Como se perder e chegar a lugar nenhum dentro de si mesmo

ou, ao menos, como tentar.

Há um desejo latente de escapar para qualquer espaço-tempo que não agora,
que não aqui,
para ser qualquer coisa que não eu,
e fugir da dureza de um dia-a-dia que escorre por entre as horas e me consome.
A cidade me devora e regurgita com tamanha rapidez que eu já não sinto quase nada.
É um tipo de dormência que machuca mais que um soco, e eu só percebo a dor quando olho para mim mesma e enxergo as fraturas.
Foi preciso me tornar concreto para aguentar as pancadas,
 E só depois perceber as enormes rachaduras causadas pela rotina, indicando que a qualquer momento a superfície pode desmoronar.
E quando desmorona, a estrutura arduamente construída se esvai em uma pequena fração de segundos, deixando um enorme buraco que não pode ser preenchido,
ao menos não aqui,
não agora,
 porque, de alguma forma,
eu ainda sou a poeira que sobrou do que desmoronou de mim.