Reta final de Orgulho e Paixão proporciona adrenalina, emoção e grandes cenas

Thallys Bruno
Sep 4, 2018 · 5 min read

A menos de um mês de encerrar sua trajetória, Orgulho e Paixão vem fazendo por merecer os elogios. A novela das seis de Marcos Bernstein tem ganhado cada vez mais fôlego e encantado pelo seu enredo ágil, repleto de bons entrechos e personagens carismáticos. E o mais recente mês de trama proporcionou momentos de pura emoção e adrenalina, valorizando o seu elenco e fazendo jus à sua ótima repercussão.

O primeiro destes grandes momentos foi a esperada primeira noite de amor entre Julieta (Gabriela Duarte) e Aurélio (Marcelo Faria). O casal mais maduro da novela enfim se entregou plenamente ao desejo contido que sentiam um pelo outro e promoveu uma verdadeira celebração do amor e da felicidade, sacramentados pela intensa química e pelo talento dos intérpretes. Foi difícil não se emocionar com a Rainha do Café redescobrindo a mulher que ainda existia dentro dela ao lado de seu grande amor, coroando uma história que parecia improvável nos primeiros capítulos.

Logo depois, foi a vez de Mariana (Chandelly Braz), que havia se disfarçado como Mário para chamar a atenção de Brandão (Malvino Salvador), revelar para todos o seu segredo ao vencer uma corrida. A ousadia da aventureira das irmãs Benedito despertou a revolta do vilão Xavier (Ricardo Tozzi), que tratou de sequestrá-la e, durante o cárcere, cortou seus cabelos, traumatizando a jovem e evidenciando a importância de se combater as mais variadas formas de violência contra a mulher, através do trauma psicológico sofrido por ela. Chandelly aproveitou cada cena e brilhou muito, fazendo de Mariana o melhor papel de sua trajetória.

A obsessão de Xavier por Brandão, aliás, fez com que ele armasse junto a Virgílio um plano para colocar o coronel atrás das grades, armando um atentado contra Elisabeta (Nathalia Dill), que resultou em Darcy (Thiago Lacerda) ferido pelo irmão crápula de Ernesto (Rodrigo Simas) disfarçado como o justiceiro Motoqueiro Vermelho — alter ego do militar, que acabou preso e precisou revelar que era o homem por trás daquelas roupas, embora alegue sua inocência. Malvino Salvador, aliás, merece os elogios por ter conseguido se reinventar dos tipos “broncos” pelos quais era conhecido nos últimos tempos e ainda mostrou uma surpreendente sintonia ao lado de Chandelly, tornando o par Brandão e Mariana ainda mais cativante.

Outra importante virada mostrada foi o casamento surpresa de Ema (Agatha Moreira) e Ernesto (Simas). Um dos casais mais queridos da novela, o par Erma surgiu à medida que a “baronesinha” se desligou de Jorge (Murilo Rosa) e se entregou de vez ao carcamano boa praça, com o qual vivia em um clima de gato e rato. A felicidade do par rendeu cenas lindas que reforçaram a química arrebatadora de Agatha e Rodrigo Simas e ainda foi temperada pela maldade “frustrada” de Lady Margareth (Natália do Vale), que mandou destruir a festa de casamento, mas acabou presa na igreja e “torturada” pela sobrinha Charlotte (Isabella Santoni), que garantiu que a tia não iria causar maiores prejuízos.

Mais tarde, Darcy e Elisabeta também tiveram o seu “final feliz”. O casal finalmente conseguiu destruir as provas que Margareth e Susana (Alessandra Negrini) tinham contra a mocinha no caso da expulsão da fábrica e, logo depois, seguiu para uma igreja isolada, se casando “sozinhos” fisicamente. A sequência ficou ainda mais bonita graças à boa ideia de colocar os amigos e familiares dos mocinhos presentes na imaginação dos mesmos e o final ainda foi temperado por um belíssimo texto de Elisabeta sobre o amor, retratando suas diferentes formas através de todos os casais da novela.

Ainda merece destaque a delicada construção do amor entre Luccino (Juliano Laham) e Otávio (Pedro Henrique Muller), que ganhou forma quando finalmente o irmão de Ernesto assumiu os sentimentos pelo militar. A sutileza das sequências fez o casal se tornar mais um grande acerto do enredo, bem como a boa abordagem do preconceito sofrido por ambos no momento em que o italiano foi expulso de casa pelo pai, Gaetano (Jairo Mattos). O desenvolvimento da trama permitiu a Juliano Laham crescer em cena e emocionar e ainda revelou o talento de Pedro Henrique Muller, proporcionando-lhes momentos de pura sensibilidade, em especial quando Otávio cogita deixar a cidade, mas Luccino vai atrás de seu amor e o impede. Sem pretensão de levantar bandeiras, o autor tratou da homossexualidade de uma forma muito mais folhetinesca, carismática e esclarecedora do que muitas tramas das nove, como “O Outro Lado do Paraíso”, de Walcyr Carrasco, que falhou miseravelmente neste aspecto.

E o ápice desta reta final se apresentou nesta segunda-feira, dia 3 de setembro. No final do capítulo, se transcorreu a sequência mais dilacerante do enredo de Bernstein, em que finalmente Julieta revela que o filho Camilo (Maurício Destri) era fruto de um estupro. O rapaz descobriu que o pai, Osório Bittencourt (que não é interpretado, apenas mencionado) não era o homem honesto que acreditava ser após ouvir Mercedes (Luana Xavier), sua ex-escrava, revelar que era muito agressivo com todos. Pouco depois, a Rainha do Café foi à igreja e confessou ao padre toda a violência que sofreu e que a traumatizou, sem imaginar que quem estava do lado era seu filho. À medida que a narrativa transcorria, mãe e filho não conseguiam mais disfarçar o horror da violência cometida por Osório contra Julieta.

A sequência foi a coroação do brilhante trabalho apresentado por Gabriela Duarte e Maurício Destri, que mais uma vez esbanjaram emoção e protagonizaram uma das melhores sequências da teledramaturgia no ano. Gabriela, há anos fora da TV (sua última novela havia sido Passione, em 2010), ganhou o tipo mais rico da novela e mais diferenciado de sua carreira, reafirmando que herdou mesmo o talento de sua mãe, a grandiosa Regina Duarte. E Destri, surgido em Cordel Encantado, fez valer a evolução cênica que tem mostrado em sua promissora trajetória, dando vazão à dor de Camilo ao descobrir os horrores sofridos pela mãe.

Ao mesmo tempo, ainda se destaca no enredo a “união” promovida entre os vilões da trama. O autor foi sagaz em juntar Lady Margareth, Suzana, Xavier, Petúlia (Grace Gianoukas), Tibúrcio (Oscar Magrini), Uirapuru (Bruno Gissoni) e Josephine (Christine Fernandes) como um grande esquadrão do mal, disposto a sabotar a felicidade dos mocinhos e até mesmo de si próprios, caso não atinjam os interesses desejados. Ao mesmo tempo, novos conflitos se desenham para os personagens do bem, enriquecendo ainda mais as suas tramas.

Por tudo que tem apresentado, Orgulho e Paixão pode ser considerada uma das melhores novelas das seis da década com certa tranquilidade. Embora não seja um fenômeno de audiência em números — especialmente devido à baixa entrega da fracassada temporada atual de Malhação, “Vidas Brasileiras” — , a novela sempre consegue surpreendentes elevações de um produto para outro, o que a possibilita se manter na média do horário (atualmente está com 22 pontos, apenas 1 a menos que Tempo de Amar, a antecessora). Marcos Bernstein soube se reinventar após o fracasso de Além do Horizonte e construiu uma trama repleta de carisma, personagens cativantes, enredo consistente e ágil e um elenco preciso, onde até mesmo alguns nomes sobre os quais havia expectativa baixa surpreenderam positivamente. E ainda vem muito mais por aí.

    Thallys Bruno

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    Nem sempre é so easy se viver.