A graça em ter muitas plantas

Minha casa tem muitas plantas. Ela é até conhecida entre meus amigos por isso. Da última vez que contei, tinha acho que 33 tipos diferentes de plantas, mas algumas morreram e não repus, então deve ter um pouco menos que isso.

Muita gente fala que não consegue cuidar das plantas e, de fato, exige algum trabalho. Elas precisam ser observadas, regadas ao longo da semana em dias diferentes, mudadas para vasos maiores, encontrar lugares onde a luminosidade as deixe de melhor humor. É algo que acaba consumindo algumas horas todas as semanas, mas eu nunca sinto que estou perdendo tempo ao fazer. É algo que eu faço com muito carinho, enquanto peço para as visitas tamparem o pote de requeijão para eu espirrar veneno para cochonilha nas samambaias ou cantarolo algum jazz de pijama, porque nunca consigo decorar letras de jazz, e tudo bem, porque não faço para impressionar, para criar uma ideia de como sou plena e maneira na minha florestinha urbana, é só algo que eu faço por mim e por elas, tendo gente em casa ou não.

Sentei para escrever esse texto após observar o crescimento da minha costelinha de Adão. Faz alguns dias que penso sobre isso, tento entender o que essa plantinha representa para mim e como ela é importante. Porque toda planta veio parar aqui por um motivo, cada uma tem uma história — às vezes, a história é pouco empolgante, como “vi, achei bonita e comprei”, mas esses casos costumam estar amarrados com algum acontecimento daquele dia que valeu a representação num vaso novo.

Minha mãe me deu o vaso com a muda da costelinha de Adão há alguns meses, bem pequena, e ela não para de crescer. Acertei de primeira o local, a rega e o adubo. Parece que todo dia tem um novo raminho. Ontem, uma das folhas estava enrolada, verde bem clarinha, e hoje já desabrochou para crescer. Quando chegou, tinha acho que só uma folha; hoje, são três formadas, duas desenrolando e mais um monte nascendo.

De todas as plantas, essa é, provavelmente, a mais importante. Ela foi um presente da minha vó para a minha mãe há quase 40 anos.

Minha mãe também é louca das plantas e tudo que sei sobre cuidar de plantas, aprendi com ela. Ela tem uma intuição inexplicável para cuidar delas, ou talvez sejam os anos de prática. Minha mãe salva qualquer vaso e, assim como cuida do meu cachorro lá no interior, também tem alguns vasos meus sob sua guarda. Assim como o Bernardo, elas ficam muito mais felizes no quintal dos meus pais do que na minha sala de estar.

Ontem, seria aniversário da minha avó. Ela morreu há uns dois anos, e provavelmente foi embora sem se lembrar dessa costelinha de Adão. Ela não se lembrava de muita coisa; tenho minhas dúvidas se ela sabia quem era a Gio que ia visitá-la às vezes. Acho que ela só sabia quem era minha mãe porque chamava todo mundo pelo nome dela. Falar que a Gio era a filha da Fatima não ajudava muita coisa. Eu achava graça, porque ela olhava com uma cara de “ah tá, a Fatima não tem filhos mas finjo que acredito”. A memória da minha avó foi embora muito antes dela.

Quando ela morreu, eu não chorei ao receber a notícia, nem no enterro. Eu chorei antes, nos últimos dias, quando minha mãe me chamou para me despedir dela, e acho que foi por uma série de coisas que estavam acontecendo e encontrei nesse fato um jeito de extravasar.

Mas, quando me despedi dela, também não chorei. Não parecia uma despedida, também não parecia a minha avó. No enterro dela, não parecia ela no caixão. A minha avó já tinha ido embora muito antes.

A primeira vez que chorei com saudades da minha avó foi muito tempo depois do seu enterro. Eu sonhei que ela estava aqui, quer dizer, neste plano, acho que na antiga casa. Ela andava curvada e bem devagar, como andava mesmo. Eu segurava na mão dela, que era exatamente como eu me lembro — dedos longos e frios, com unhas compridas pintadas de um rosa apagado, a pele bem fina e um anel dourado e pontudo — , e dizia, chorando, que estava com muita saudade. Ela achava graça, dava risada, e dizia que também tinha saudade. Então, avisava que estava cansada, me dava tchau e ia dormir.

Eu raramente acordo chorando, mas, nesse dia, eu chorei ao acordar, no caminho para o trabalho, em algum momento no banheiro e novamente à noite. Provavelmente, foi minha despedida da dona Cida. E choro até hoje pensando nisso. Às vezes choro quando vejo fotos, quando conto histórias e definitivamente choro enquanto escrevo esse texto.

Então, olho pra trás e vejo minha costelinha de Adão. Quando ela chegou, comecei a brincar que, na minha família, a única herança que a gente tem são plantas — o que não deixa de ser verdade, já que minha avó não tinha herança para deixar para os filhos ou os netos. Mas olhar para a minha plantinha é ver algo muito mais valioso: é algo que esteve nas mãos dela, depois da minha mãe e, agora, na minha; que mudou de casa várias vezes, passou por várias cidades, várias condições de luz e umidade e continua crescendo.

Meio igual a vó da Pocahontas, que vive numa árvore, a minha vive numa costelinha de Adão. E eu posso tomar café ao lado dela todos os dias.