Liberdade, Liberdade acerta ao mesclar contexto histórico e trama impactante
A nova novela das 23h estreou no dia 11 de abril de 2016. “Liberdade, Liberdade” estreou mostrando uma atraente história e mesclando o contexto histórico do fim do século XVIII e início do século XIX com personagens promissores. E o que tem sido apresentado até agora mostra que nem os problemas que enfrentou nos bastidores antes de sua estreia prejudicaram o conjunto final.
O cenário inicial da trama antes da estreia parecia não ser promissor. Inicialmente, Márcia Prates, colaboradora de autores como Gilberto Braga e Aguinaldo Silva, foi anunciada como autora da novela, com supervisão de Euclydes Marinho. Como os capítulos não agradaram à direção da emissora, Euclydes foi afastado e Glória Perez entrou em seu lugar, deixando o posto para se dedicar à sua novela das 21h (À Flor da Pele, prevista para 2017). Mário Teixeira, autor de I Love Paraisópolis (2015) foi escolhido como novo supervisor, porém foram detectados problemas históricos e a autora foi afastada. Teixeira foi promovido a autor titular, baseando-se no argumento (ideia original) de Márcia, que por sua vez baseia-se no livro “Joaquina, Filha de Tiradentes”, da escritora Maria José de Queiroz, lançado em 1987.
A trama conta a história de uma personagem desconhecida do grande público: Joaquina (Mel Maia/Andreia Horta), filha de Tiradentes (Thiago Lacerda), o mártir da Inconfidência Mineira, que lutava pela independência do Brasil da Coroa de Portugal. Ainda criança, Joaquina presencia o enforcamento do pai, traído por um companheiro do movimento e se muda para Portugal. Criada por Raposo (Dalton Vigh), um simpatizante da revolta popular, volta ao Brasil anos depois, com um novo nome: Rosa (Andreia Horta). Agora, é uma mulher à frente de seu tempo, corajosa e que não se conforma com as injustiças que presencia no Brasil. Ela desperta o interesse amoroso de Xavier (Bruno Ferrari), um rapaz idealista que se identifica com os ideais liberais da jovem, e também de Rubião (Mateus Solano), intendente de Vila Rica e fiel à Coroa. Este se encanta por ela, mas uma relação entre os dois é inviável, uma vez que ele provocou a morte dos pais da jovem.
Um dos pontos mais positivos da trama é justamente sua protagonista. Em tempos onde é difícil interpretar uma mocinha que conquiste a torcida do público, Andreia Horta mostrou-se uma acertada escalação. A atriz — uma das melhores de sua geração — convence plenamente e esbanja competência e carisma na pele da jovem Joaquina/Rosa. O desenvolvimento do papel também é acertado, uma vez que o senso de justiça da jovem não soa pedante ou politicamente correto. Também deve se destacar o imenso talento de Mel Maia, que brilhou vivendo a pequena Joaquina nos primeiros capítulos e entregou para Andreia uma grande personagem.
Ainda merece ser destacando o grande elenco da trama: Mateus Solano, após quase três anos longe das novelas depois do sucesso de Félix em Amor à Vida (2013/14), novamente vive um vilão e acerta ao diferenciar totalmente um papel do outro. Aos poucos, Rubião acaba se revelando também um tipo ambíguo, uma vez que se interessa por Rosa. Bruno Ferrari, após um período na Record, retornou à Globo nesta trama e se sai bem como Xavier, o jovem idealista que está prestes a se casar com Branca (Nathalia Dill), porém se encanta com Joaquina/Rosa e desperta o ciúme da noiva. Por sua vez, Nathalia Dill também se mostrou uma escalação certeira e está ótima na pele da mimada vilã, após alguns papeis sem muito destaque em Avenida Brasil (2012), Joia Rara (2013/14) e uma insossa protagonista em Alto Astral (2014/15). O tom propositalmente exagerado caiu como uma luva para Branca. Junto a eles, há outros ótimos nomes como Dalton Vigh (Fragoso), Zezé Polessa (Ascensão), Caio Blat (André, filho de Raposo), Genézio de Barros (Diogo Farto, pai de Branca), Chris Couto (Luzia, mãe de Branca), Maitê Proença (Dionísia, tia de Joaquina/Rosa) Hanna Romanazzi e Yanna Lavigne (as prostitutas Gironda e Mimi, respectivamente).
Porém, há dois atores que também merecem um destaque especial: Lilia Cabral e Marco Ricca. Ela, após uma brilhante participação em Império (2014/15), se destaca novamente na pele da prostituta Virgínia, que ajudou Joaquina a fugir do país quando pequena e é dona de um bordel na cidade. Virgínia é moralmente condenada pela sociedade de Vila Rica por ser uma prostituta, mas leva uma vida mais honesta do que muitos que a condenam e pregam a moral e os bons costumes. Ricca, por sua vez, tem um brilhante desempenho na pele do amoral bandido Mão de Luva, que no início da novela tenta atacar Joaquina por ela ser filha de Tiradentes. Após se destacar recentemente em O Astro (2011) na pele do vilão Samir Hayalla e em Sangue Bom (2013) como o amargurado Wilson, Ricca novamente tem um grande papel e corresponde à altura.
Outros elogios devem ser feitos à primorosa abertura, cujo tema é o instrumental Francisco, cantado em vocalização (sem letra) por Milton Nascimento e à caprichada reconstituição de época.
O conjunto de qualidades de “Liberdade, Liberdade” fazem com que a novela seja mais um acerto da faixa das 23h, após o sucesso da impactante “Verdades Secretas” (2015). Após um início que aparentava ser um prólogo, a trama engrenou a partir da terceira semana e tem se mostrado mais e mais atraente a cada capítulo. Sem dúvidas, uma história que merece a atenção.