“Liberdade, Liberdade” encerra sua trajetória com boas atuações e escancarando o conservadorismo brasileiro

Após 67 capítulos, chega ao fim nesta quinta-feira, “Liberdade, Liberdade”, atual novela das 23h, iniciada no dia 11 de abril de 2016. A história assinada pelo autor Mário Teixeira e dirigida por Vinícius Coimbra finaliza seu ciclo mostrando uma trama atraente, boas atuações, direção segura e deixando como maior legado a abordagem de aspectos do Brasil de 1808 que, infelizmente, perduram até hoje, como a discriminação, a corrupção e o conservadorismo — em especial em suas semanas finais, que deram um gás especial à trama.

Baseada no livro “Joaquina, filha de Tiradentes”, de autoria da escritora Maria José de Queiroz, a novela foi inicialmente escrita pela ex-colaboradora Márcia Prates, que integrou a equipe de autores renomados como Gilberto Braga, João Emanuel Carneiro e Aguinaldo Silva. Márcia contaria com a supervisão de Euclydes Marinho, autor da elogiada série Felizes Para Sempre, porém, os primeiros capítulos foram reprovados e Marinho foi afastado. A veterana Glória Perez assumiu o posto de supervisora, mas logo o deixou em virtude de sua novela À Flor da Pele (prevista para abril de 2017). A função passaria ao autor Mário Teixeira, que foi parceiro de Walcyr Carrasco em O Cravo e a Rosa (2000). Ainda assim, os problemas persistiram (alegou-se inconsistências históricas) e a solução foi afastar Prates, promovendo Teixeira a autor principal — Márcia foi creditada como autora do argumento (sinopse). Todo esse conjunto de bastidores e trocas de autores poderia causar uma impressão negativa, mas o primeiro capítulo surpreendeu positivamente e a trama aos poucos foi se revelando atraente, apesar de suas duas primeiras semanas darem a impressão de um longo prólogo.

A novela contou a história de uma personagem desconhecida do grande público: Joaquina (Mel Maia/Andreia Horta), filha de Tiradentes (Thiago Lacerda), o mártir da Inconfidência Mineira. A ação tem início em torno de 1792, quando um membro do grupo, Rubião (Mateus Solano), delata todo o plano dos rebeldes, levando o alferes à morte na forca — e pouco mais tarde mata a mãe da menina, Antônia (Letícia Sabatella). Com a morte dos pais, a pequena Joaquina é acolhida por um simpatizante dos revoltosos, Raposo Viegas (Dalton Vigh), que a leva para Portugal e lhe dá um novo nome: Rosa. Ela se torna uma jovem refinada e adepta da justiça social, retornando ao Brasil em 1808, juntamente com a ida da família real portuguesa — período no qual a história começa a se desenrolar. Ao retornar a Vila Rica, a jovem se choca com a pobreza e o atraso existentes e acaba despertando o interesse de Xavier (Bruno Ferrari), um jovem adepto do separatismo, e de Rubião, agora intendente de Vila Rica.

Todo este pano de fundo foi enriquecido devido aos conflitos de Rosa com o pai, que no passado apoiou os inconfidentes, mas passaria a ter posições conservadoras por ser fiel à Coroa. Ela também acaba confrontando a tia, Dionísia (Maitê Proença), irmã de Raposo, por discordar dos castigos físicos impostos aos escravos. Nesse meio tempo, Rosa acaba se apaixonando por Xavier, que está prestes a se casar com a mimada Branca Farto (Nathalia Dill), uma jovem voluntariosa, egoísta e hipócrita, que faz de tudo para difamar a rival, na tentativa de manter o seu noivado.

Este eixo principal rendeu boas cenas e evidenciou o talento de Andreia Horta, uma das melhores atrizes de sua geração, que faria sua primeira protagonista de uma novela global com esta personagem. Rosa mostrou-se uma heroína forte, de personalidade, mas que também guardava traços de fragilidade, em decorrência da morte dos pais. Andreia emocionou em todas as cenas e honrou sua escolha para o posto com muita competência e veracidade cênica, além de esbanjar química com Bruno Ferrari (que, ironicamente, foi seu irmão em Chamas da Vida, na Record) e até mesmo com Mateus Solano. Deve-se ainda destacar o brilhante desempenho de Mel Maia, que viveu a pequena Joaquina nos primeiros capítulos e impressionou pela maturidade, entregando uma promissora personagem para Andreia, que honrou o grande trabalho da colega.

A mocinha, por sua vez, também se afeiçoou a Virgínia (Lilia Cabral), cafetina dona de um bordel em Vila Rica, que a ajudou quando pequena, na época da morte de Tiradentes. E este relacionamento a aproximou de Raposo, apesar do comportamento conservador deste. Lilia Cabral, após um grande momento em Império como a protagonista Maria Marta, emocionou novamente, repetindo a boa sintonia com Andreia Horta (que foi sua filha na novela anterior) e mostrando bastante química com Dalton Vigh — a química que não existiu em Fina Estampa (2011/12), na época em virtude dos péssimos personagens e história que Lilia e Dalton receberam.

Outro personagem que também foi bem desenvolvido foi o irmão de Rosa, André (Caio Blat), filho biológico de Raposo, que se envolveu inicialmente com a prostituta Mimi (Yanna Lavigne), com quem viveu uma relação de amizade e companheirismo mútuo, e posteriormente com Tolentino (Ricardo Pereira), um militar da guarda da Coroa portuguesa, por quem acaba se apaixonando. O sentimento foi recíproco, mas também marcado pelo comportamento machista e agressivo do capitão. Caio Blat mostrou química tanto com Yanna quanto com Ricardo, que voltaria a viver um personagem lusitano (o ator é português).

Entretanto, um dos coadjuvantes de maior sucesso da trama foi Mão-de-Luva (Marco Ricca), um bandoleiro que vive à margem da Coroa e faz sua própria lei. O “salteador”, como era conhecido, aos poucos foi se mostrando um personagem carismático e divertido, ganhando um merecido espaço, graças ao talento e à competência de Marco Ricca, que imprimiu um excelente tom sarcástico ao malandro. Não à toa, seu personagem ganhará um spin-off (série derivada) exclusivo para a internet, intitulado A Lenda do Mão de Luva, em oito episódios a serem exibidos no portal Gshow/GloboPlay.

Quem também merece elogios é Nathalia Dill, que brilhou absoluta como a vilã Branca. A atriz deu o tom perfeito para a exagerada e voluntariosa jovem, que fez de tudo para acabar com a reputação de Branca, mas morreu — literalmente — provando do próprio veneno. A personagem estava originalmente cotada para Mariana Ximenes (que foi deslocada para a novela das 19h, Haja Coração) e para Marjorie Estiano (que passou a integrar o elenco da série Justiça, que substituirá a novela das 23h após as Olimpíadas). Com as recusas, Nathalia ganhou sua melhor personagem desde a Doralice, de Cordel Encantado (2011), e, sem dúvidas, seu melhor papel na carreira. Além dela, deve-se destacar também Juliana Carneiro da Cunha, que viveu a tia de Branca, Alexandra, que se apresentou como uma mecenas pronta para ajudar os rebeldes na luta contra a Coroa, mas na verdade era uma golpista que pretendia usá-los em benefício próprio para derrubar Dom João VI e assumir o poder.

Um ponto de destaque na trama foi a abordagem histórica de aspectos do Brasil que existiam na época e persistem até hoje, como a corrupção (pelos injustos e excessivos impostos cobrados pela Coroa da época) e em especial o preconceito e o conservadorismo, retratados em várias camadas de personagens da trama, como Dionísia (a fazendeira que usa um de seus escravos como objeto sexual), Branca (a vilã hipócrita que transava com o noivo na igreja, mas fazia panfletos para difamar a rival Rosa) e Rubião (cujo discurso lembra muito o de deputados e pastores evangélicos que posam de defensores dos “valores da família” e dos “cidadãos de bem”), representando um movimento que vem ganhando força no Brasil nos últimos anos. Um bom exemplo foi a cena de sexo envolvendo Tolentino e André, a primeira entre dois homens na TV brasileira, que, assim que foi anunciada, provocou revolta em setores religiosos e conservadores, mas atraiu o público e chamou atenção pela sutileza com que foi feita. Posteriormente, a prostituta Gironda (Hanna Romanazzi) flagrou um encontro posterior dos dois e denunciou André para a Coroa. O racismo também foi abordado através de Bertoleza, que mesmo alforriada, chegou a ser vendida para um feitor, Gaspar (Rômulo Estrela) e foi posteriormente libertada; e de Jacinta (Dani Ornellas), uma ex-escrava de Raposo que foi estuprada pelo feitor Malveiro (Bruce Gomlevsky) e, mais tarde, volta alforriada e nobre, casada com o coronel Omar (Bukassa Kabengele) e se vingando do homem que a fez mal. Estas abordagens mostraram que os preconceitos vigentes no país acabam se enraizando até mesmo nas próprias minorias, que algumas vezes também agem como seus agressores (a prostituta que odeia homossexuais, a escrava que é racista com a negra alforriada, etc.).

Ainda assim, a trama não escapou de alguns erros. A história de Rosa/Joaquina envolvia um livro deixado por Tiradentes, contando sua trajetória. Este livro chegou a ser guardado por Joaquina, porém, passou vários capítulos esquecido na história, até ser flagrado nos últimos capítulos por Rubião, que descobre a verdade sobre a rebelde, com quem havia acabado de se casar. Ficou a imagem de que se investiu mais na história pessoal da protagonista em vez de sua relação com o pai biológico e os desdobramentos que culminariam na proclamação da Independência do Brasil. Não que a história da protagonista tenha deixado a desejar no todo, mas o contexto histórico poderia ser um pouco mais enriquecido neste ponto, como foi na abordagem do conservadorismo.

Alguns personagens não tiveram muita função e acabaram ficando avulsos na trama, como o casal Simoa (Letícia Isnard) e Caldeira (Jairo Mattos), donos da taverna frequentada por parte do elenco. Quem também não teve muita função foi Ventura (Vitor Thiré), irmão de Rubião, cego e de comportamento diferente do mesmo. Ele chegou a ter um envolvimento com Bertoleza, porém, depois que ela foi libertada ao ser capturada por Gaspar, o personagem acabou jogado na história sem muita importância.

E o maior erro da novela foi a condução do personagem Raposo. O pai de Rosa vinha apresentando boas cenas com Maitê Proença, Andreia Horta e Lilia Cabral, mostrando-se um ótimo papel para Dalton Vigh, que vinha de personagens de pouca expressão. Porém, do nada, Raposo sumiu durante algumas semanas sem maiores explicações. Cogitou-se o fato de o sumiço estar relacionado ao fato de o ator estar na expectativa do nascimento de seu filho, mas nenhuma razão foi alegada oficialmente. Para piorar, Raposo voltou à novela e, dias depois, foi morto por Rubião ao descobrir que o intendente roubou seu ouro. Esta decisão de matar o personagem, além de enganosa, não acrescentou em nada à trama.

Ainda assim, a reta final da novela ganhou bons contornos com a entrada de Duque de Ega (Gabriel Braga Nunes), um interventor nomeado para substituir Rubião no comando de Vila Rica. Aos poucos, foi revelado que Ega estava mancomunado com o plano de Alexandra, aproveitando a estadia de Dom João VI no Brasil para o casamento de Rosa com o intendente. O personagem foi prejudicado pela inexpressividade de Braga Nunes, que repetia atuações anteriores. Pouco depois, em uma desastrosa ação para matar o então príncipe regente, Ega e Alexandra acabam condenados à forca e o intendente retoma seu posto.

E os desdobramentos do casamento de Rosa com Rubião renderam mais sequências impactantes, aumentando a adrenalina da reta final. Com a ajuda de Anita, ele descobre que Rosa é Joaquina, a filha do mártir da independência que denunciou, e ela descobre que o marido matou Raposo. As fortes cenas realçaram ainda mais o desespero de Joaquina e o lado mais cruel e sanguinário de Rubião, que a tortura e estupra. Andreia Horta e Mateus Solano deram um show nessas sequências e expressaram perfeitamente a dualidade de sentimentos. Com a descoberta, Joaquina se junta a Virgínia e ao bando de Mão de Luva, para derrotar o intendente.

No penúltimo capítulo, André acaba preso mais uma vez, agora por ter se envolvido com outro homem, despertando o ciúme de Tolentino, que desta vez permitiu que ele fosse para a forca — juntamente a Xavier, condenado por crime de lesa-majestade por confrontar Rubião. A morte de André emocionou e Andreia brilhou mais uma vez, com a tristeza de Joaquina ao perder o irmão, enquanto a revolta liderada por ela chega a Vila Rica e impõe o caos na cidade, permitindo que Xavier consiga escapar.

O último capítulo, marcado pela rebelião geral em Vila Rica, se iniciou com as reações à morte de André, mostrando o desespero de Mimi e o sentimento de culpa de Tolentino, cuja covardia não lhe permitiu impedir a morte do fidalgo, além do sepultamento do rapaz ao lado do pai, Raposo. Logo depois, o militar cai nas garras de Xavier e trata de contar para Joaquina toda a verdade sobre Rubião e a morte de seus pais biológicos. A revolta da heroína e sua vingança contra o intendente era o momento mais esperado do capítulo, porém, numa sacada surpreendente — e também decepcionante —, antes mesmo que a mocinha pudesse ter um confronto final com Rubião, ela o encontra morto, atingido por uma facada, deixando subentendido que ele foi assassinado pela governanta Anita. A ideia do autor foi surpreendente pela intenção de fugir do que seria óbvio (a própria protagonista matar Rubião) — com a intenção de manter Joaquina fiel aos seus ideais e não os contradizer cometendo um assassinato — porém, decepcionou pelo fato de não ter sido sequer mostrado o ato do crime, além do fato de que a mocinha não pôde consumar a vingança por todo mal que o corrupto fez à sua família, uma vez que o homicídio foi cometido por outra pessoa. Também soou pouco crível o fato de Joaquina ter sido presa devido à morte cometida por Anita. Devido à prisão, a heroína é condenada à forca, mas, por força da rebelião, consegue escapar e fugir para Lisboa com Xavier. Em todas as sequências, Mateus Solano, Andreia Horta, Bruno Ferrari e Ricardo Pereira se destacaram. Foram mostrados ainda o desfecho de Padre Vizeu (Marcos Oliveira), que morre e deixa os diamantes para Mão de Luva, e de Anita, que se mostra surtada após matar Rubião, a quem tinha grande devoção.

No tocante ao horário, percebeu-se em Liberdade, Liberdade uma menor ousadia (se comparada com tramas como O Astro, Gabriela e Verdades Secretas) em relação às cenas de nudez e sexo, que nesta trama se mostraram mais veladas. Não que este seja um erro propriamente dito, ou que o horário exija este tipo de cena, mas é um ponto a se considerar, embora não afete tanto o resultado final.

Mesmo com os erros apresentados, a audiência correspondeu, totalizando uma média geral de 18,5 pontos — inferior a Verdades Secretas (20 pontos), O Astro e Gabriela (19 pontos cada uma), mas superior a Saramandaia e O Rebu (15 pontos cada). Porém, durante boa parte de sua exibição, a novela pouco repercutiu, o que é uma pena. Apenas com a exibição da cena entre Tolentino e André a trama ganhou repercussão e se manteve assim até o último capítulo — que marcou 22 pontos, cinco a menos que o final da trama antecessora (que havia sido exibido numa sexta-feira). Na mesma última semana, registrou-se o recorde da novela, na segunda-feira (01 de agosto), com 28 pontos — superando o já mencionado recorde de Verdades.

Liberdade, Liberdade teve um saldo geral positivo e o autor Mário Teixeira conseguiu corrigir a má impressão deixada pela fraca I Love Paraisópolis, exibida na faixa das 19h em 2015. A novela das 23h foi marcada pelo elenco afinado, com personagens carismáticos, alguns erros de condução — não propriamente graves, mas que fizeram alguma diferença — e principalmente pela abordagem de contextos do país que ainda persistem e duram até hoje. Mesmo sem ter tido o impacto e a repercussão de tramas como “O Astro” e “Verdades Secretas”, a trama cumpriu sua missão e trouxe bons pontos. Que venham mais e mais novelas abordando a história do Brasil, como foi Liberdade, Liberdade. É um tema que merece muito ser explorado.

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