As horas
Olhei para o celular. 23:20
Era o meu horário de saída de um trabalho que iniciou tudo que acontece hoje.
23:00: correr para bater ponto, tirar uniforme, ir viver algo fora a cozinha do dia todo. De volta às 15h00 do dia seguinte. Panelas, fogão, preparar o que descobri ser o que eu mais gosto: sobremesas.
18h00: o horário em que sempre ia ao dentista. Acompanhada do meu pai e do meu irmão. Terminava às 20h00. Voltar para casa, jantar, conversar do quanto foi ruim e que no próximo mês tinha mais.
16h00: voltar da faculdade. Ainda assistir animê na TV. Achar que já estava fazendo muito.
06h00: acordar para ir para escola.
07h00: evitar irmão de manhã para não ter discussão. Anos depois descobri que meu pai ficava esperando os dois no carro para evitar o mau humor matinal de ambos.
04h00: jogando videogame com o namorado quando a faculdade estava em greve.
16h00: fugir de todos do escritório para tomar café e poder respirar o ar sem computador no infinito mundo corporativo.
18h00: por uma semana, assistir novela com meu avô.
11h00: acordar e grudar no namorado.
18h00, dia qualquer: cheiro de pão que meu pai trazia para casa quando chegava do trabalho.
14h00: aguardando os alunos chegarem para a aula.
21h00: aguardar uma reserva enorme e morrer de medo por ser a primeira vez.
Domingo, 16h00: terminar um relacionamento de 10 anos.
Sábado, 16h00: embriagada, conhecendo amigos que um dia iriam se tornar os melhores amigos.
06h00: conversando groselhas com amigos depois de um noite toda bebendo. E querendo ir beber mais.
19h00: fim da briga infinita de um dia todo.
20h00: pontualmente indo sair pela primeira vez com aquele que se tornou o amor.
00h00: sendo despejada na rodovia depois de um sequestro relâmpago.
19h00: aguardando meu pai terminar o jantar de sexta.
21h00: vendo o sol se pôr.
09h00: indo dormir depois de meses trocando dia pela noite.
17h00: cheguei no enterro de um amigo.
Todas as horas me lembram sempre de algo que foi, importante ou não. É uma constante lembrança de segundos, horas com cheiros, horas com gostos, uma sinestesia deja vu.
Odeio horas cheias.
Os segundos que vem depois passam mais rápido e contém acontecimentos supérfluos, que não me fazem lembrar depois.
Como o pós acontecimento de algo que foi e se resolveu.
