As horas

Thais Gimenez
Jul 27, 2017 · 2 min read

Olhei para o celular. 23:20

Era o meu horário de saída de um trabalho que iniciou tudo que acontece hoje.

23:00: correr para bater ponto, tirar uniforme, ir viver algo fora a cozinha do dia todo. De volta às 15h00 do dia seguinte. Panelas, fogão, preparar o que descobri ser o que eu mais gosto: sobremesas.

18h00: o horário em que sempre ia ao dentista. Acompanhada do meu pai e do meu irmão. Terminava às 20h00. Voltar para casa, jantar, conversar do quanto foi ruim e que no próximo mês tinha mais.

16h00: voltar da faculdade. Ainda assistir animê na TV. Achar que já estava fazendo muito.

06h00: acordar para ir para escola.

07h00: evitar irmão de manhã para não ter discussão. Anos depois descobri que meu pai ficava esperando os dois no carro para evitar o mau humor matinal de ambos.

04h00: jogando videogame com o namorado quando a faculdade estava em greve.

16h00: fugir de todos do escritório para tomar café e poder respirar o ar sem computador no infinito mundo corporativo.

18h00: por uma semana, assistir novela com meu avô.

11h00: acordar e grudar no namorado.

18h00, dia qualquer: cheiro de pão que meu pai trazia para casa quando chegava do trabalho.

14h00: aguardando os alunos chegarem para a aula.

21h00: aguardar uma reserva enorme e morrer de medo por ser a primeira vez.

Domingo, 16h00: terminar um relacionamento de 10 anos.

Sábado, 16h00: embriagada, conhecendo amigos que um dia iriam se tornar os melhores amigos.

06h00: conversando groselhas com amigos depois de um noite toda bebendo. E querendo ir beber mais.

19h00: fim da briga infinita de um dia todo.

20h00: pontualmente indo sair pela primeira vez com aquele que se tornou o amor.

00h00: sendo despejada na rodovia depois de um sequestro relâmpago.

19h00: aguardando meu pai terminar o jantar de sexta.

21h00: vendo o sol se pôr.

09h00: indo dormir depois de meses trocando dia pela noite.

17h00: cheguei no enterro de um amigo.

Todas as horas me lembram sempre de algo que foi, importante ou não. É uma constante lembrança de segundos, horas com cheiros, horas com gostos, uma sinestesia deja vu.

Odeio horas cheias.

Os segundos que vem depois passam mais rápido e contém acontecimentos supérfluos, que não me fazem lembrar depois.

Como o pós acontecimento de algo que foi e se resolveu.

    Thais Gimenez

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    a working title.