A Lei do Amor não faz jus ao seu nome

Praticamente entrando em sua reta final, a novela das 21h não disse a que veio. A história de Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari, prejudicada por mudanças abruptas em seu roteiro em função da baixa audiência e da influência do resultado dos grupos de discussão, continua enfrentando problemas na condução de seus núcleos.

O erro mais evidente é visto no triângulo amoroso entre Tiago (Humberto Carrão), Letícia (Isabella Santoni) e Isabela/Marina (Alice Wegmann), cujo desenvolvimento se mostra pífio desde o início da novela. O neto de Magnólia (Vera Holtz), envolvido com a filha de Helô (Cláudia Abreu), se apaixonou pela garçonete sem encerrar o seu compromisso com a patricinha. Algum tempo depois, Helô passou a ajudar Isabela, que havia se comprometido por ter informações valiosas sobre o envolvimento da família Leitão com o senador Venturini (Otávio Augusto). Uma situação sem cabimento, pois a garota jamais iria gostar de ver sua mãe ajudando a atual namorada do ex. Porém, tudo iria piorar com a chegada de Marina. A personagem, que na verdade é Isabela disfarçada, retornou à novela para se vingar de Tiago, apostando na sedução e tentando envolver o ex, mais uma vez traindo Letícia. Uma situação inverossímil e também machista, já que coloca os dois perfis femininos como “culpados” do caráter de Tiago, como se Marina estivesse “se aproveitando” dele e Letícia não reagisse.

Agora, o casal principal também foi afetado. Helô e Pedro (Reynaldo Gianecchini), que andaram por um bom tempo sem história juntos, foram vítimas de uma armação de Tião (José Mayer), que descobriu uma ex-namorada do protagonista: a bela Laura (Heloísa Jorge), que retornou ao Brasil revelando que Pedro tinha uma filha escondida. Isto bastou para provocar a revolta da mocinha, porém, o conflito se mostrou igualmente ilógico e também repetitivo, uma vez que Helô também escondeu de Pedro que tinha uma filha (Letícia) e por isso não tem legitimidade para se revoltar. Para piorar, os autores vão fazer com que ela flagre Pedro na cama com Laura, assim como aconteceu na primeira fase com Suzana (Gabriela Duarte/Regina Duarte) — com um diferencial: enquanto a primeira “traição” foi uma armação de Magnólia, aqui Pedro e Laura transarão por livre e espontânea vontade, o que indica uma surreal transformação no caráter de Pedro, até então apresentado como um mocinho justo, gentil e de bom caráter, ao contrário do que este “envolvimento” sugere. Seria muito mais coerente se a rejeição de Letícia por Pedro tivesse sido mais explorada — ela aceitou o pai biológico rápido demais, acabando com um possível ponto de conflito do casal — e se o médico Bruno (Armando Babaioff) tivesse se envolvido com Helô, como era previsto.

As tramas paralelas também não escapam do saldo negativo: a trama política envolvendo a eleição para a prefeitura de São Dimas — justificativa para o adiamento da novela — não tem nem de longe o impacto que deveria ter. Pelo contrário, não passa de uma piada de mau gosto que vai do nada a lugar nenhum. Até mesmo Luciane (Grazi Massafera), uma das melhores personagens da história, perdeu função na mesma, devido à repentina saída de Venturini, com quem a ex-prostituta se envolvia para conseguir informações privilegiadas e ajudar o marido Hércules (Danilo Grangheia) a se eleger. O casal Yara (Emanuelle Araújo) e Misael (Tuca Andrada) também sofre com a falta de um enredo mais consistente, prejudicado pela saída da problemática Aline (Arianne Botelho), que retornou à novela como prostituta de luxo; além de soar forçado o envolvimento de Misael com Flávia (Maria Flor), filha de Salete (Cláudia Raia).

E outro grande erro envolve justamente a frentista. Salete se apaixonou por Gustavo (Daniel Rocha), um dos bandidos que assaltaram seu posto no começo da novela, em um relacionamento marcado pela conduta problemática dele. Chegou-se a colocar o rapaz para ter problemas com drogas, numa referência ao drama sofrido pela personagem de Grazi em Verdades Secretas, mas o tiro saiu pela culatra. A evidente falta de química entre os dois atores e o desempenho apático de Rocha contribuem ainda mais para este erro.

Ainda merece destaque a trama em que Tião se vinga de Magnólia, atualmente um dos eixos centrais do que sobrou da sinopse. Após ser desmascarada e em público por suas armações, a megera passou a ser alvo da vingança do inescrupuloso empresário, humilhado por ela na juventude e que irá à forra em um casamento de fachada. Algumas das situações chegam a lembrar a vingança de Nina sobre Carminha em Avenida Brasil, porém, sem a mesma verossimilhança.

Em virtude de tudo isso, infelizmente, A Lei do Amor se mostrou uma novela decepcionante. Não que se queira aqui cobrar que uma novela só tenha valores positivos e coisas boas, mas, a julgar por tudo que está sendo apresentado, o amor parece fazer parte apenas do título. A estreia de Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari na faixa mais nobre da emissora acabou marcada por conduções equivocadas, baixa audiência, desvalorização de talentos e transformações esdrúxulas de personalidade de personagens. Diante deste quadro, fica difícil não torcer para que acabe logo.

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