Flávia Alessandra se destaca e faz de Sandra um acerto de “Êta Mundo Bom”

Após um período inicial em que nada acontecia de muito relevante, Êta Mundo Bom ganhou fôlego há alguns meses, em especial mais recentemente. A trama das 18h, de Walcyr Carrasco, é um fenômeno de audiência do horário, marcando números que não eram vistos desde seis anos atrás, mostrando que a ideia de repetir elementos já conhecidos do autor em suas novelas desta faixa deu certo. Esta guinada se deu devido ao investimento em tramas promissoras, como o relacionamento entre Pancrácio (Marco Nanini) e Anastácia (Eliane Giardini) e o reencontro entre esta e Candinho (Sérgio Guizé), rendendo emocionantes cenas para os atores. Porém, há um elemento desta trama em especial que merece destaque: a vilã Sandra (Flávia Alessandra).

Desde o início da história, a personagem era considerada um dos perfis mais atraentes. Sobrinha de Anastácia, Sandra é gananciosa e tem como principal objetivo roubar a fortuna da tia, contando com a ajuda do irmão Celso (Rainer Cadete) e do amante, o inescrupuloso Ernesto (Eriberto Leão). Ao descobrir que a empresária tem um filho perdido, que vem a ser Candinho, a vilã loira age para impedir que esse encontro aconteça, inclusive armando uma farsa com o amante, que se passa pelo caipira para enganar a milionária. Sandra planeja um casamento de fachada, porém, durante a cerimônia, Pancrácio revela a todos que Ernesto é um farsante e a loira se faz de vítima. Ao conhecer o verdadeiro Candinho, a vilã resolve novamente se casar, porém, é rejeitada no altar pelo roceiro.

E a última cartada de Sandra, movimentando a história, foi dar um golpe na própria tia, com a ajuda do advogado da empresa, Dr. Araújo (Flávio Tolezani). Sabendo de que Araújo precisava de dinheiro para pagar a cirurgia do filho Cláudio (Xande Valois), ela o usa como laranja, falsificando uma assinatura de Anastácia, “transferindo” para si todos os bens da tia e a expulsando da mansão junto com Candinho. Porém, Celso conta com um documento que permite que a tia tenha parte da fábrica e tenta convencer Araújo de que a loira o está enganando, para retomar os bens.

Considerando-se todo esse histórico, Sandra se mostra uma vilã daquelas, que não hesita em passar por cima de quem quer que seja para conseguir o que quer, seja pela frieza ou pela sensualidade — a vilã tem um forte poder de sedução e é plenamente convencida disso. E este conjunto permite que Flávia Alessandra se destaque em todas as cenas, desde as mais contidas às explosões de fúria. A atriz ainda conseguiu mostrar química com Eriberto Leão e Sérgio Guizé, além de mostrar uma boa parceria com Eliane Giardini, que também tem nas mãos um de seus melhores papeis, e com Bianca Bin, com a qual protagonizou embates excelentes entre Sandra e Maria (Bin).

Apesar disso, é válido pontuar: desde o começo da novela, a vilã é frequentemente comparada a Cristina, personagem de grande sucesso vivida pela mesma atriz em Alma Gêmea (2005–06), que tem semelhanças fortes com Sandra, na história, na caracterização (também era uma vilã loira) e mesmo na atuação de Flávia — ainda que proposital. Mesmo assim, há uma diferença importante: Sandra é mais expansiva e sedutora, enquanto Cristina era mais contida em si, mais amargurada. Em virtude destas semelhanças — não apenas da personagem, mas dos elementos típicos do autor — , a recém-anunciada reprise de Alma Gêmea no Vale a Pena Ver de Novo foi cancelada.

Revelada em Top Model (1989), da qual passou a fazer parte após vencer um concurso do Domingão do Faustão, Flávia Alessandra já havia interpretado papeis de destaque nos anos 90, em novelas como Meu Bem Querer (1998), Porto dos Milagres (2001) e O Beijo do Vampiro (2002). Mas a grande virada em sua carreira viria mesmo justamente em Alma Gêmea, onde finalmente seria reconhecida e roubou a cena. Em 2006, Flávia esteve na novela Pé na Jaca (2006–07), de Carlos Lombardi, onde viveu a sensual e espalhafatosa perua Vanessa, esposa do protagonista Arthur (Murilo Benício). Mais tarde, interpretou a stripper Alzira em Duas Caras (2007–08) e a altíssima voltagem sensual de suas apresentações causou problemas com a classificação indicativa. Em 2009, novamente com Walcyr Carrasco, protagonizou Caras e Bocas, vivendo a especialista em arte Dafne, mãe da divertida Bianca (Isabelle Drummond). Anos depois, também com Walcyr, encarou um inusitado desafio: interpretar a robô Naomi, na novela Morde e Assopra (2011), criada por Ícaro (Mateus Solano) a partir de sua esposa, que supostamente estava morta. Porém, descobriu-se que ela estava viva e Flávia passou a interpretar duas personagens, que entraram em conflito entre si.

A parceria com Walcyr foi interrompida duas vezes. Em 2012, a atriz chegou a ser cotada para viver a prostituta Zarolha, no remake de Gabriela, porém recusou o convite do autor e o papel passou para as mãos de Leona Cavalli. Flávia foi escalada para Salve Jorge (2012–13), de Glória Perez, e interpretou uma personagem aquém de seu talento: uma militar (Érica) de baixíssima auto-estima, inicialmente namorada do cansativo mocinho Theo (Rodrigo Lombardi), que acaba rejeitada pelo mesmo em favor de Morena (Nanda Costa). Pouco mais tarde, Flávia também recusou interpretar a vilã de Amor à Vida (2013–14). Com esta baixa, a personagem foi convertida em vilão, tornando-se justamente Félix, o papel que consagraria Mateus Solano, sendo o maior acerto da novela. A atriz entraria para o elenco da fracassada Além do Horizonte (2013–14), vivendo Heloísa, uma apresentadora de TV, mãe da mocinha Lili (Juliana Paiva), outro perfil que não fez jus a sua competência.

Agora, em 2016, Flávia Alessandra retomou a parceria com Carrasco e vem fazendo um merecido sucesso na pele da sensual víbora da trama das seis. Apesar das semelhanças entre Sandra e Cristina, a atriz está cada vez mais segura em suas cenas e merece os elogios por um dos perfis mais atraentes da novela.