Com audiência impressionante, altos e baixos, “Êta Mundo Bom” sintetiza a essência cômica de Walcyr Carrasco

Nesta sexta-feira (26), se encerrou “Êta Mundo Bom”, a atual novela das seis. De autoria de Walcyr Carrasco, a história iniciada no dia 18 de janeiro marcou o retorno do autor à faixa das 18h, dez anos após sua última novela neste horário (Alma Gêmea, 2005–06) e poucos meses depois do fim da elogiada Verdades Secretas, grande sucesso das 23h. O êxito se repetiu, de forma impressionante, atingindo a maior audiência da faixa desde “O Profeta” (2006–07). Grande parte da boa aceitação deveu-se à ideia do autor de repetir os elementos e clichês conhecidos de suas tramas das seis, como O Cravo e A Rosa (2000–01), Chocolate Com Pimenta (2003–04) e a já citada Alma Gêmea, além da retomada da parceria com o diretor Jorge Fernando (que assinou as duas últimas).

Inspirada no filme Candinho, protagonizado por Mazzaropi — por sua vez, baseado na obra Cândido ou O Otimismo, do filósofo Voltaire — a novela contou a história de Candinho (Sérgio Guizé), um roceiro abandonado ainda bebê pela mãe, Anastácia (Eliane Giardini) e criado por uma família caipira, chefiada pela gananciosa e xucra Cunegundes (Elizabeth Savalla) e seu marido molenga, Quinzinho (Ary Fontoura). Porém, Candinho sempre foi tratado como mero empregado. Anos depois, ele se apaixona pela filha mais velha do casal, a linda Filomena (Débora Nascimento) — e acaba expulso da fazenda por isto. Aconselhado por um amigo da família, o professor Pancrácio (Marco Nanini), Candinho parte com seu burro de estimação, Policarpo, para São Paulo, em busca de sua mãe verdadeira. Filó, por sua vez, se deixa levar pela lábia do cafajeste Ernesto (Eriberto Leão), que também a leva para a capital paulista prometendo se casar com a mesma, mas a obriga a trabalhar como taxi-girl em um clube de dança.

Chegando a São Paulo, Candinho segue à procura da mãe, que é empresária de uma fábrica de sabão e também está atrás do filho, com a ajuda do detetive Jack (David Lucas). A busca desperta a inveja da sobrinha da ricaça, a ambiciosa Sandra (Flávia Alessandra), que quer evitar esse encontro para colocar as mãos na fortuna da tia e conta com a ajuda do irmão Celso (Rainer Cadete) e de Ernesto. Na cidade, o caipira passa a conviver com Pancrácio e um novo amigo, o garoto Pirulito (JP Rufino). Pancrácio, por sua vez, usa os mais diversos disfarces para conseguir dinheiro e, a partir daí, se interessa por Anastácia em alguns encontros.

Na fazenda onde Candinho viveu — cuja história é inspirada no livro O Comprador de Fazendas, de Monteiro Lobato — também vivem os outros filhos de Cunegundes e Quinzinho: Mafalda (Camila Queiroz), uma jovem que sonha em se casar, e Quincas (Miguel Rômulo), seu irmão gêmeo; além da irmã de Quinzinho, a solteirona Eponina (Rosi Campos); o agregado Zé dos Porcos (Anderson di Rizzi), apaixonado por Mafalda; a empregada Manuela (Dhu Moraes) e sua sobrinha Dita (Jennifer Nascimento). A família vive metida em confusões, está em dificuldades financeiras e quer a todo custo vender a fazenda para evitar que ela vá a leilão. Neste meio tempo, chega ao local o jovem Romeu (Klebber Toledo), um vigarista que quer se aproveitar da situação para dar um golpe na família, mas acaba também apaixonado por Mafalda, disputando-a com Zé dos Porcos.

A trama apresentou uma primeira semana ágil, mostrando os desdobramentos da ida de Candinho para São Paulo e sua busca pela mãe biológica, enquanto Filó se vê nas mãos de Ernesto. Porém, ao longo do tempo, os desdobramentos da difícil história de amor do roceiro com a mocinha mostraram-se desinteressantes, tornando o núcleo principal cansativo por um longo tempo, em virtude da falta de química entre Sérgio Guizé e Débora Nascimento e da passividade da mocinha. Nesse meio tempo, outros personagens começaram a ganhar destaque, como a jovem Maria (Bianca Bin), empregada de Anastácia, que perdeu o namorado e a mãe e foi expulsa de casa pelo pai ao se descobrir grávida, vivendo uma difícil relação com Celso — que inicialmente a despreza por ser parecida com uma antiga namorada que o abandonou. Por sua vez, Sandra se aproxima de Ernesto, tornando-se amantes e cúmplices nas armações da víbora loira — que sugere que ele se disfarce como Candinho para iludir a tia e case-se com a vilã.

A história começou a se tornar mais atrativa quando Pancrácio e Anastácia passaram a conviver juntos e, com a ajuda de Maria — que passa a ganhar a confiança de Celso -, o professor desmascara Ernesto na frente de todos durante o casamento, promovendo o encontro da milionária com seu verdadeiro filho. Houve uma mudança de foco que destacou ainda mais o protagonista Candinho — que mostrou ter força própria sozinho, sem precisar de um par romântico — enquanto Filó ficou relegada a segundo plano, tornando-se até uma figurante de luxo. Ainda assim, Sandra não desistiu de armar para cima do caipira, inclusive tentando se casar com ele, sem sucesso, e posteriormente expulsando Anastácia e o filho da mansão através de uma armação envolvendo o advogado da empresária, Dr. Araújo (Flávio Tolezani). O núcleo da fazenda, por sua vez, ganhou força com a chegada de Pandolfo, irmão gêmeo — e esclarecido — de Pancrácio, que inicialmente confunde Anastácia, mas acaba se interessando por Eponina.

Estes desdobramentos favoreceram ainda mais o talento de Marco Nanini, Eliane Giardini e Sérgio Guizé. Nanini, após quase 15 anos como o certinho Lineu em “A Grande Família” (2001–14), voltou às novelas em grande estilo com dois personagens totalmente diferentes entre si, evidenciando sua versatilidade. Por sua vez, Eliane Giardini foi recompensada após um pequeno papel em Amor à Vida (2013–14) e viveu um dos tipos mais marcantes de sua carreira, protagonizando cenas emocionantes e esbanjando química com Nanini. E Sérgio Guizé se saiu muito bem e divertiu com o jeitão simplório de Candinho — embora houvesse certo estranhamento inicial devido ao tom caricato, felizmente corrigido em pouco tempo.

Quem também merece destaque é Flávia Alessandra, que retomou a parceria com o autor e viveu com competência a manipuladora e sensual Sandra, destacando-se não apenas pela vilania, mas também pelo forte poder de sedução da personagem sobre qualquer homem que cruzasse seu caminho. Essa sensualidade, embora um tanto velada devido ao horário, fez com que a atriz esbanjasse química com Eriberto Leão, seu parceiro de cena, retratando fielmente a relação perigosa entre os amantes e cúmplices. Ainda assim, o tom da personagem e sua caracterização, inevitavelmente, remetiam a Cristina Saboya, a vilã que consagrou Flávia em Alma Gêmea, e deixando a impressão de repetição. Porém, há uma diferença evidente: Cristina era mais contida e obcecada e desejava o amor do mocinho Rafael (Eduardo Moscovis), enquanto Sandra é mais amoral e apenas usa os homens para conseguir o que quer — no caso, a fortuna da tia.

Além dela, merecem elogios Bianca Bin (cuja Maria ganhou status de protagonista por sua doçura e inteligência), Elizabeth Savalla (figurinha carimbada nas tramas de Walcyr, apesar de o papel lembrar outros tipos feitos pela atriz); Ary Fontoura, que repetiu com Savalla a boa parceria de Chocolate Com Pimenta; Rosi Campos, que após várias novelas com papeis pequenos, finalmente foi valorizada; Priscila Fantin, que também voltou a atuar com Walcyr, na pele da sedutora dançarina Diana, amante de Severo (Tarcísio Filho), pai de Maria; Camila Queiroz (que se transformou da sensual ninfeta Angel de “Verdades Secretas” para a sonhadora Mafalda; Suely Franco (brilhando como Paulina, dona do dancing onde Diana e Filó dançavam); e os talentos mirins Xande Valois, que viveu Cláudio, filho de Dr. Araújo, que tinha um problema na perna e voltou a andar; e Nathália Costa, como Alice, irmã de Maria e melhor amiga de Cláudio.

Ainda assim, a trama teve problemas claros na condução de alguns núcleos e na escalação de alguns atores. O erro mais evidente foi a escolha de Débora Nascimento para interpretar a protagonista Filó. A atriz vinha de um bom desempenho em “Alto Astral” (2014–15), como a sensual vilã Sueli, mas desde o começo mostrou não estar preparada para encabeçar o elenco da trama. A personagem, por si só, já era cansativa, mas a fraquíssima interpretação de Débora e sua falta de carisma piorou a situação e contribuiu para que a mocinha se tornasse uma figurante de luxo, vivendo apenas em função do protagonista Candinho — que tinha força própria sem ela. Eriberto Leão, como o vilão Ernesto, também decepcionou e mostrou uma total inexpressividade em suas cenas, beirando ao constrangedor, apesar da química com Flávia Alessandra. Rainer Cadete, que se destacou como o afetado Visky em “Verdades Secretas”, foi outro que deixou a desejar — seu personagem em muitos momentos lembrava o anterior, embora mais contido e apresentando química visível com Bianca Bin.

Entre os núcleos que não foram bem conduzidos, está o de Gerusa (Giovanna Grigio) e Osório (Arthur Aguiar) — ela, uma jovem órfã portadora de leucemia, que vive na pensão de Camélia (Ana Lucia Torre); ele, um funcionário da loja de Severo. O romance, com inspirações em A Culpa é das Estrelas, não foi bem conduzido e foi afetado pela falta de química entre os dois atores e pelas atuações inexpressivas dos mesmos, em especial de Giovanna Grigio, oriunda de Chiquititas, do SBT. Por sua vez, a grandiosa Ana Lucia Torre, embora com um papel menor, era responsável pelos melhores momentos.

Outra situação mal conduzida foi o quadrilátero amoroso entre Mafalda, Romeu, Zé dos Porcos e Sarita (Juliane Araújo), ex-dançarina do dancing. As situações envolvendo os quatro e a indecisão de Mafalda foram se desgastando e cansando. Enquanto Camila e Juliane estiveram ótimas, Anderson di Rizzi e Klebber Toledo não convenceram.

E outro destaque negativo foi Rômulo Neto, na pele do jovem Braz, irmão de Maria, que queria vingar a morte da mãe e usou Diana contra o pai, desprezando-a mais tarde. O personagem guardava uma ambiguidade até interessante, mas a escolha de Rômulo colocou tudo a perder, devido à total inexpressividade do ator.

O autor conduziu sua história reutilizando vários elementos conhecidos de suas novelas anteriores da faixa, como a comédia pastelão através das guerras de comida e casamentos fracassados. Para alguns, esta ideia se caracteriza uma total falta de ousadia e criatividade, enquanto outros pareceram não se importar com o fato. Outro destaque foi emplacar bordões e expressões que fizeram sucesso devido à constante repetição, como ocorrido em “Caras e Bocas” (2009–2010). Os principais exemplos foram o bordão “Meu nome é Cu-negundes!”, dito pela fazendeira sempre que a alguém a chamava pelo apelido “Boca-de-Fogo”, e a expressão “cegonho”, metáfora usada por Mafalda para se referir ao órgão sexual masculino.

A reta final da novela ficou marcada pela adoção de um típico clichê das novelas, o sequestro da mocinha com seu filho — Filomena foi raptada durante o casamento, após o bandido Cara de Cão, comparsa de Sandra e Ernesto, se disfarçar como o chofer que a levaria à igreja, além dos desfechos dos núcleos paralelos — como o casamento entre Paulina e Josias (Flávio Migliaccio), o relacionamento entre Severo e Diana e o golpe de Braz em Ilde (Guilhermina Guinle), ex-esposa de Araújo. As cenas do sequestro ficaram marcadas pela inexpressividade de Débora Nascimento e Eriberto Leão, enquanto Flávia Alessandra se destacava. O ponto mais alto foi a perseguição policial contra os vilões, que culminou em um acidente de carro — aqui vale um parêntese: a batida em si deixou a desejar, com um resultado falso — que matou Ernesto. Flávia emocionou com o desespero de Sandra com a morte do cúmplice. Ana Lucia Torre, Arthur Aguiar e Giovanna Grigio protagonizaram uma bonita cena, no momento em que Gerusa dança uma última valsa com Osório e morre logo em seguida, para desespero do jovem e de Camélia. O penúltimo capítulo se encerrou com o casamento de Mafalda e Romeu, deixando a dúvida se ela iria se casar com o ex-vigarista ou com Zé dos Porcos — uma escolha errada, uma vez que o acidente traria mais impacto.

O último capítulo se iniciou com a decisão de Mafalda por Zé dos Porcos, selando o quão mal-desenvolvida foi sua trama, uma vez que todo o sentimento de Romeu não serviu de nada. Em compensação, os dois fizeram uma linda cena, mostrando a primeira noite de amor dos dois, na qual Mafalda enfim conheceu o tão falado cegonho. Por sua vez, Romeu voltou à prática de golpes, ao lado de Sarita. Logo depois, sucedeu-se o sepultamento de Gerusa, no qual Osório passou mal e também faleceu. Se anteriormente Arthur e Giovanna haviam emocionado, o resultado desta vez foi totalmente oposto: Arthur não conseguiu passar emoção no momento em que Osório morre — e seguiu-se uma constrangedora cena dos dois dançando uma valsa em outro plano, lembrando a igualmente bizarra cena da morte de Nicole (Marina Ruy Barbosa) em Amor à Vida e o momento romântico de Serena (Priscila Fantin) e Rafael (Eduardo Moscovis) em Alma Gêmea.

Em compensação, o momento em que Sandra finalmente vai para a prisão mostrou-se, com larga vantagem, a melhor cena do capítulo. Fichada, a vilã divide uma cela com outras presidiárias e arruma uma briga com elas — sendo levada para a solitária e obrigada a comer uma comida de péssima qualidade. Flávia Alessandra brilhou com o desespero da megera ao se ver sozinha e proporcionou o melhor momento do capítulo final, muito embora a prisão de Sandra lembrasse o final de Judith — vilã de Deborah Evelyn em “Caras e Bocas” (2009, protagonizada justamente por Flávia), que também acabou na solitária. A atriz reafirmou o acerto de sua parceria com o autor em uma sequência visceral. Após este bloco, seguiu-se o final feliz de Candinho e Filomena, que se casaram. Antes de beijar a noiva, o caipira deixou uma mensagem que refletiu o mote da novela: “Nunca perda (sic) as esperança. Porque tudo que acontece de ruim na vida da gente é pra miorá. Êta mundo bão!”. Após o casamento, o vestido de Filó rasga e deixa transparecer a palavra FIM, escrita na roupa de baixo da personagem, como no filme original protagonizado por Mazzaropi, a quem a trama foi dedicada.

A receita deu certo e, apesar dos problemas mencionados, garantiu a “Êta Mundo Bom” um gigantesco sucesso de audiência, tornando-se por muitas vezes o programa mais assistido da emissora após o fim da novela das 19h “Totalmente Demais”, também um fenômeno de ibope. A trama por vezes apresentou capítulos com média geral superior a 30 pontos — algo que não se via desde a elogiada Cordel Encantado (2011) — e também derrotou vários capítulos da trama das 21h, Velho Chico. Este sucesso rendeu à história de Walcyr a média geral de impressionantes 27 pontos de audiência, sete a mais do que a média geral da antecessora, a primorosa Além do Tempo (2015–16), e também a melhor média geral desde “O Profeta” (2006–07), que teve média de 32 pontos. Em alguns capítulos, a trama chegou ao recorde de 36 pontos, porém, o último episódio não bateu esta marca, marcando 30 pontos em dados prévios — o melhor ibope final de uma novela desde “Cordel Encantado”.

“Êta Mundo Bom”, com sua receita simples, seus personagens carismáticos e a facilidade do autor de costurar as histórias e atrair o público, mostrou-se um grande sucesso do horário. O estilo pastelão do autor às seis pode não agradar a uma parte do público, que pode considerar isso algo bobo e cansativo. E mesmo esta trama, em termos de qualidade, não é exatamente uma das melhores de Carrasco, como as anteriores dele às seis, ou outras da mesma época, como as antecessoras Sete Vidas e Além do Tempo. Porém, é inegável que a competência de Walcyr em atrair o público para suas novelas é forte, mesmo que seu estilo não agrade. E isso é algo que não deve ser desprezado.