Loving Cup

texto de Steve Tignor

A primeira taça da Copa Davis da Suíça não foi sobre legado. Foi sobre amizade. (AP Photos)

A retumbante e enfática vitória de Roger Federer sobre Richard Gasquet na França no último domingo não poderia ter sido mais adequada. Com ela, Federer ganhou a primeira Copa Davis da história da Suíça, e ganhou o único grande título que faltava em sua carreira de 16 anos. No caminho, ele pontuou uma temporada de ressureição com um pouco do seu melhor tênis nos últimos 12 meses, e obteve sucesso em fazer a única coisa em que falhou durante este tempo: Ganhar os grandes torneios. Para Federer e seus companheiros, a última partida de 2014 teve vários níveis de encerramento.

“Companheiros”, Federer logo deixou claro, foi a palavra-chave do último parágrafo. Quando ele se limpou do saibro após o último ponto e enxugou as lágrimas, ele não disse nada sobre o que esta vitória significava pessoalmente para ele.

“Estou feliz de ter sido capaz de ficar calmo e jogar uma boa partida”, ele disse ao entrevistador de TV na quadra. “Stan (Wawrinka) se esforçou tanto ao longo dos anos e teve uma semana fantástica que me deu esta oportunidade hoje. Estou muito consciente disto. Esta é para os rapazes.”

Federer sabe que enquanto artigos e colunas vão destrinchar o que esta vitória significa para seu legado, esta equipe suíça não era exatamente sua. De 2004 a 2014, Federer jogou apenas uma etapa principal do Grupo Mundial com eles. Ele apareceu o tempo suficiente para manter a Suíça dentro do grupo de Elite da Davis, mas foram os outros, liderados por Wawrinka, que fizeram mais. Federer tem um recorde muito melhor que Wawrinka na competição. Vindo para esta etapa, Federer estava 49–17, enquanto Wawrinka estava apenas 25–25. Mas foi Wawrinka que estava lá para jogar, e perder, uma partida de duplas de 7 horas contra os Tchecos ano passado em Geneva. Ele estava lá para jogar, e ganhar, uma melhor de 5 sets sobre Lleyton Hewitt na Australia em 2011. Foi ele, em Astana em 2010, a sofrer um humilhante 5–0 para o Cazaquistão.

Ele também ficava, às vezes, irritado de não ter Federer ao seu lado.

“Roger tem dito por anos que ele quer jogar a Copa Davis e que é importante,” disse Wawrinka quando Federer desistiu de jogar pela Suíça em 2013, “mas aparentemente não é o caso… a Copa Davis não é uma prioridade para ele no momento.”

Foi Wawrinka, em resumo, que estava lá para jogar pela Suíça quando as chances eram contra eles. Federer voltou ao time em 2014, quando as chances subitamente estavam em favor dos suíços. Em fevereiro, ele fez uma surpreedente, virtualmente não anunciada aparição para jogar a sua segunda rodada de abertura em 9 anos da Copa, contra os sérvios. Quando ele voou para Belgrado era tarde demais para Novak Djokovic, que tinha pulado esta etapa, fazer qualquer coisa a respeito. Os suíços deixaram os sérvios comendo poeira, e se aproveitaram de uma chave favorável que os manteve em casa contra Casaquistão e Itália nas quartas e semifinais.

Federer liderou o caminho nestas etapas, fazendo 5–0 em simples e empurrando um errático Wawrinka. Esta semana em Lille no entanto, um precisava do outro, e a vitória foi um esforço de time do início ao fim. Os dois jogadores, que se confrontaram no vestiário na semana passada em Londres, complementaram perfeitamente o estilo um do outro em Lille.

Foi Federer quem finalizou a semana, como um puro-sangue arrancando para a linha de chegada — seu golpe final contra Gasquet produziu um memorável drop shot vencedor. Mas foi Wawrinka quem, como um boxeador, começou a semana com um rápido e estonteante punch no nariz dos franceses. Ele deu o tom da etapa na partida de abertura, quando correu para a linha de base e deslizou por entre um dos pegadores para pegar as bolinhas. Depois desta fanfarronice ele realmente deu o tom do partida jogando seu melhor tênis em seis meses e martelando — não há outra palavra — Jo-Wilfried Tsonga em 4 sets. Stan, que acertou 61 winners contra 29 erros não forçados, veio a Lille com algo para provar.

“Eu achei que era o melhor jogador em quadra,” disse um confiante Wawrinka após bater Tsonga. “Eu não sou o No. 4 do mundo à toa.”

Stan estava tão confiante quanto na partida de duplas no sábado; sua atitude e agressividade ajudaram a levantar um Federer cambaleante, que havia perdido para Gael Monfils em sua primeira partida de simples.

“Acho que nós dois jogamos um bom tênis,” disse Wawrinka após sua vitória em sets diretos sobre Gasquet e Julien Benneteau. “Então foi importante ser agressivo na quadra e mostrar que nós iríamos tomar a frente e que iríamos ganhar as duplas.”

“Acho que Stan foi inacreditável hoje,” disse Federer, que jogou com uma renovada liberdade e motivação nas duplas. “Eu tentei acompanhar. Severin nos manteve motivados e no caminho. As últimas 24 horas foram meio frias, eu devo dizer.”

“Severin,” no caso de você não ter ouvido falar, é o eterno-abaixo-do-radar Severin Luthi. Ele tem sido o capitão suíço da Davis desde 2005, e tem sido tão pouco notado quanto como o menos glamuroso co-técnico de Federer desde 2007. Como Wawrinka, Luthi trilhou uma longa estrada até aqui e sua alegria na lateral da quadra em Lille foi um dos destaques do domingo. Luthi também mostrou seu valor nesta etapa recrutando David Macpherson, consultor dos irmãos Bryan, para trabalhar em padrões e jogadas com Federer e Wawrinka, que perderam a sua última partida na Davis em abril. Não vamos esquecer também que coube a ele o inescapável trabalho de apaziguar os dois após as rusgas na Arena O2.

Federer, Luthi e Wawrinka celebraram à maneira que todos os times da Copa Davis fazem, tomando umas e outras antes da coletiva de imprensa após a vitória. Federer estava obviamente feliz que a emboscada à Sérvia em fevereiro os levou a vitória na França em novembro. Não ter ajudado seu país neste momento teria afetado seu currículo, ou resumé? Não ter participado de um time vencedor não tiraria dele nenhum lugar na lista dos melhores de todos os tempos; Mas seria um fato que, entre aqueles que tem 8 títulos de Slam ou mais, apenas Federer e Jimmy Connors teriam falhado em por seu nome na taça.

O nome de Federer está lá agora e ainda assim ele mantém um ar de ambivalência quando o assunto é esta competição. Antes da final, ele disse ao USA Today que “a Copa Davis não é mais a mesma.” Quando era adolescente ele se rebelou contra a disciplina do capitão suíço Jakob Hlasek. E quando ele subiu ao posto de No. 1 em 2004 fez de suas metas inviduais a prioridade. Mesmo quando teve a taça nas mãos, Federer minimizou seu significado para ele.

“Isto e para eles, para o time,” ele disse. “Eu já ganhei o suficiente em minha carreira e não preciso completar… tudo, riscando uma lista.”

Alguns ouvirão estas palavras como generosidade, outras como paternalismo. Mas elas parecem apontar, ao menos em parte, para Wawrinka e sua às vezes conturbada amizade. Seu relacionacionamento esteve no coração desta etapa, e desta temporada do time suíço. Em 2014, Federer mudou suas prioridades e ajudou seu amigo a vencer um título a que ele vinha se dedicando há um longo tempo. No final das contas, Wawrinka liderou o caminho desde a primeira bola, e ajudou seu amigo a entcontrar seu melhor tênis na acachapante vitória contra Gasquet no domingo. A Copa Davis é única no tênis masculino porque é um jogo de equipe. Mas é também única entre os esportes de equipe porque pode ser ganha por apenas duas pessoas. Pode ser ganha por dois homens jogando pelo seu país tanto quanto um pelo outro.

Quando tudo estava terminado, e os suíços tinham sua taça, e os rapazees haviam relaxado na coletiva de imprensa, O líder da semana mostrou sua apreciação pela ajuda de seu amigo

“Eu ainda te amo, Roger,” disse Stan.

Originalmente publicado aqui

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