Na Semana da Mulher, “Rock Story” acerta e “A Lei do Amor” comete grave falha

Durante a semana do Dia Internacional da Mulher, em meio às discussões em torno da luta constante das mulheres pela conquista de seu espaço na sociedade e contra toda e qualquer forma de violência e preconceito, duas das atuais novelas globais abordaram o tema de formas totalmente opostas, em todos os sentidos. A julgar por tudo que foi apresentado, ficou evidente a superioridade de “Rock Story”, trama das 19h, sobre “A Lei do Amor”, das 21h.

Na trama de Maria Helena Nascimento, o ponto de partida foi o vazamento de fotos íntimas de Diana (Alinne Moraes) por parte do ex-noivo Léo Régis (Rafael Vitti). Como parte de sua vingança para humilhar a diretora artística da Som Discos após ser abandonado no altar, o ídolo teen chegou ao ponto mais baixo ao divulgar imagens de um ensaio sensual que a então noiva havia feito para ele. Em virtude disso, Diana anunciou que processaria o cantor, que aproveitou a oportunidade para se fazer de sonso e negar tudo.

O vazamento revoltou as fãs de Léo e chocou até mesmo Neia (Ana Beatriz Nogueira) e Lázaro (João Vicente Castro), que condenaram o ato do sertanejo, ainda mais após as provas apontadas pela perícia policial. Porém, com medo de voltar aos tempos de vacas magras em função da imagem queimada de Léo — e dos prejuízos que fatalmente teria — Neia convocou uma coletiva assumindo a culpa no lugar do filho, fazendo com que o fã-clube dele o “perdoasse”. O caso permite traçar um paralelo com um caso recente da vida real envolvendo o cantor de funk Biel, que assediou uma jornalista durante uma entrevista. O cantor perdeu público, mas já ensaia uma retomada na carreira e ainda teve a “defesa” do pai.

Entretanto, outras duas pessoas também sofreram com o trauma da exposição das fotos: Chiara (Lara Cariello), filha da executiva; e Yasmin (Marina Moschen), irmã de Léo Régis. A garotinha foi protegida ao máximo, mas descobriu o vazamento através do bullying dos colegas de escola, que viram as imagens íntimas da mãe. Já a patricinha relembrou um caso semelhante que aconteceu com ela: estava prestes a transar com um jovem quando descobriu que era filmada por um primo dele, escondido. Por sorte, ela conseguiu arrancar o celular das mãos e apagar as imagens, o que não evitou que ela sofresse e sentisse culpa pelo ocorrido, a ponto de ser humilhada pela família do rapaz — o pai dele “amenizou” o ocorrido argumentando que ele era jovem e que a culpa era dela por estar no quarto. Em função disso, Yasmin se sentia insegura para poder ter sua primeira noite com Zac (Nicolas Prattes), que fez questão de apoiá-la.

As sequências de “Rock Story” serviram como um importante mensagem sobre os danos morais causados pela pornografia de vingança (ou em inglês, revenge porn), um problema que atinge muitas pessoas, em sua maioria mulheres. Além disso, o tom adotado pela autora chamou a atenção por não ser excessivamente didático, dosando o alerta com o universo do horário. As cenas ainda valorizaram o talento de Alinne Moraes, Ana Beatriz Nogueira, Lara Cariello, Marina Moschen e Rafael Vitti, que está ótimo na fase mais “sombria” do cantor.

Em compensação, “A Lei do Amor”, que capenga cada vez mais em termos de trama e audiência, desceu ainda mais baixo. Ao longo da semana, a repentina mudança de personalidade dos personagens fez mais uma vítima: o mocinho Pedro (Reynaldo Gianecchini). Um dos personagens mais íntegros da trama de Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari, o protagonista, do nada, virou um sujeito sonso, canalha e machista, a ponto de trair a esposa Helô (Cláudia Abreu) com uma ex-namorada do passado, Laura (Heloísa Jorge), que tem uma filha com ele e que também escondeu dele este fato. Sem qualquer razão aparente, Pedro se comportou como se estivesse assumindo a família de Laura, sem se preocupar com os sentimentos de Helô, que havia perdido um bebê e estava grávida de novo — desta vez, ela não pretendia revelar ao marido a nova gestação.

A gota d’água se deu quando a mocinha flagrou o marido na cama com Laura, revivendo o trauma da primeira fase (quando o viu com Suzana, personagem de Gabriela Duarte), em cena exibida justamente no dia 8 de março. Desta vez, diferentemente da outra ocasião, na qual o ex-mocinho foi vítima de uma armação, agora Pedro transou com Laura por vontade própria. Ao discutir com a mulher, ele admitiu que transou com a antiga namorada com uma impressionante naturalidade, como uma “lembrança dos velhos tempos”. O sofrimento causado a Helô confirmou o quão deteriorada ficou a trama do casal protagonista, que vinha sofrendo com a falta de conflitos e passou a ter situações completamente inverossímeis, como esta. A mudança de personalidade de Pedro chamou atenção por sua forma totalmente superficial e inesperada, uma vez que esta traição não condizia com o perfil apresentado pelo personagem ao longo da trama.

Deve-se ainda mencionar o machismo impregnado no triângulo amoroso entre Tiago (Humberto Carrão), Letícia (Isabella Santoni) e Isabela/Marina (Alice Wegmann). Desde que reapareceu, Marina tem deixado dúvidas sobre sua personalidade: se era Isabela mesmo ou uma parente que voltou para se vingar de Tiago. Com isso, ela investe frequentemente na sedução para tentar enlouquecer o rapaz, que novamente trai a esposa sem o menor remorso, como já fazia com Isabela. A diferença é o comportamento de Letícia: outrora uma garota intragável, a jovem foi redimida de forma muito rápida e se transformou em uma mocinha passiva. O machismo se dá em virtude das tentativas de se colocar o neto de Magnólia (Vera Holtz) como vítima “da chatice” de Isabel e da “sedução ardilosa” de Marina. Estes dois problemas evidenciam ainda mais os rumos perdidos da novela das 21h.

A diferença entre as abordagens dos temas em “Rock Story” e “A Lei do Amor” ressaltam o quão importante, além de uma boa história, é uma condução precisa, que retrate os temas com respeito e inteligência. Não se exige aqui que as novelas “só dêem bons exemplos”, o que seria impossível, uma vez que são obras puramente ficcionais. No entanto, quando uma história se propõe a abordar um tema relevante à sociedade, deve-se ter um mínimo de respeito pelo assunto, adaptá-lo ao contexto do horário da trama que é exibida e respeitar o público. Estes são os fatores que colocam a trama das 19h em grande vantagem sobre a das 21h.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.