Cotidiano Sem Graça

Queria ter acordado meia hora mais cedo para ver o amanhecer, os raios de sol cortando o cinza daquela manhã desanimada de terça. Sentir o sereno em meu rosto, se acumulando em meu cabelo, pra colocar a cabeça no lugar depois de uma noite mal dormida. Queria ter escrito algo para desabafar, ou algo bonito, mas a correria cotidiana me tira o tempo para escrever. Tanta coisa a ser feita em tão pouco tempo.

Queria não ter feito sinal pro ônibus das sete. Ele estava cheio e mal ventilado, não teria acontecido isso se minha impaciência me largasse de mão por meia hora. Acontece que não podemos controlar algum sentimentos, e a impaciência é só mais um na longa lista de coisas involuntárias da vida. Queria ter levado comigo Cuba Libre (apesar de já ter lido várias vezes, continua sendo um dos meus livros preferidos), e ficar imaginando como seria viver um romance como aquele. Queria também ter elogiado a moça que sentou no banco ao lado, com seus cabelos azuis e radiantes, mas seria errado.

Queria não ter chegado uma hora mais cedo no trabalho. O sono permanecia cruel, ao incessantemente tentar fechar meus olhos, me obrigando a tomar “aquele misto de má vontade matinal e pó torrado”, como gosto de chamar o café lá do escritório. Gostaria de escutar algo mais animado. Talvez um pouco de Dear Nora, pra fugir um pouco daquela tristeza e solidão que as músicas do Salvia Palth e Radiohead me trazem.

Queria ter aproveitado mais a hora do almoço para andar pelo Centro. Visitar o Belas Artes mais uma vez, talvez tomar um café em algum lugar, ou quem sabe um conhaque. Mas foi o mesmo de sempre: acabei indo almoçar sozinho em algum restaurante, ou simplesmente comer uma coxinha no galeto que fica ali por perto. Um almoço sem graça para conbinar com uma vida sem graça.

Conforme as horas vão passando, a sensação de inutilidade aumenta. Querer fazer tantas coisas, querer tantas coisas, querer tantas pessoas por perto.

Querer, mas não poder. E tudo se torna mais triste por isso. E agora, só se quer perder o menor tempo possível na rua, pegar o primeiro ônibus para chegar o mais rápido possível em casa, mesmo sabendo que não há nada ou ninguém importante te esperando na varanda, só o fato de se sentir mais solitário no conforto da sua cama.

Querer, mas não poder. E assim, ele segue a vida um dia por vez. Sem caminho certo, sem planos, sem felicidade.

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