. Mas é certo que ninguém deseja passar por uma situação que tenha que decidir sobre a vida ou morte de alguém que ama e é por isso que Haneke incomoda tanto.

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