O discurso de Russell Schweickart, em 1974

Esse discurso foi dado por Russell Schweickart. Ele chegou pertinho da Lua, nas missões da década de 70. Decidi trazer e adaptar a tradução desse discurso, visto que é bem difícil achar uma cópia em português. Parte da tradução foi diretamente extraída dos arquivos de legendas em português brasileiro de The Witness, o jogo.

Lá em cima, você dá a volta a cada hora e meia, uma vez atrás da outra. Geralmente, você acorda pela manhã. E seguindo a trajetória da sua órbita, você acorda sobre o Oriente Médio, o Norte da África. Ao tomar café da manhã, você olha pela janela conforme passa e lá está a região do Mediterrâneo, e a Grécia, Roma, o Norte da África, e o Sinai, a região inteira. E você percebe com um vislumbre que o que está vendo foi toda a história da humanidade por anos — o berço da civilização…

Então, você atravessa o Norte da África pelo Oceano Índico e pode ver o grande subcontinente indiano apontado em sua direção ao passar por ele. E o Ceilão ao lado, a Birmânia, o Sudeste Asiático, ao longo das Filipinas, e, em cima, aquele monstruoso Oceano Pacífico, um vasto corpo d’água — você nunca tinha percebido quão grande ele é.

E você finalmente chega à costa da Califórnia e procura aquelas coisas familiares: Los Angels, Phoenix e, então, El Paso, e lá está Houston, lá está seu lar, e você olha e tem certeza de que ali está o “Astrodome”. E você se identifica com aquilo, sabe — é uma ligação.

E vamos descendo até Nova Orleans e, depois, ao olhar para o sul, está toda a península da Flórida. E todas as centenas de horas que você passa voando por aquela rota, lá embaixo, na atmosfera, tudo aquilo é aconchegante novamente. E você atravessa o Oceano Atlântico e volta para a África.

E faz isso de novo e de novo.

E aquela identidade que você sente com Houston, você sente com Los Angeles, Phoenix, Nova Orleans e tudo. E a próxima coisa que você reconhece é que está se identificando com o Norte da África. Você espera por isso, você conta com isso. E lá está. Todo o processo começa a mudar aquilo com o que você identificava-se. Quando você a rodeia em uma hora e meia, começa a reconhecer que a sua identidade é com a coisa toda. E isso causa uma mudança.

Você olha lá para baixo e não consegue imaginar quantas fronteiras e limites você atravessou de novo e de novo. E você nem pode vê-los. E no seu cenário ao despertar — o Oriente Médio — você sabe que há centenas de pessoas matando umas às outras por uma linha imaginária que você nem pode ver. De onde você vê, tudo é uma coisa só. E é tão bonito. E você deseja poder segurar a mão de uma pessoa de cada lado do conflito e dizer:

Veja isso sob esta perspectiva.
Veja aquilo.
O que é importante?

Então, um pouco depois, seu amigo, outro astronauta, a próxima pessoa, vai até a Lua. E agora ele olha para trás e não vê a Terra como algo grande, onde pode ver todos os belos detalhes, mas vê a Terra como algo pequeno lá fora. Agora, o contraste entre aquele brilhante enfeite de Natal, azul e branco, e aquele céu abismal, aquele universo infinito, é mesmo perceptível. O tamanho dela, a significância dela — tudo vira uma coisa só, se transforma em algo tão pequeno, tão frágil, um pontinho tão precioso naquele universo, que é possível escondê-lo com o seu polegar, e você percebe que aquele pontinho, aquela coisinha azul e branca, é tudo o que significa qualquer coisa para você. Toda a história, música, poesia, arte, guerra, morte, nascimento, amor, lágrimas, felicidade, jogos, tudo isso está naquele pontinho ali que você pode cobrir com o seu polegar.

E você percebe que aquela perspectiva… que, que você mudou, que há algo novo acontecendo aqui. Aquele relacionamento não é mais o mesmo. Então, você se lembra da vez em que estava lá fora com o traje espacial e, por alguns momentos, teve tempo, pois a câmera não funcionou direito, e você teve tempo para pensar sobre o que estava acontecendo. E você lembra-se de ter olhado o espetáculo que passou diante dos seus olhos. Porque agora você não está dentro de alguma coisa com uma janela olhando para uma imagem, mas agora você realmente está lá fora, e na sua cabeça você tem um aquário redondo e não há limites aqui. Não há molduras, não há demarcações. Você realmente está no espaço, sobre a Terra, flutuando, a 25 mil milhas por hora, atravessando o espaço, um vácuo e não há som!

Há um silêncio tão profundo que você nunca havia experimentado, e esse silêncio contrasta de forma tão marcante com o cenário e a velocidade na qual você sabe estar se deslocando. Esse contraste, a mistura das duas coisas, é realmente notável.

E você pensa sobre o que está experienciando e por quê. Você merece isso? Essa experiência única e fantástica? Você a conquistou de alguma forma? Você foi selecionado para ser tocado por Deus, para ter uma experiência especial aqui que outros homens não podem?

Você sabe a resposta. NÃO.

Não há nada que você pode ter feito que merece isso, ganhou isso. E isso lhe atinge de forma muito poderosa, que você é o sensor do homem.

Você olha para baixo e vê a superfície do globo, onde viveu todo esse tempo e conhece todas as pessoas ali. Elas são como você, elas são você. E, de alguma forma, você as representa quando está lá em cima — um sensor que indica no final, e esse é um sentimento humilde. Isso não é só para você.

O olho que não vê não faz justiça ao corpo. É por isso que o universo está lá, por isso que você está lá fora. E, de certo modo, você reconhece que é um pedaço dessa vida total. Você está lá na linha de frente e deve trazer isso de volta de alguma forma. E isso se torna uma responsabilidade bem especial. Isso diz algo sobre o seu relacionamento com essa coisa chamada Vida.

E ao voltar, há uma diferença naquele mundo agora, há uma diferença naquele relacionamento entre você e o planeta, e você e todas as outras formas de vida daquele planeta, porque você teve esse tipo de experiência. É uma diferença e é tão preciosa. E o tempo todo eu venho usando a palavra “você” porque não é eu, não é Dave Scott, não é Dick Gordon, Pete Conrad, John Glenn, é você, somos nós, é a vida. A vida teve essa experiência. E integrar tudo não é só o meu problema, não é só o meu desafio, a minha felicidade de integrar — ela é sua, ela é de todos.