Baseado em fatos reais #3 — Coisas que acontecem em Vegas

Histórias que eu cansei de contar e resolvi escrever. Pode ou não ser real.
#1 — #2

Eu havia chegado em Las Vegas há algumas horas, depois de cinco horas num ônibus cruzando o deserto, vindo de Los Angeles. Falei para o motorista o endereço onde eu ficaria: não era nenhum hotel conhecido, era um hostel em Downtown Las Vegas, onde, descobri depois, as coisas se tornam mais próximas do real, com mendigos, usuários de drogas, casas de strip-tease e tudo o mais que seus pais te mandam ficar longe.

Desci sem nenhuma ideia de onde estava, mas relativamente perto do hostel, ainda assim sem saber em qual direção deveria ir, com um celular sem bateria para me orientar e uma Strip deserta e muito, mas muito quente e seu calor potencializado à quinquagésima potência pelas minhas calças jeans, minha ansiedade e pelas duas horas da tarde. Lembrei das fotos que tinha visto na internet, nas quais o hostel estava bem ao lado de uma placa branca escrita “Strip Club” em letras garrafais rosas, a mesma que aparece no filme Se Beber Não Case — o hostel fica no lugar exato da capela onde um deles casa. Não me pergunte, eu também não sei como fizeram isso.

Consegui encontrar a tal placa e fui, temendo que minha ausência de dinheiro que talvez resultasse em dormir na rua na noite de domingo para segunda, dividindo o jornal e um foguinho com algum usuário de crack. Eu tinha seis dólares no bolso, em um cartão pré-pago de viagem; me custaria três só para sacá-los, preço da taxa mais amigável das redondezas no ATM da farmácia da esquina. Consegui, depois de muito drama, sofrimento e vergonha, pagar o hostel digitando o número do cartão de crédito dos meus pais. Mas pegar o ônibus para ver a Strip e aproveitar minha primeira noite custaria… alguns dólares a mais que os seis que três que me sobrariam após o saque. Achei melhor esperar até o dia seguinte, quando meus pais poderiam me mandar mais dinheiro, e investir o que tinha em um jantarzinho pobre e simples no hostel mesmo. E, enquanto buscava esse jantarzinho na tal farmácia da esquina, poderia bater perna nas proximidades do hostel e ver como era Las Vegas pessoalmente, nem que fosse só um pedacinho.

Andei uns bons mil metros até chegar à farmácia, dessas americanas que vendem de tudo, logo depois do desativado e meio assombroso hotel Sahara — acredite, poucas coisas têm uma energia tão esquisita quanto um cassino abandonado. A região não ajuda: é extremamente deserta e não se torna muito mais acolhedora quando o sol começa a se por, mas o céu é ridiculamente bonito justamente pela ausência de prédios ali. Ainda assim, o por do sol dura só alguns minutos, então fui surpreendida por uma noite e um frio súbitos, para os quais não estava preparada.

O dia não estava dando muito certo para mim.

Comprei arroz e feijão (chili, na verdade), porque, há quase um mês nos EUA, já sentia falta de comida brasileira. Para fazer, era como um miojo: colocar na água fervente por três minutos ou algo assim.

Enquanto eu cozinhava na apertada cozinha do hostel, um cara de uns 40 anos puxou um papo comigo; small talk, como se diz lá, provavelmente sobre o meu jantar pobrinho. O dele, uma massa recheada, poderia ser bem mais atraente, mas não tinha molho e minhas raízes italianas não permitem gostar de algo assim (alguns anos depois, acho que era guioza).

Me sentei para comer, ele se sentou à minha frente e continuamos batendo papo durante o jantar. Comentei que havia chegado há algumas horas e ainda não tinha visto nada da cidade. Ele falou que, mais tarde, iríamos ver a Fremont Street e que ela é linda à noite. O hostel fazia passeios diários em Las Vegas à noite para mostrar as principais atrações para os hóspedes e, embora eu quisesse dormir cedo para acordar cedo na manhã do outro dia e começar logo a bater perna pelos muitos quilômetros da Strip (na verdade, 6,7 km), achei que poderia ser divertido aproveitar a primeira noite para ver as luzes dos cassinos antigos da Fremont Street e sua tela de LCD curvada e gigante. Falei que iria.

“Legal”, disse ele. “A gente sai daqui a uns 15 minutos, aqui no estacionamento”. Perfeito: 15 minutos foi o suficiente para eu trocar de roupa e jogar uma água no rosto suado e cansado para ficar com uma cara minimamente apresentável de novo.

Quando saí no estacionamento, encontrei o tal cara. E só ele. “Cadê os outros?”, perguntei; “Que outros? Somos só nós dois”.

Uou. Eu realmente não esperava isso.

Enquanto ia até o carro dele, pensei em maneiras de me proteger para o caso de… Bom, eu estava entrando no carro de um estranho em um país desconhecido, o que poderia dar errado? Tudo.

Perguntei seu nome novamente; era Jim ou Jeff? “Isso”, ele respondeu. “Jim ou Jeff?”, insisti. “Jim”. Ou “Jeff”. Os dois soaram exatamente a mesma coisa quando ele falou. Saquei o celular e mandei no Twitter: “Estou em um carro conversível verde que a porta não abre a caminho da Fremont Street com um cara chamado Jim ou Jeff que lembra o John Travolta antes das plásticas”. Vai que.

No caminho até a Fremont Street, Jim/Jeff me falou que ele já havia morado em Las Vegas há muitos anos e as pessoas que realmente moram na cidade costumam passar longe da Strip. Ele mesmo tinha morado em um condomínio fechado com casas imensas e uma vegetação incrível e, se eu quisesse, a gente poderia ir lá no outro dia — prontamente agradeci mas falei que tinha outros planos. Ele trabalhava com web design ou algo do tipo e estava no hostel para melhorar o site deles, usando seu trabalho para pagar a estadia lá.

Tirando as partes de total estranhamento da nossa noite passeando por Old Vegas — como uma hora em que eu devo ter tropeçado e pensado em voz alta “nossa, eu sou ridícula” e ele acariciou meu braço dizendo “não, você é uma graça”, ou outra em que um rapaz bêbado trombou comigo, Jim me puxou para perto e falou “se alguém chegar em você, diga que está comigo, ok? [pausa dramática] Até porque você está mesmo” — , não foi de todo ruim. Jeff havia passado alguns momentos da infância andando com o pai por Vegas e me contou várias histórias da cidade e daquela rua em especial, como a do hotel que havia sido perdido por seu dono em uma partida de pôquer ou que aquela foi a “primeira Strip”; a atual foi construída depois que os cassinos do centro começaram a ter que pagar impostos.

Ele me levou ao hotel do fim dessa rua, disse que ia encontrar alguém lá com quem ele tinha negócios a tratar. Sentei num canto e fiquei aguardando bem de longe porque vi filmes o bastante para saber que esses papos costumam terminar em tiroteio da máfia.

Ainda assim, não foi exatamente confortável passear pela rua com um desconhecido que obviamente tinha outros interesses na minha pessoa além de servir como guia turístico. Em defesa de Jim, ele não fez nenhuma investida ou me forçou a qualquer coisa, mas havia uma tensão permanente que não me permitia ficar à vontade. E, apesar de não beber, ele me ofereceu uma cerveja, que educadamente recusei, mais porque não tinha dinheiro para pagá-la e ele pagar por ela mais me faria sentir mal do que qualquer outra coisa.

Quando Jeff pediu para pararmos em um dos palcos em que uma banda estava tocando algum rock dos anos 80 — “eu ouvia muito isso quando tinha mais ou menos a sua idade”, disse, rindo envergonhadamente — , enviei uma mensagem a um amigo pedindo que me ligasse urgente pelo Skype. Um minuto depois, o telefone tocou e me afastei para atender. A chamada durou uns 15 minutos e, ao voltar para a companhia de Jim, comentei que era meu namorado. “Oh… Não sabia que você tinha uma namorado”, disse, visivelmente espantado. “Ele te deixa viajar sozinha numa boa? Eu não deixaria”.

Logo depois, estávamos novamente no conversível verde meio acabado, cuja porta não abria, mas Jay jurava que ia consertar o quanto antes, voltando para o hostel. Cheguei com o cabelo bagunçado do vento seco do deserto, rapidamente o arrumei, me despedi de Jeff agradecendo pelo tour e sumi no dormitório.

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