A controversa gestão de Sílvio de Abreu na direção de teledramaturgia da Globo

Sílvio de Abreu é um dos principais autores de novelas do país e emplacou grandes sucessos como “Guerra dos Sexos” (1983), “Cambalacho” (1986), “Rainha da Sucata” (1990), “A Próxima Vítima” (1995) e “Belíssima” (2005). Recentemente, recebeu a missão de assumir o posto de diretor de teledramaturgia diária da Rede Globo — cargo criado após a saída do diretor de entretenimento Manoel Martins, juntamente com outras divisões comandadas por Guel Arraes, Boninho e Ricardo Waddington — passando a responder pelas novelas e mini/microsséries diárias. Passados dois anos, a gestão do veterano autor tem sido marcada por decisões controversas.

A primeira polêmica se deu em Setembro de 2015, quando se decidiu pelo adiamento de “A Lei do Amor”, novela de Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari que sucederia “A Regra do Jogo” (trama de João Emanuel Carneiro que estava no ar na época). Em seu lugar, entrou “Velho Chico”, projeto de Benedito Ruy Barbosa com sua filha Edmara e seu neto Bruno Luperi, que estava na fila das 18h. Na época, se alegou que a história de Adelaide tinha uma trama política muito forte, que seria comprometida se coincidisse com as eleições municipais de 2016. Outra razão comentada foi a mudança de estilo, deixando de lado as tramas urbanas e realistas, ambientadas em grandes centros como Rio de Janeiro e São Paulo; para abrir espaço para uma linha mais bucólica e regionalista, valorizando o Nordeste brasileiro e as regiões banhadas pelo Rio São Francisco.

Ao longo do tempo, a motivação política para o adiamento de A Lei do Amor mostrou-se infundada, uma vez que Velho Chico, em sua segunda fase, teve fortes tintas políticas, envolvendo personagens como Carlos Eduardo (Marcelo Serrado), Santo (Domingos Montagner), Beatriz (Dira Paes), Raimundo, prefeito da cidade fictícia de Grotas de São Francisco (Saulo Laranjeira) e Tereza (Camila Pitanga). Na atual novela, o contexto político envolvendo a sucessão municipal em São Dimas não mostra nem 1% da força que deveria ter, além de ter virado uma grande galhofa — muito em função de embates envolvendo Luciane (Grazi Massafera), Mileide (Heloísa Perissé), Salete (Cláudia Raia) e Hércules (Danilo Grangheia).

Mais recentemente, a atuação de Sílvio tem chamado a atenção pelo cancelamento ou alteração de sinopses de autores. O primeiro exemplo envolveu “O Homem Errado”, ideia original de Duca Rachid e Thelma Guedes, autoras que fariam sua estreia às 21h após “A Força do Querer”, de Glória Perez. A trama teve a sinopse aprovada e estava com 12 capítulos prontos e bem avaliados, porém, foi cancelada sem maiores explicações. No lugar da dupla, assume seu lugar Walcyr Carrasco (de quem ambas são pupilas), conhecido por sua carreira de grandes sucessos, que fará sua segunda trama no horário. Pouco depois, Lícia Manzo (autora das primorosas A Vida da Gente e Sete Vidas) teve o projeto de sua história das 23h (intitulada “Jogo da Memória”) transformado em uma minissérie e adiado para 2018. O lugar dela passou a ser ocupado por uma trama das novatas Ângela Chaves e Alessandra Poggi, que falará sobre a ditadura.

Alterações de ordem também têm sido constantes, como as antecipações das novelas de Izabel de Oliveira e Paula Amaral (Anos Incríveis) e Alcides Nogueira (Amor e Morte) — esta última jogou mais para frente a nova sinopse de Elizabeth Jhin, agora prevista para 2018. E ainda foram canceladas sinopses de Cláudia Lage (sobre o movimento sufragista, para a faixa das 18h), Rui Vilhena (com um projeto para as 19h), Maurício Giboski (que apresentaria uma novela sobre uma dupla sertaneja, também às 18h), Benedito Ruy Barbosa (cuja história mesclaria elementos religiosos e nazismo), Lauro César Muniz (que teve seu retorno à Globo anunciado, a convite de Abreu, mas os projetos foram cancelados) e Antônio Calmon (A Barba Azul, sobre um misterioso homem que teve várias mulheres desaparecidas — que nada tem a ver com a novela homônima de Ivani Ribeiro que inspirou “A Gata Comeu”).

Por um lado, há a possibilidade de estas obras apresentarem possíveis problemas em função de elementos de suas tramas que poderiam afugentar o público, o que é até compreensível — ainda mais quando atinge autores mais antigos. Em alguns casos, as alterações podem surtir efeito, como no caso de “Liberdade, Liberdade”, novela das 23h exibida em 2016, cuja autora original Márcia Prates foi substituída pelo roteirista Mário Teixeira, em função de inconsistências no texto da primeira. Por outro lado — este problema em especial atinge os autores mais jovens — fica a sensação de desprestígio, dificultando que novos valores possam se consolidar, ainda mais se considerar que enquanto algumas destas obras sofrem alterações são arquivadas ou alteradas, tramas pífias como “Sol Nascente”, do veterano Walther Negrão, ganham espaço.

Outra atuação polêmica de Abreu diz respeito às alterações de rumo em novelas com problemas de audiência, como é o caso de “Babilônia” e “A Lei do Amor”. A primeira — cuja estrutura central já era fraca — teve seus núcleos de humor aumentados e núcleos promissores foram destruídos (como foi o caso de Alice, personagem de Sophie Charlotte, que se prostituiria e acabou virando uma simples mocinha). A segunda, com uma espinha dorsal superior, também vem sofrendo com a descaracterização de seus núcleos, com o sumiço de personagens importantes, como Beth (Regiane Alves), Aline (Arianne Botelho) e o senador Venturini (Otávio Augusto) e a mudança repentina na personalidade de alguns outros, como Jéssica (Marcella Rica) e Letícia (Isabella Santoni). Boa parte dessas mudanças é reflexo dos resultados dos grupos de discussão promovidos pela emissora e estas alterações não estão surtindo efeito. Mas deve-se lembrar que Sílvio não é o único responsável, uma vez que Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari obedeceram a essas mudanças, prejudicando a condução do enredo.

A julgar pelos resultados apresentados, a gestão de Sílvio de Abreu como diretor de teledramaturgia vem trazendo mais erros do que acertos. É justo reconhecer que os outros horários (18h, 19h e 23h) estão cada vez mais sólidos, com novelas de sucesso. E não se está aqui questionando, de nenhuma forma, a competência do veterano autor, uma vez que há a intenção de acertar com essas mudanças, em algumas vezes até dando certo. Mas apenas deve-se registrar que a interferência de Abreu no planejamento da dramaturgia diária da emissora carioca vem se caracterizando, mais recentemente e principalmente, por decisões erradas — em especial na agora frágil faixa das 21h, outrora a mais forte da Globo.